
Alexandre PUSHKIN

A FILHA DO CAPITO




Traduo
MARQUES REBELO

Titulo Original
Kapitanskava Dochka

Abril S A. Cultural e Industrial, So Paulo, 1980.




 NDICE

O sargento da guarda
O guia
A fortaleza
O duelo
O amor
A rebelio de Pugatchev
O ataque
Um conviva inesperado
A despedida
O cerco da cidade
A aldeia amotinada
A rf
A priso
O julgamento



CAPTULO 1
O SARGENTO DA GUARDA

Andrei Pietrvitch Griniov, meu pai, serviu,
quando jovem, sob o comando do Conde Minikh e se reformou
 como major em mil setecentos e tantos. Desde a, viveu
em sua aldeia, na provncia de Simbirsk, onde se casou com
Avdtia Vassilievna, filha de um empobrecido nobre da
regio. ramos nove irmos, entre meninos e meninas,
porm todos os outros morreram muito crianas. Eu fui alistado
 como sargento no Regimento Semionovski, por gentileza
 do major da Guarda, o Prncipe B., que era nosso
parente chegado, mas gozando de licena at acabar os
meus estudos.

Naquele tempo a educao no era como nos nossos
dias e, com cinco anos, fui entregue aos cuidados do servo
Savilitch que, por sua excelente conduta, foi designado
meu preceptor. Graas  sua devoo, aos onze anos j
sabia ler e escrever corretamente o russo, bem assim como
reconhecer as qualidades de um bom galgo. E, ento, para
aprimorar os meus conhecimentos, meu pai contratou os
servios de um francs - Monsieur1 Beaupr -, que veio
de Moscou juntamente com o estoque anual de vinho e azeite
 de oliveira. Tal deciso feriu profundamente Savilitch,
que resmungava:

"Senhor". (N. do E.)


- Acho que o menino est perfeitamente limpo, penteado
 e alimentado. Por que razo fazer uma despesa intil?
D at impresso de que no h gente aqui capaz de tomar
conta dele.

Beaupr havia sido cabeleireiro em seu pas natal, depois
 fora soldado na Prssia e viera para a Rssia para "ser
professor", conquanto no soubesse bem o que fosse ensinar.
 Era uma boa alma, mas extremamente desorientada.
Seu ponto mais fraco era a queda pelas mulheres, que lhe
valia freqentes sovas, e por conta das quais ficava de corpo
modo, gemendo um bom par de dias. Como se no bastasse,
 tinha forte inclinao para a bebida; segundo as suas
prprias palavras, "no era inimigo da garrafa", o que eqivalia
 a dizer que gostava de abusar dela. Mas, como o vinho
era servido muito racionadamente em nossa casa - um clice
 ao jantar e nada alm - e a rao do meu Beaupr era
costumeiramente esquecida, no teve ele outro remdio
seno se habituar aos licores caseiros russos, o que alis
rapidamente aconteceu, e chegando mesmo  concluso de
que eram mais saudveis para a digesto do que os vinhos
ptrios.

Prontamente nos entendemos e, embora ele tivesse a
obrigao de me ensinar francs, alemo e quantas matrias
pudesse, achou melhor aprender comigo a conversar mais
fluentemente em russo, e o resto cada um fazia como bem
queria. Assim sendo, vivamos s mil maravilhas, e no
poderia desejar eu outro mentor. Infelizmente o destino
depressa nos separou, e a razo foi a seguinte: a lavadeira
Palachka, gordota e bexigosa, e Akukha, moa zarolha e
que cuidava das vacas, caram um dia aos ps de minha
me, queixando-se, entre lgrimas, de que o francs as
importunava com os seus impulsos amorosos. Mame era


intransigente em questes de moralidade e fez pronta queixa
a meu pai, que mandou logo chamar o namorador  sua presena.
 Informaram-lhe que monsieur estava dando-me aula.
Papai marchou para o meu quarto. Foi encontrar o professor
 espichado na cama, dormindo a sono solto. Eu me ocupava
 em importante trabalho.  que haviam mandado buscar
 para mim em Moscou um bonito mapa, que fora
pendurado na parede, sem nenhum prstimo at ento, e que
eu andava namorando pela excelncia e tamanho do papel,
pretendendo fazer dele um papagaio. Exatamente naquele
dia, aproveitando o sono de Beaupr, resolvera pr mos 
obra. E, quando colocava um rabo de pano no cabo da Boa
Esperana, eis que papai entra. Vendo o meu exerccio de
geografia, deu-me um tremendo puxo de orelha, atirou-se
sobre o professor, acordou-o com um resoluto safano e
passou-lhe uma descompostura em regra. Claro que Beaupr
 tentou levantar-se. Foi impossvel - o pobre coitado estava
 inteiramente bbado. Meu pai suspendeu-o pela gola,
empurrou-o pela porta afora e no mesmo dia expulsou-o de
casa, para indescritvel jbilo de Savilitch. E de tal maneira
terminou a minha educao.

Passei a levar uma vida muito comum entre os meninos
 da aristocracia - descuidada, caando pombos, pulando
 carnia, inventando travessuras com a molecada da herdade.
 Mas, ao fazer dezesseis anos, as coisas mudaram.

Foi em certo dia do outono na sala de jantar. Mame
preparava um doce de mel e eu, lambendo os beios, observava
 a espuma que fervia na panela. Papai, junto  janela,
lia o Calendrio da Corte, que ele recebia todos os anos e
cuja atenta leitura provocava nele sempre uma singular reao
 biliosa. Minha me, que no ignorava os menores hbitos
 e enervamentos do marido, procurava por todas as


maneiras esconder a perturbadora publicao, e assim o
Calendrio da Corte, depois de chegado, passava meses sem
cair sob os olhos de papai. Mas, quando por acaso o encontrava,
 mergulhava nele horas a fio, de vez era quando sacudindo
 a cabea ou os ombros e rosnando surdamente:
Tenente-coronel. . . Vejam s! Ele, que na minha companhia
 no passava de sargento!. . . Condecorado com as
duas ordens russas! Quem poderia imaginar!. . . "

O mesmo sucedeu naquele dia, e, aps atirar o Calendrio
 da Corte sobre o diva, engolfou-se num profundo
meditar que no augurava nada de bom.

De repente, virou-se e perguntou  minha me:

- Avdtia Vassilievna, quantos anos tem Petruchka?

- Acaba de completar dezesseis - respondeu ela. -
Petruchka nasceu no mesmo ano em que a tia Nastcia
Guerassimovna sofreu o acidente em que. . .

- Muito bem - interrompeu-a meu pai. - Pois
ento j  tempo de mand-lo para o servio militar. Chega
de andar em estripulias.

A idia de uma prxima separao do filho, to subitamente
 lembrada, feriu de tal forma minha me que ela deixou
 a colher cair dentro da panela e as lgrimas escorreram-lhe
 imediatamente pelo rosto. Entretanto,  difcil
descrever o entusiasmo de que fui tomado. A noo do servio
 militar estava em mim intimamente ligada  da liberdade
 e dos prazeres da vida em So Petersburgo. E eu j me
imaginava oficial da Guarda, posio que achava ser o
ponto supremo da felicidade humana.

Papai no era homem de alterar ou adiar as suas decises.
 O dia da minha partida foi marcado.

Na vspera, disse ele que eu seria portador de uma
carta para o meu futuro comandante e requisitou caneta e
papel.

- No se esquea, Andrei Pietrvitch, de mandar
meus cumprimentos ao Prncipe B. - disse minha me. -
Espero que Petruchka continue a merecer a sua proteo.

- Que lembrana mais boba! - retrucou papai. -
Por que cargas-d'gua iria escrever ao Prncipe B.?

- Mas voc no disse que ia escrever ao comandante
de Petruchka?

- Precisamente.

- Ora, Petruchka est alistado no Regimento Semionovski
 e o comandante do Regimento Semionovski  o Prncipe
 B. ...

- Alistado! Que me importa que ele esteja alistado?
Petruchka no vai para So Petersburgo. O que  que poder
 aprender servindo l? Esbanjar dinheiro e fazer doidices?
De maneira nenhuma! Vai  para o exrcito. Carregar
mochila, sentir o cheiro da plvora. Ser um verdadeiro
soldado e no um malandro da Guarda! Onde voc meteu o
passaporte dele? Trate de encontrar.

Minha me foi buscar o passaporte, que guardava
numa caixa de madeira, junto com a camisinha com que eu
fora batizado, e o entregou a meu pai com a mo tremendo.
Papai leu o documento com a maior ateno, colocou-o depois
 sobre a mesa e comeou a escrever a carta.

A curiosidade me torturava. Se no era para So
Petersburgo, para onde me iriam mandar? De longe, acompanhava
 atentamente a mo de meu pai, que escrevia muito
devagar. Por fim ele terminou a missiva, meteu-a no envelope
 juntamente com o passaporte, lacrou-o, tirou os culos
e me chamou:

- Aqui tem voc uma carta para meu velho amigo e



camarada Andrei Karlovitch 1., sob as ordens de quem ir
servir em Orienburg.

E assim todas as minhas brilhantes esperanas ruram
por terra. Em vez da divertida vida em So Petersburgo,
aguardava-me o tdio dum lugar deserto e remoto. O servio
militar, que um instante apenas atrs despertava em mim
to grande entusiasmo, se apresentava agora como uma terrvel
 calamidade. Mas discutir a questo estava fora de cogitao
 ! Na manh do dia imediato, um tren me esperava 
porta de casa. Nele depositaram a minha mala, uma caixa
com o servio de ch e embrulhos de bolos e doces, ltimas
demonstraes dos mimos caseiros. Deram-me a bno e
meu pai falou:

- Adeus, Piotr. Sirva fielmente a quem prestar juramento.
 Obedea aos superiores. No fuja das obrigaes. E
no se esquea do provrbio: "Cuide da sua roupa nova e da
sua honra enquanto  jovem".

Derramada em lgrimas, mame recomendava que eu
tomasse cuidado com a sade e que Savilitch velasse bem
por mim. Vestiram-me um capote de pele de lebre e, por
cima, uma pelia de raposa. Acomodei-me no tren com
Savilitch e parti, os olhos inundados de lgrimas.

Cheguei a Simbirsk na mesma noite. Devia passar um
dia ali comprando coisas que me faltavam, tarefa de que
Savilitch foi encarregado. Permaneci na hospedaria enquanto
 ele varejava as lojas. Cansado de olhar pela janela o
imundo beco, fui perambular pelas dependncias da casa.
No bilhar dei com um cavalheiro alto, de uns trinta e cinco
anos, bigodes grandes e negros, enfiado num roupo; empunhava
 um taco e mordia o cachimbo. Disputava uma partida
 com o empregado do bilhar, que, se ganhava, embutia
um copinho de vodca e, se perdia, passava de gatinhas sob



a mesa de jogo. Pus-me a apreciar a partida. Quanto mais se
prolongava, mais freqentes eram as passagens por baixo da
mesa, at que o rapaz ficou definitivamente debaixo dela.' O
cavalheiro, ento, com a maior gravidade, rezou umas palavras
 fnebres, como se estivesse num enterro, e me desafiou
para uma partida. Como no soubesse jogar, recusei, e a recusa
 muito o surpreendeu. Olhou-me com evidente piedade,-
mas imediatamente entabulou conversa. Fiquei informado
de que se chamava Ivan Ivnovitch Zrin e era capito do
Regimento de Hussardos, sediado em X; viera a Simbirsk
para presidir o recrutamento e estava alojado na hospedaria.
Convidou-me para jantar, "contentando-se com o que houvesse,
 como um bom soldado", e aceitei prazerosamente.
Abancamo-nos  mesa. Zrin bebeu a valer e estava sempre
enchendo meu copo, afirmando que eu precisava ir-me acostumando
 com o servio militar. Contou vrias anedotas de
caserna, que quase me mataram de riso, e quando nos levantamos
 da mesa ramos como velhos amigos. A, ele se prontificou
 a me ministrar uma lio de bilhar:

- Saber este jogo  verdadeiramente indispensvel
para um soldado. A gente chega, por exemplo, a uma aldeia,
depois duma boa marcha. Que  que vai fazer? Surrar judeus
 nem sempre  possvel. Instintivamente ruma-se para a
hospedaria e comea-se a jogar bilhar. . . Mas, para tanto,
 necessrio saber pegar num taco!

Eu estava plenamente de acordo com o que ele acabava
de expor e, com a mxima aplicao, comecei a aprendizagem.
 Zrin me animava com freqentes exclamaes e
aplaudia ruidosamente os meus rpidos progressos. Depois
de alguns ensinamentos, props jogarmos uma partida a



dinheiro, dois copeques2 apenas - uma insignifcncia! -,
mas para no jogarmos "a leite de pato", o que, segundo
afirmava, era o pior dos hbitos. Aceitei prontamente e o
parceiro mandou vir ponche, convencendo-me a prov-lo,
repetindo-me que era urgente ir-me acostumando com o servio
 militar, pois sem ponche ningum podia falar em servio
 militar! Experimentei a bebida. E o jogo prosseguia.
Quanto mais goles tomava, mais ousado me sentia. A todo
instante as bolas pulavam da mesa para o cho. Nervoso,
discutia com o empregado que marcava os pontos, sabe
Deus de que maneira, e aumentava o valor das apostas. Em
suma, eu me portava como um menino que se sente pela primeira
 vez em liberdade.

O tempo passou sem que eu desse conta. A voltas tantas,
 Zrin consultou o relgio, encostou o taco na parede e
me declarou que eu havia perdido cem rublos. Fiquei um
pouco perturbado e, como meu dinheiro estivesse com
Savilitch, comecei a pedir desculpas. Mas Zrin me
interrompeu:

- No tem importncia! No precisa desculpar-se.
Eu posso esperar perfeitamente. Mas, para matar o tempo,
vamos  casa de Arinuchka.

Que fazer? E o dia terminou to levianamente quanto
comeara. Ceamos em casa de Arinuchka. Zrin no se
cansava de encher o meu copo, insistindo que me devia
familiarizar com o servio militar. Ao me levantar da mesa,
mal podia ficar em p. Era meia-noite quando Zrin me
conduziu de volta  hospedaria.

Savilitch estava na porta nos esperando. Mostrou-se

Centsima parte do rublo, unidade monetria russa. (N. do E.)



contristado ao constatar os inequvocos sinais do meu amor
ao servio militar.

- O que  que aconteceu com o senhor? - perguntou
 com voz gemente. - Onde se foi embebedar de tal
maneira? Meu Deus, nunca vi pecado igual!

- Cale a boca,velho idiota! - respondi tontamente.
- Voc  que est bbado! V dormir e no me amole!

No outro dia despertei com uma dor de cabea feroz,
recordando muito confusamente o que me acontecera.
Savilitch interrompeu meus pensamentos, trazendo-me
uma xcara de ch:

- Piotr Andreitch, o senhor est comeando a beber
demasiado cedo - disse balanando desaprovadoramente a
cabea. - A quem saiu o senhor? Que eu saiba no h bbados
 na famlia de seu pai. Sua me, ningum mais do que
eu pode afirmar, nunca levou uma bebida  boca! E quem 
culpado de tudo? Aquele maldito monsieur! A cada minuto
vinha correndo para pedir a Antipoevna: "Madameje vous
prie vodca!"3 Aqui temos o resultado do "je vousprie!"O
miservel educou o senhor muito bem! Precisava-se mesmo
contratar semelhante traste como professor! Como se o
patro no tivesse a sua prpria gente!

Eu estava muitssimo encabulado. Virei a cabea para
a parede e disse:

- V embora, Savilitch. No quero ch.

Era, porm, quase impossvel fazer Savilitch calar,
quando ele encetava um sermo:

- Est vendo s, Piotr Andreitch, o que acontece
quando a gente se mete em patuscadas? A cabea fica pesada
 como chumbo, o apetite desaparece. Homem que bebe

3   "Senhora, por favor, vodca. "(N. do E.)


no serve para coisa nenhuma, meu filho. . . Beba "um
pouco de salmoura de pepinos misturada com mel, ou
melhor, beba um clice de licor. Para quebrar a maldade da
bebedeira  muito bom. No quer?

No exato momento, entrou um rapazinho trazendo um
bilhete de 1.1. Zrin. Abri-o e li as breves linhas:

Estimado Piotr Andreitch:

Rogo o favor de enviar pelo portador os cem rublos
 que perdeu ontem para mim. Estou precisando
muito do dinheiro. s suas ordens, Ivan Zrin.

No tinha outra sada. Pus no rosto uma expresso de
indiferena e, dirigindo-me a Savilitch, que era o zelador
do meu dinheiro, da minha roupa e dos meus negcios,
ordenei que entregasse os cem rublos ao rapazinho.

- Que me diz? Por que you faz-lo? - perguntou
Savilitch tomado da maior surpresa.

-  que estou devendo - respondi com a mais forada
 tranqilidade.

- Est devendo?! - retrucou Savilitch com crescente
 surpresa. - Mas como pode estar devendo? Quando
contraiu tal dvida? Tudo isto no me est cheirando bem!
Pode fazer o que quiser, meu senhor, mas o dinheiro  que
eu no entregarei.

Rapidamente raciocinei que, se naquele momento decisivo
 no impusesse a minha vontade, mais tarde dificilmente
conseguiria livrar-me daquela teimosa tutelagem. Fitando-o
com arrogncia, determinei:



- Eu sou o senhor e voc  meu servo. O dinheiro me
pertence. Perdi no jogo e no tenho de lhe dar satisfaes.
Aconselho-o a que no se meta a resolver os meus assuntos.
Ponha-se no seu lugar.

Savilitch ficou to perplexo com as minhas palavras
que parecia paralisado.

- Por que fica parado a? - berrei zangado.
Savilitch rompeu em pranto:

- Meu patrozinho Piotr Andreitch, no me mate de
desgosto! Oua o conselho de um pobre velho. Escreva a
esse ladro vagabundo dizendo que estava brincando e que
no temos to grande importncia. Cem rublos! Meu Deus
do cu! Escreva dizendo que seus pais o proibiram severamente
 de jogar, a no ser "a leite de pato". . .

- Chega de mentiras - cortei-o com rudeza. -
Passe j para c os cem rublos, do contrrio you expuls-lo,
daqui a pontaps.

Ele me olhou com profunda tristeza e foi buscar o
dinheiro. Tive muita pena do pobre velho, mas queria libertar-me
 e provar que j no era uma criana.

Satisfeita a dvida, Savilitch apressou-se em me tirar
daquela maldita hospedaria. Poucos minutos aps veio
prevenir-me que o tren estava pronto. Deixei Simbirski
com a conscincia intranqila e um mudo arrependimento.
No me despedi do meu professor de bilhar, e esperava
nunca mais encontr-lo.



CAPTULO 2
O GUIA

no foram nada agradveis as minhas reflexes
pelo caminho. Os cem rublos perdidos constituam uma
considervel quantia naquele tempo. No podia negar a
mim mesmo que meu procedimento naquela hospedaria fora
da mais absoluta parvoce e me sentia culpado perante
Savilitch. E tais coisas me afligiam. Sentado na frente, o
velho mantinha-se calado e sombrio, mas de vez em quando
virava-se para mim e deixava escapar um fundo suspiro. Eu
queria ardentemente voltar e ficar de bem com ele, porm
no sabia como comear. Afinal, decidi-me:

- Olhe c, Savilitch, chega de cara amuada! Vamos
fazer as pazes. Reconheo que procedi muito mal. Fiz
ontem uma poro de burrices e ofendi voc sem nenhuma
razo. Juro que irei comportar-me decentemente no futuro e
no deixarei de obedecer-lhe. Nada de emburramentos mais.
Vamos ficar de bem!

Savilitch deu um outro fundo suspiro:

- Ah, patrozinho Piotr Andreitch! Eu estou zangado,
 mas  comigo mesmo. S eu tive a culpa de tudo! Como
cometi a insensatez de deix-lo sozinho naquele antro? Foi
o diabo que me tentou! Quis ir visitar a mulher do dicono,
que  minha comadre. L me prenderam o quanto puderam,
e, quando voltei, a desgraa estava armada! Com que cara
me apresentarei aos meus amos? Que idia vo fazer de



mim ao saberem que o patrozinho andou bebendo e
jogando?

Para acalmar o pobre Savilitch, dei a minha palavra
de honra que jamais disporia de um nquel sequer sem antes
consult-lo. Pouco a pouco ele foi sossegando, conquanto s
vezes ainda resmungasse e balanasse a cabea: - Cem
rublos! Como se cem rublos fossem uma ninharia!

Estvamos perto do lugar que me haviam destinado.
Em volta, estendiam-se tristes desertos, marcados por colinas
 e ravinas. A neve cobria tudo e o sol descaa. O tren ia
por uma estrada estreita, melhor dito, pelo sulco deixado
pelos trens dos camponeses. Sbito, o cocheiro entrou a
olhar para um lado e para outro e, como se se desse por
satisfeito, tirou o gorro e perguntou:

- No me manda voltar, meu patro?

- Por que razo?

- O tempo est feio. O vento principia a ficar mais
forte. No v os redemoinhos que faz na neve?

- Mas o que  que tem isso?

- Est vendo aquilo l? - e apontava o chicote na
direo do leste.

- S estou vendo a estepe branca e o cu bem claro.
Nada mais.

- Preste ateno ali.  uma nuvenzinha.

Na verdade havia uma pequena nuvem branca no
extremo do cu e que eu tomara antes por uma colina
longnqua. E o cocheiro me esclareceu que aquela nuvenzinha
 anunciava uma tempestade de neve.

Eu j ouvira falar das tempestades de neve que costumam
 cair naquela regio, cobrindo comboios inteiros.
Savilitch concordava com o cocheiro - o mais prudente
era voltar. O vento, porm, no me parecia exagerado, e,



como nutrisse a esperana de alcanar a tempo a prxima
estao de posta, mandei tocar os cavalos mais depressa.

O cocheiro obedeceu e fez os animais galoparem, mas,
aqui e ali, dava uma olhada para as bandas do leste. Os
cavalos mantinham um bom ritmo. O vento soprava cada
vez com mais fora e a pequena nuvem se transformava
numa nuvem branca e pesada, que crescia sempre e em
pouco acabou por cobrir todo o cu. A neve comeou a cair,
muito fina, para depois tombar em grandes flocos. O vento
passou a uivar. Era a tempestade que se desencadeava. Num
timo o cu escuro se confundiu com a terra nevada e tudo
desapareceu.

-  o que eu estava vendo, patro - gritou o cocheiro.
 - Uma tormenta dos diabos!

O vento rugia, os turbilhes de neve se levantavam.
Savilitch e eu estvamos cobertos de neve. Os cavalos iam
passo a passo, penosamente, e pouco depois pararam.

- Por que no andamos? - perguntei, impaciente,
ao cocheiro.

- Mas de que modo, meu patro? - respondeu descendo
 da bolia. - Nem sabemos onde estamos. No se v
a estrada. Est tudo negro como breu.

Quis repreend-lo, mas Savilitch defendeu-o com
azedume:

- Por que no deu crdito ao que ele disse? Podamos
 ter voltado para a estao de posta, o senhor tomaria o
seu  ch tranqilamente, dormiria l e prosseguiramos
nosso caminho quando o tempo abrandasse. Para que tanta
pressa? No vamos tirar o pai da forca!

Savilitch era razovel - no se podia fazer nada. A
neve no parava de cair e perto do tren j havia um considervel
 monte. Os cavalos tinham a cabea baixa e estreme




ciam de vez em quando. O cocheiro dava voltas em redor do
tren e, para no ficar de mos abanando, fazia uma vistoria
 nos arreios. Savilitch dava seus resmungos e eu punha
os olhos em torno na tentativa de distinguir algum sinal de
casa prxima ou de estrada, mas nada via alm do intenso
redemoinho da neve. Eis que, de sbito, percebi uma mancha
 escura e gritei:

- Ol, cocheiro! Que coisa escura pode ser aquilo
l?

Ele fixou bem os olhos para o ponto indicado e, sentando-se
 na bolia, respondeu:

- S Deus pode saber, patro! Tren posso garantir
que no . Nem rvore, pois est mexendo-se. Acho que
deve ser um lobo ou um homem.

Mandei que ele tocasse o tren na direo do indefinido
 objeto, que imediatamente comeou a avanar ao
nosso encontro. Dois minutos depois, alcanvamos um
homem. E o cocheiro perguntou-lhe aos gritos:

- Ol,  meu   amigo!   Pode  dizer-me  onde  fica  a
estrada?

-  exatamente aqui. Estou pisando nela - respondeu
 o homem. - Mas que nos adianta saber?

- Olhe c, mujique 4 - tomei eu a palavra. - Voc
conhece bem este lugar? No seria possvel conduzir-nos a
algum pouso, onde pudssemos passar a noite?

- Graas a Deus conheo esta regio como a palma
da minha mo - respondeu o homem. - J percorri-a
toda centenas de vezes. A p e a cavalo. Mas, com um
tempo assim, nada se pode fazer. Arriscamo-nos a perder
facilmente a estrada. O melhor  ficarmos parados aqui,

Campons russo. .) 



esperando que a nevasca amaine e o cu se limpe. Talvez
no demore muito. Ento, nos guiaremos pelas estrelas.

A serenidade dele me acalmou. E j estava conformado
em entregar tudo a Deus e passar a noite em plena estepe,
quando o viajante, pulando rapidamente para a bolia, gritou
 para o cocheiro:

- Graas a Deus h uma casa ali pertinho! Vamos,
vire para a direita e toque em frente.

O cocheiro no se mostrou satisfeito:

- Por que para o lado direito? Onde  que voc viu a
estrada?  muito fcil voc mandar tocar, quando os cavalos
 e o tren no lhe pertencem. . .   No tem nada a
perder. . .

Achei que o cocheiro tinha razo e o aprovei:

-  isso mesmo. Por que nos diz que h uma casa ali
perto?

- Quando o vento soprou daquele lado, eu senti um
cheiro de fumaa. Logo ali h uma aldeia. . .

A sua lgica e o seu faro causaram-me admirao.
Mandei que o cocheiro tocasse o tren. Os cavalos venciam
com dificuldade a densa neve e lentamente o tren avanava,
 ora galgando um monte de neve, ora escorregando para
o fundo de um barranco, tombando para um lado e para
outro, como um barco singrando um mar revolto. Savilitch
gemia, caindo sobre mim a cada instante. Enrolei-me bem
na pelia e comecei a dormitar, embalado pela voz da ventania
 e pelo sacudir do veculo.

Tive, ento, um sonho que jamais esqueci e no qual
encontro alguma coisa de proftico sempre que o recordo e
peso os estranhos acontecimentos que me sucederam na
vida. O leitor me perdoar, pois, com toda a certeza, sabe
por experincia prpria como o homem se entrega facil




mente  superstio, embora se esforce para desprez-la.
O estado de alma em que me encontrava, antes de
adormecer, facilitava que transferisse confusamente para o
sonho a realidade vivida. Parecia que a borrasca continuava
terrvel e que vagvamos pelo deserto de neve... De sbito,
apareceu o porto da nossa casa e o tren entrou no ptio.
O primeiro pensamento que me veio foi o do temor de que
papai ficasse zangado comigo pelo involuntrio regresso,
supondo que eu praticasse uma desobedincia. Inquieto, saltei
 do tren e vi mame me esperando na porta, com um ar
de extrema aflio.

- Silncio - disse-me ela. - Seu pai est moribundo
 e quer despedir-se de voc. . .

Profundamente chocado, fui atrs dela para o quarto
de dormir. O cmodo estava fracamente iluminado e, em
volta da cama, havia algumas pessoas com a tristeza estampada
 no rosto. Aproximei-me na ponta dos ps. Mame
levantou o cortinado e sussurou:

- Andrei Pietrvitch, Petruchka est aqui. Veio saber
do seu estado. D-lhe a bno.

Ajoelhei-me e levantei os olhos para o enfermo. Mas
que vi eu? No meu pai, mas um mujique de barba negra,
que me olhou risonhamente. Espantado, virei-me para
minha me:

- No compreendo! Este homem no  o meu pai!
Por que razo tenho de receber a bno de um mujique?

E mame respondeu:

-  a mesma coisa, Petruchka. Ele  o seu padrinho
de casamento. Beije-lhe a mo e deixe que ele o abenoe.

No admiti. Ento o mujique deu um pulo da cama e,
empunhando um machado que trazia escondido nas costas,
brandiu-o em todas as direes. Tentei escapar, mas no



consegui. O quarto se atulhara de cadveres e neles eu tropeava
 ou escorregava nas poas de sangue. O terrvel mujique
 me chamava afetuosamente:

- No tenha medo. Venha receber a minha bno.
O horror e o pnico tomaram conta de mim. . . Mas,

naquele momento, despertei. Os cavalos estavam parados e
Savilitch me sacudia o brao:

- Vamos descer, senhor. Chegamos!

- Chegamos aonde? - perguntei, estremunhado.

- A uma estalagem. Deus nos valeu! Quase que
amos de encontro ao muro. Rpido, patrozinho! Uma boa
lareira nos espera!

Baixei do tren. A borrasca no parar, mas atenuara.
Estava to escuro que nada se podia distinguir. O estalajadeiro
 nos recebeu no porto. Portava uma lanterna, protegida
 pela aba do capote. Fui levado para um pequeno cmodo
 bastante limpo, que uma modesta lareira alumiava. Na
parede se achavam pendurados uma espingarda e um gorro
cossaco.

O estalajadeiro era um cossaco que ia pelos sessenta
anos, mas ainda se mostrava forte e lpido. Savilitch veio
atrs de mim, trazendo a minha caixa com servio de ch, e
solicitou logo fogo para fazer a bebida, que jamais me pareceu
 to necessria. O estalajadeiro, incontinenti, foi tratar
do assunto.

- Onde se meteu o nosso guia?  - perguntei a

Savilitch.

- Aqui estou, Vossa Senhoria - respondeu-me uma

voz vinda de cima.

Levantei o olhar para o sto e l encontrei uma barba
negra e dois olhos brilhantssimos.

- Que  que h, meu velho? Est com muito frio? -
perguntei jovialmente.



"; - Um bocado! Mas com o capotezinho que trago
no podia ser menos. Na verdade eu tinha uma boa pelia
de carneiro, mas empenhei-a ontem a um taverneiro. Confesso
 meu erro. . . Mas quem imaginaria que hoje ia fazer
um tempo to desgraado?

Naquele momento, o estalajadeiro chegava com o
samovar fumegando. Ofereci ao nosso guia uma xcara de
ch e ele desceu do s to. O aspecto daquele mujique me
pareceu admirvel: tinha uns quarenta anos, estatura mediana,
 magro e espadado. Na barba apontavam alguns fios
prateados. Os olhos eram vivazes e inquietos. A fisionomia
era extremamente simptica, mas com um toque de velhacaria.
 O cabelo tinha um corte circular. Usava um capote em
trapos e largas calas de trtaro. Bebeu um gole do ch e fez
uma careta:

- Vossa Senhoria me podia fazer um favor. Mande
que me sirvam um copo de vinho. Ch no  bebida de
cossaco. . .

Com o maior prazer atendi o pedido. O estalajadeiro,
tirando do armrio uma garrafa e um copo, dirigiu-se ao
mujique e, encarando-o bem, disse:

- Mas voc outra vez por aqui? De onde vem agora?
O improvisado guia deu uma piscadela muito significativa
 e meteu na resposta um ditado popular:

- "Pela horta dei uma voada e no cnhamo uma
bicada; a vov uma pedra me jogou, mas nem de leve me
acertou..." Muito bem, como vocs vo por aqui?

O estalajadeiro retrucou no mesmo torn:

- Os daqui? "amos tocar o sino para a novena, mas
a criada do padre entrou em cena. Quando o padre vai passear,
 os diabos invadem o lugar..."

- No diga mais nada, homem! - acrescentou logo
o meu vagabundo. - "Se chover, teremos cogumelos, e, se



tivermos cogumelos, teremos com que lev-los." - Deu
outra piscadela: - "Agora guarda o machado atrs das
cestas, pois o guarda-florestal vem por a..." - E virando-se
 para mim: -  sade de Vossa Senhoria!

Tomou o copo, persignou-se e emborcou o vinho de
uma s vez. Fez depois uma reverncia  minha pessoa e
retornou ao sto.

Na ocasio no entendi patavina daquele dilogo de
ladres, porm, mais tarde, deduzi relacionar-se com o exrcito
 de laizk, que acabava de se render s tropas imperiais
na reprimida revolta dos cossacos em 1772. Savilitch ouvia
a conversa com indisfarvel desagrado. Desconfiado, olhava
 ora para o estalajadeiro, ora para o guia. A estalagem ficava
 situada no meio da estepe, distante de qualquer aldeia,
e tudo denunciava ser um refgio de bandoleiros. Mas no
podamos fazer nada. Em continuar a viagem nem se podia
pensar, e eu achava engraada a inquietao de Savilitch.
Apesar da insegura atmosfera, resolvi acomodar-me para
varar a noite e me deitei num banco. Savilitch escolheu seu
pouso ao lado da lareira. O estalajadeiro esticou-se no cho.
Depressa,toda a isb roncava e eu dormi como um justo.

Ao acordar de manha, e j era bastante tarde, verifi
quei que a borrasca passara. O sol brilhava e a neve, como
um manto de imaculada alvura, forrava a infinita estepe. Os
cavalos estavam atrelados. Paguei a hospedagem ao estalajadeiro
 e o preo foi to pouco que Savilitch nem pensou
em regatear, como era do seu costume, e at varreu da cabea
 as suspeitas da vspera. Chamei o guia, agradeci muito a
ajuda que nos prestara e mandei Savilitch dar a ele uma
gorjeta de meio rublo. O velho servo franziu a cara:

- Meio rublo de gorjeta?! Mas por qu? No foi o



senhor quem o trouxe at a estalagem? Ora, pode fazer o
que quiser, meu senhor, mas tomo a liberdade de lembrar
que no temos tantos meios rublos sobrando como certamente
 imagina. Se formos dar gorjetas a trs por dois, bem
depressa passaremos fome!

Estava-me vedado discutir com Savilitch. Conforme
minha promessa, no dinheiro era ele que mandava. Mas estava
 contrariado por no poder gratificar o homem que me
tirara duma situao to embaraosa. E calmamente falei:

- Est certo. Se no quer dar dinheiro, no d. Mas
oferea-lhe ao menos um agasalho, que ele bem precisa.
Meu capote de pele d lebre est a calhar.

- O senhor est sonhando, Piotr Andreitch! Para
que ele precisa de um capote to bom? Vai vend-lo na primeira
 taverna para beber.

- Voc no tem nada com isso, velhinho - disse o
guia. - Vossa Senhoria quer presentear-me e est acabado!
 a vontade do senhor, e voc, que  um servo, o que tem a
fazer  obedecer sem discusses.

- No tem medo de Deus, bandido? - e Savilitch
se irritou. - Est vendo que o menino ainda no tem experincia
 das coisas e quer aproveitar-se da sua inocncia!
Para que voc precisa de um capote de tal qualidade? Nem
o poderia vestir com o corpo que tem!

- No se meta no assunto - falei severamente ao
relutante servidor. - V apanhar o capote e pronto!

- Santo Deus! - gemeu Savilitch. - Um capote
novo  em folha!   E a quem vai d-lo?  A um bbado
vagabundo!

Mas o capote apareceu e o mujique logo o envergou.
Na verdade, o capote, que assentava em mim como uma



luva, era justo demais para o homem. Mesmo assim ele conseguiu
 vesti-lo e, ao forar, arrebentou algumas costuras.
Savilitch quase chorou ao ouvir as linhas se romperem. O
vagabundo mostrava-se encantado com o presente. Acompanhou-me
 ao tren e despediu-se com uma grande mesura:

- Muito obrigado  a  Vossa  Senhoria!   Que Deus
recompense tanta bondade. Jamais esquecerei, jamais!

E tomou seu caminho, enquanto eu tomava o meu sem
dar ateno  cara trombuda de Savilitch. Dentro em
pouco j no me lembrava mais da tormenta da vspera, do
meu improvisado guia e do meu capote de pele de lebre.

Chegando a Orienburg, apresentei-me imediatamente
ao meu comandante. O general era um homem de elevada
estatura, mas j um pouco curvado pelos anos. Tinha os
cabelos compridos e inteiramente brancos. A velha farda
desbotada fazia lembrar um guerreiro do tempo da Imperatriz
 Ana Ivnovna. Falava com um sotaque de alemo.

Entreguei-lhe a carta de meu pai. Ao ouvir meu nome,
lanou-me um rpido olhar:

- Santo Deus!  - exclamou. - No faz muito
tempo e Andrei Pietrvitch era da sua idade. Agora j tem
um filho deste tamanho! Ah, o tempo, o tempo!

Abriu a carta e comeou a l-la em voz baixa, entremeando
 a leitura com alguns comentrios:

- "Caro Amigo Senhor Andrei Karlovitch: Espero
que Vossa Excelncia..." Mas que cerimnia  essa? Ele
no tem vergonha? Bem, compreende-se. . . Em primeiro
lugar, a disciplina. . .   Mas, mesmo assim, no  dessa
forma que se escreve a um antigo camarada. . .  "Vossa
Excelncia no se olvidou..." Hum... "e quando... o
falecido Marechal-de-Campo Min. . . a campanha. . . tam




bem Carolina. . ." Eh, irmo! Ento ele ainda se lembra
das nossas velhas diabruras!. . . "E passo ao assunto. . .
apresento-lhe o meu peralta..." Hum. . . "mant-lo de rdeas
 curtas. . ." Que coisa  rdeas curtas? Certamente
deve ser um provrbio russo. . . Que  mant-lo de rdeas
curtas? - repetiu, dirigindo-se a mim.

- Quer dizer - respondi com o ar mais ingnuo -
que deve tratar algum com muito carinho, sem severidades.
 . .  dando bastante liberdade...  o que quer dizer
"mant-lo de rdeas curtas".

- Hum, sim... "e no lhe dar muita liberdade..."
No, acho que rdeas curtas tem outro sentido. . . "Anexo
vai o passaporte..." Onde est? Ah, est aqui. . . "Riscar
o Regimento Semionovski. . ." Perfeito, perfeito, you fazer
tudo o que pede. . . "Permita-me, passando por cima da
hierarquia, abra-lo...  o velho camarada e amigo..."
Oh, at que enfim escreveu direito! Et caetera, et caetera.
 . . Muito bem, meu rapaz - disse ele fechando a carta
e pondo de parte o meu passaporte -, tudo vai ser feito
como determina seu pai. Vai ser transferido, como oficial,
para o Regimento X, e, para no perdermos tempo, seguir
amanh mesmo para a Fortaleza de Bielogorsk, onde ficar
sob as ordens do Capito Mirnov, um homem bom e srio.
Vai fazer l um verdadeiro servio militar, conhecer o que 
uma autntica disciplina. Aqui em Orienburg no iria fazer
nada. A ociosidade debilita um moo. E, hoje, peo que
jante comigo.

"As coisas vo em mau caminho!", conjeturei. "De
que me serviu ser sargento da Guarda quase recm-nascido?
Onde me foram meter? No Regimento X, trancafiado numa



fortaleza perdida na fronteira das estepes quirguizes 5!. . ."
Jantei em casa de Andrei Karlovitch, estando presente
tambm o seu velho ajudante-de-ordens. Na sua mesa imperava
 a rigorosa economia alem, e acho que foi o temor de
visitas inesperadas que determinou a sua solicitada transferncia
 para aquele cafund. No dia seguinte apresentei as
minhas despedidas ao velho general e parti para o posto que
me destinaram.

"
f ir

Na Quirguzia, repblica que faz parte da Unio Sovitica.  uma
regio montanhosa da sia Central, e sua capital, atualmente,  Frunze.(N.doE.)
 ,,.,," ", .



CAPTULO 3

A FORTALEZA

A

Fortaleza de Bielogorsk ficava a uns quarenta
quilmetros de Orienburg. A estrada corria pela escarpada
serra que acompanha o rio laizk. As guas ainda no estavam
 geladas e deslizavam cor de chumbo e tristes por entre
as margens montonas e cobertas de neve. Do outro lado, a
perder de vista, estendiam-se as estepes quirguizes. Ia eu
mergulhado em cismares, na maioria melanclicos. A vida
na guarnio me oferecia poucos atrativos. Empenhava-me
em formar uma idia do meu futuro comandante, o C apito
Mirnov, e o que me acudia era a de um velho severo e ranzinza,
 que nada sabia alm do servio e que, por qualquer
ninharia, mandaria prender-me a po e gua.

Foi quando comeou a escurecer, amos com bastante
rapidez. Perguntei ao cocheiro:

- A fortaleza ainda fica muito longe?

- No. J pode ser avistada.

Olhei para todos os lados, pensando encontrar basties
sinistros, torres, fossos, mas somente vi uma aldeiazinha
cercada por uma paliada. Numa ponta, havia uns trs ou
quatro montes de feno, meio cobertos de neve, e na outra
levantava-se um rstico moinho, com as asas preguiosamente
 paradas.

- Mas onde est a fortaleza? - perguntei surpreso, e.



- Aqui, senhor - respondeu o cocheiro, apontandome
 a aldeia na qual acabvamos de entrar.

Junto ao porto havia um vetusto canho de ferro. As
ruazinhas eram estreitas e tortas, as isbs muito baixas e, na
maior parte, cobertas de palha. Mandei o cocheiro me levar
 casa do comandante e, pouco alm, o tren parou diante
de uma casinhola de madeira, levantada sobre uma elevao,
 perto da igreja tambm de madeira.

Ningum me veio receber, Entrei no vestbulo e, sem
cerimnia, abri a porta da entrada. Um velho invlido, 
mesa, cosia um remendo na manga da tnica verde. Pedi-lhe
que anunciasse a minha chegada.

- Entre, paizinho - respondeu ele. - Todos esto
em casa.

Passei, ento, a um pequeno cmodo, muito asseado e
mobiliado  moda antiga. Num canto havia um armrio
para loua. Numa das paredes, estava pregado um diploma
de oficial, devidamente emoldurado e envidraado, e, ao
lado, enfileiradas, viam-se gravuras baratas representando
as tomadas de Kinstrin e Otchakov e mais dois quadros -
uma cena de noivado e o enterro de um gato. Perto da janela,
 vi uma velhinha sentada, que vestia um casaquinho de
pele e tinha um leno na cabea. Desenrolava a linha que
um velhote, de olho furado e fardado de oficial, tinha enrolada
 numa das mos.

- Que deseja, meu caro? - inquiriu ela, sem interromper
 a sua ocupao.

Informei que chegava para me apresentar ao senhor
capito. E lancei um olhar ao estropiado ancio cuidando
ser ele o comandante. Mas a mulher cortou o discurso que
eu trazia de cor:



- Ivan Kusmitch no est em casa. Foi visitar o
Padre Guerssim. Mas no tem importncia. Est falando
com a esposa dele. Esteja  vontade. A casa  sua, meu caro.
Faa o favor de se sentar.

Gritou pela criada e ordenou que ela chamasse o sargento.
 O velhote me inspecionava atentamente com seu
nico olho.

- Permita que pergunte uma coisa - falou ele. -
Em que regimento serviu?

Atendi  sua curiosidade. Ele insistiu:

- Permita-me, ento, saber por que razo deixou a
Guarda para servir numa guarnio.

Esclareci que obedecia a ordens superiores.

- Seguramente teve um comportamento incompatvel
com um oficial da Guarda, no ? - ajuntou o incansvel
perguntador.

- Basta de tolices! - ralhou a mulher do capito.
- No desconfia que o rapaz est fatigado da viagem e no
quer conversar? Fique com a mo firme! - E, virando-se
para mim: - E voc, meu caro, no fique triste por ter sido
atirado neste buraco. No  o primeiro, nem ser o ltimo.
Acabar ajeitando-se e at gostando daqui. Aliexiei Ivnovitch
 Chvabrin  um exemplo. Foi removido para c, culpado
 de assassinato. S Deus sabe a loucura que o levou a tal!
Matou um tenente. Foram para fora da cidade, duelaram-se
a espada, diante de duas testemunhas! Que se h de fazer?
Pecar  prprio dos homens.

Naquele instante, chegava o sargento, que era um
jovem cossaco de excelente aparncia.

- Maximitch, arranje um quarto para o senhor oficial,
 mas que seja bem limpo! - determinou-lhe a mulher
do capito. 





- Perfeitamente, Vasslissa legorovna. Posso instalar
o excelentssimo na casa de Ivan Poliejaiev?

- Que maluquice, Maximitch! Em casa de Poliejaiev
no h espao. Alm do mais, ele  meu compadre. . . E
no se esquea de que somos os superiores dele. . . Leve o
senhor oficial. . . Como  a sua graa, meu caro?

- Piotr Andreitch.

- Pois leve Piotr Andreitch para a casa de Smion
KuzoV. Aquele patife deixou outro dia o seu cavalo entrar
na minha horta! Como , Maximitch, est tudo em ordem l
fora?

- Tudo em paz, graas a Deus. Somente o cabo teve
uma briga com Ustnia Niegulina, na casa de banhos. Por
causa de um balde de gua quente. . .

- Ivan Igntitch! Resolva a questo de Prokhorov e
Ustnia. Apure quem  o culpado, mas castigue os dois -
ordenou a mulher do capito ao velhinho zarolho. - E
voc, Maximitch, v com Deus.

Virou-se para mim:

- Piotr Andreitch, Maximitch ir conduzi-lo ao seu
alojamento.

Despedi-me e o sargento me levou para uma isb, que
ficava no barranco do rio, num extremo da fortaleza. Metade
 dela era ocupada pela famlia de Smion Kuzov. Fiquei
na outra metade, que consistia num amplo quarto, muito
limpo, dividido por um tabique.

Enquanto Savilitch arrumava os meus pertences, eu
dava uma olhada pela estreita janela. A melanclica estepe
alongava-se diante de mim. Havia uma fila de pequenas
isbs e, na rua, galinhas ciscavam. Uma velha, na porta da
sua isb, distribua rao aos porcos, que acudiam grunhindo
 alegremente.



"E eu estava condenado a passar a minha mocidade
naquele ermo!", pensei. Uma imensa tristeza me invadiu.
Sa da janela e me estirei na cama, sem nenhuma vontade de
comer, o que afligia Savilitch:

- Santo  Deus  misericordioso!   Por  que no quer
comer? Que ir dizer minha patroa se o senhor ficar doente?

No outro dia, logo cedo, quando comeava a me vestir,
entrou no quarto um jovem oficial, moreno e feio, mas extremamente
 desembaraado, que me disse em francs:

- Perdoe a minha falta de cerimnia, mas venho para
conhec-lo. Soube ontem da sua chegada. O desejo de ver
uma cara nova foi to grande que no pude resistir. O senhor
 s compreender a minha nsia depois de viver aqui
algum tempo.

Adivinhei que se tratava do oficial removido da Guarda
 em conseqncia do fatal duelo. Comeamos a conversar.
 Chvabrin era muito inteligente e a sua palestra cheia de
vivacidade e interesse. Com muita graa fez a descrio da
famlia do comandante, da sociedade local e daquele lugar
onde o destino me jogara. Eu ria a bom rir com seu relato,
quando entrou no quarto o invlido que eu vira na vspera
remendar a tnica no vestbulo da casa do comandante.
Trazia da parte de Vasslissa legorovna convite para jantar.
Chvabrin prontificou-se a me acompanhar.

Na praa, perto da casa do comandante, vi alinhados
uns vinte veteranos, de longas trancas e chapus triangulares.
 Na frente deles, postava-se o comandante. Era um velho
alto e bem disposto. Trazia uma carapua de dormir enfiada
na cabea e vestia um roupo de algodo. Ao nos ver,
adiantou-se ao nosso encontro, gastou algumas palavras
amveis e logo voltou a dar ordens aos seus homens. Paramos
 para apreciar a instruo; ele, porm, nos rogou que



fssemos fazer companhia a Vasslissa legorovna, prometendo
 no se demorar. E ajuntou:

- Aqui no h nada para ver.

Vasslissa legorovna nos recebeu simples e cordialmente
 e me tratou como se eu fosse um velho conhecido. O
invlido e Palachka punham a mesa.

- No sei o que deu hoje em Ivan Kusmitch para dar
tanta instruo aos veteranos! - disse a mulher do capito.
- Palachka, v chamar o seu patro para jantar. Mas onde
Macha se meteu?

Como se atendesse prestamente a um chamado, entrou
uma moa dos seus dezoito anos. Tinha o rosto redondo e
corado, cabelos claros, penteados para trs, descobrindo as
orelhas, que estavam muito vermelhas. Assim, de pronto,
no me agradou muito. Olhava-a com preveno, pois
Chvabrin descrevera a filha do capito como uma parva
total. Ela, que se chamava Maria Ivnovna, sentou-se num
canto e ps-se a bordar. A, j estavam servindo a sopa de
repolho. Vasslissa legorovna, vendo que o marido no aparecia,
 mandou Palachka cham-lo outra vez:

- Diga ao seu patro que as visitas esto esperando e
que a sopa vai esfriar! Posso garantir que a instruo no
vai fugir e ele ter ocasies de sobra para berrar quanto
quiser!

O capito no demorou a aparecer, seguido pelo velhote
 de olho furado.

- Como , paizinho? - ralhou ela com ternura. -
A comida j est h um tempo na mesa e voc nada de vir!

- Voc bem sabe que no estava mandriando, Vasslissa
 legorovna. Estava dando instruo aos meus soldadinhos.
 -,. f



- Tempo  perdido!  -  retrucou ela.  - Eles no
aprendem nada, no querem nada com o servio. Melhor
seria que ficassem em casa rezando. . . Meus caros convidados,
 faam o favor de vir para a mesa.

Abancamo-nos. Vasslissa legorovna no parou um
segundo de falar. Cobriu-me de perguntas: quem eram meus
pais, se ainda viviam, onde moravam e se tinham fortuna.
Ao saber que meu pai possua trezentos servos, no se pde
conter:

- Nossa Me, como h gente rica neste mundo! Ns,
meu caro, s temos uma serva.  a Palachka. E nos vamos
arrumando com a graa de Deus. S uma coisa me preocupa:
 nossa filha Macha j est na idade de se casar, mas que
dote tem ela? Um pente, uma vassoura e meio rublo, que
Deus me perdoe, para ir  casa de banhos... Se no encontrar
 um homem decente, que a queira assim, ficar mesmo
para ti ti a. . .

Deitei o olhar para Maria Ivnovna: ficara vermelhssima,
 ameaando chorar. Tive pena da moa e, procurando
mudar o rumo da conversa, fui bastante inoportuno:

- Ouvi dizer que os basquires 6 esto preparando-se
para atacar a fortaleza.

- Quem   foi   que   lhe   disse?   -   perguntou   Ivan
Kusmitch.

- Contaram-me em Orienburg - respondi.

- Besteirada! - voltou o capito. - H muito
tempo que reina a paz c por estes lados. Os basquires tm
medo e os quirguizqs j receberam uma boa lio. No se

Povo de origem monglica, que habita a regio da Basquria, no sul
do Ural, pertencendo  Rssia. (N. do E.)



atrevem a mexer com a gente. . . Mas se puserem o rabo de
fora, levaro uma tal surra que ficaro sossegados uns dez
anos!

- E a senhora no tem medo de ficar aqui sujeita a
perigos? - continuei, dirigindo-me  mulher do capito.

- J me acostumei, meu caro. H vinte anos, quando
viemos para c, s Deus sabe como me apavorava com estes
malditos pagos! Ao ver os seus gorros de pele de lince e
ouvir os seus berros, acredite, meu caro, que meu corao ficava
 gelado! Mas agora estou to habituada que nem me
movo do lugar, quando algum me vem avisar que os patifes
esto galopando nas imediaes da fortaleza.

- Vasslissa legorovna  uma dama muito valente -
falou enfaticamente Chvabrin. - Ivan Kusmitch pode dar
mil provas.

O capito confirmou:

-  a pura verdade. Minha mulher no  nada
medrosa.

- E Maria Ivnovna  to valente quanto a senhora?
- perguntei.

- Se Macha  valente? - respondeu a me. -
Nada!  medrosssima! At hoje no pode ouvir um tiro.
Comea logo a tremer. . . E h dois anos, quando Ivan
Kusmitch, no dia do meu aniversrio, teve a lembrana de
atirar com o canho, a coitadinha quase morreu de medo.
 ..   Tambm  foi   a ltima vez  que  disparamos  o
canho.. .

Levantamo-nos da mesa. O capito e a mulher foram
fazer a sua sesta. Eu sa com Chvabrin, fomos para a casa
dele e l fiquei at que a noite caiu. 



CAPTULO 4
O DUELO

ranscorreram vrias semanas e a vida na Fortaleza
 de'Bielogorsk tornou-se para mim no apenas tolervel,
mas at agradvel. Na casa do comandante eu era tratado
como pessoa da famlia. Era um casal que merecia o maior
respeito. Conquanto filho de um soldado, Ivan Kusrnitch
chegara a oficial. Simplrio, de pouca instruo, era, porm,
bondoso e honestssimo. A esposa tinha completa ascendncia
 sobre ele. Governava a casa com o seu jeito despreocupado
 e, sem alter-lo, estendia tal poder por toda a fortaleza.
 Depressa, Maria Ivnovna perdeu a sua timidez para
comigo e nos entendemos perfeitamente. Verifiquei que era
uma moa sensata e de sensibilidade. Insensivelmente fui
agarrando-me aquela gente to boa e tambm a Ivan Igntitch,
 o zarolho tenente da guaraio, a quem Chvabrin
imputava uma relao criminosa com Vasslissa legorovna.
Era uma infmia, porm Chvabrin no tinha remorsos.

Fui promovido a oficial. O servio no me pesava,
pois, naquela fortaleza que Deus indisfaravelmente protegia,
 no havia revistas, instruo, rondas, sentinelas. Por
mero divertimento, o comandante s vezes ministrava ensinamentos
 aos soldados, mas no conseguia meter na cabea
de todos a diferena entre o lado esquerdo e o lado direito.
Chvabrin possua alguns livros franceses. Eu os lia e vi de




pertar em mim um pendor literrio. Consumia as manhs
mergulhado na leitura, exercitava-me em tradues, e at
aventurei-me a escrever alguns versos. Jantava quase todos
os dias na casa do comandante, onde comumente passava o
resto da tarde. Uma vez por outra l aparecia, de noite, o
Padre Guerssim, com a sua mulher, Akulina Pamfovna, a
grande linguaruda da parquia. Com Chvabrin,  lgico, me
encontrava diariamente, e sua conversa se tornava, cada
dia, menos agradvel para mim. Suas contumazes piadas a
respeito da famlia do comandante me aborreciam e, muito
especialmente, certos ditos ferinos sobre Maria Ivnovna.

A respeito dos boatos, os basquires no se rebelaram e
a tranqilidade imperava em volta da nossa fortaleza. Todavia,
 a paz foi rompida por inesperada luta interna.

J disse que me interessava por literatura. Para aquela
poca as minhas experincias eram apreciveis, e at o
poeta Alexandre Pietrvitch Sumarokov, anos mais tarde,
as elogiaria muito. Certo dia, escrevi um pequeno poema,
que plenamente me satisfez.  coisa sabida que os poetas,
sob o pretexto de precisarem de conselhos, procuram muitas
vezes um ouvinte benevolente. Assim sendo, tendo passado
a limpo os meus versos, procurei Chvabrin, que, na minha
opinio, era a nica pessoa na fortaleza capaz de avaliar os
mritos duma composio potica. Aps um rpido prembulo,
 saquei do bolso o meu caderno e li para ele a seguinte
poesia: (

51
Tento em vo me libertar f

Da sua beleza, Macha. e

Destruir a trama amorosa i"

Em que cego fui cair. - D




Mas seus olhos feiticeiros         ,

Escravizaram-me para sempre.
Atormentam minha alma,
Deixam-me louco de amor.

Sabendo dos meus tormentos,
Macha, venha em meu socorro.
Rompa a cadeia em que vivo,
Prenda-me no seu corao.

- Que  que voc acha? - perguntei a Chvabrin,
cuidando receber um elogio, como prmio que no podia
deixar de merecer. Mas, com grande surpresa minha, o
companheiro, habitualmente to indulgente, declarou-me de
maneira  categrica  que  o  meu  poema  no  valia dois
caracis.

- Mas por qu? - quis saber, tentando esconder
minha decepo.

- Porque parecem da lavra do meu professor Vassili
Kirilitch Trediakovski. No diferem nada das quadrinhas
amorosas daquele asno.

E, tirando o caderno das minhas mos, entrou a criticar
 ferozmente cada verso, palavra por palavra, ridicularizando-me
 da maneira mais insolente. No agentei mais e,
arrancando-lhe o caderno, garanti-lhe que jamais lhe mostraria
 qualquer coisa que fizesse. Chvabrin riu abertamente:

- Vamos ver se cumprir a sua palavra. Os poetas
precisam tanto de ouvintes como Ivan Kusmitch da sua garrafa
 de vodca antes do jantar. Mas quem  essa tal Macha
por quem confessa to grande paixo? No me vai dizer que
 a Maria Ivnovna?



- No tenho que lhe dar satisfao de que Macha se
trata - respondi, vincando a testa de raiva. - Guarde a
sua opinio e as suas suposies para voc mesmo.

- Ora, vejam s! Alm de poeta vaidoso  um apaixonado
 bastante modesto - prosseguiu Chvabrin, enraivecendo-me
 mais ainda. - Oua um conselho de amigo sincero:
 se pretende ter xito, arranje outro meio e deixe de fazer
versos. . .

- Que quer dizer com isso?  bom explicar melhor.

- Com a mxima satisfao, meu amigo. Quero
simplesmente dizer que, se tenciona receber a visita de
Maria Ivnovna ao cair da tarde, deve presente-la com um
par de brincos e no com versinhos melfluos.

Senti o sangue ferver:

- Por que faz tal opinio dela? - e, a custo, continha
 a indignao.

- Porque conheo por experincia prpria os hbitos
dela - respondeu com um sorriso que me encheu de nojo.

- Mente da maneira mais vil, miservel! - gritei
furiosamente.

A fisionomia de Chvabrin se sombreou:

- As coisas no ficaro assim - disse, ameaandome
 com a mo fechada. - Exijo uma satisfao!

- Para quando quiser - respondi com um sorriso,
sentindo que naquele momento era capaz de estraalh-lo.

Sa imediatamente  procura de Ivan Igntitch e encontrei-o
 de agulha na mo: obedecendo  ordem de Vasslissa
legorovna, enfiava cogumelos para secar, a fim de serem
guardados em fieiras para o inverno.

- Ol, Piotr Andreitch, bons olhos o vejam! - disse
quando entrei. - Que o trouxe aqui? Solte logo o assunto,
se me faz favor.



Em rpidas palavras relatei-lhe a discusso com Chvabrin
 e o que dela advir. E pedi-lhe que fosse o meu padrinho
 no duelo. Ivan Igntitch ouviu-me atentamente, arregalando
 o nico olho:

  O senhor me est informando que se vai bater em

duelo com Aliexiei Ivnovitch e que me deseja ter como
testemunha, no  assim? Faa o favor de me dizer!

- Precisamente.

  pelo amor de Deus, Piotr Andreitch! Que maluquice

 o senhor foi inventar! Teve uma desavena com Aliexiei
 Ivnovitch. . . No tem a mnima importncia! Os
desaforos vo como vm. Ele o insultou? Pois insulte-o mais
fortemente. Ele lhe deu um bofeto, responda com outro. . .
E est acabado. Depois ns cuidaremos da reconciliao.
 . . Mas, se me faz o favor, responda-me: est direito
matar o prximo? Ainda bem se o senhor o matasse. Enterraramos
 Aliexiei Ivnovitch e, que Deus me perdoe, mas
triste no ficaria, pois no gosto nada dele. Mas se o senhor
for morto? Que me diz da hiptese? Quem faria o papel de
palerma, faa o favor de me dizer?

As ponderaes do sensato tenente no me demoveram.
 Permanecia nos meus propsitos.

- Pois que seja como o senhor quiser, se acha que
assim  que est certo. Mas por que cargas-d'gua tenho de
ser testemunha? No h novidade nenhuma numa luta. Graas
 a Deus lutei contra suecos e contra turcos e me fartei de
pelejas. Por que tenho de ser ainda testemunha de mais

s, faa o favor de me dizer!

Esforcei-me para lhe explicar o papel dos padrinhos
duelo, mas foi em vo - no entrava na cabea de
Ivan Igntitch. E, por fim, ele disse:

Muito bem. Se o senhor insiste que eu me meta



mesmo na questo, posso ir  presena de Ivan Kusmitch e,
por dever de ofcio, relatar-lhe que na fortaleza se est tramando
 um ato contrrio aos interesses do Estado. E esperaria
 dele as providncias que achasse urgente tomar. . .

Suas palavras me assustaram e roguei-lhe encarecidamente
 que no denunciasse nada ao comandante. No foi
com facilidade que consegui demov-lo, mas acabou por me
dar a palavra de honra que guardaria silncio, e eu sa mais
sossegado, prescindindo de t-lo como padrinho.

Como se fazia costumeiro, passei o sero em casa do
comandante. Caprichei em me mostrar contente e tranqilo,
para no despertar suspeitas e evitar perguntas embaraosas.
 Mas, a bem da verdade, confesso que no tinha aquele
sangue-frio de que se gabam em geral os que se encontraram
em situao semelhante. Naquela reunio, a minha tendncia
 era para os ternos sentimentos. Maria Ivnovna me
agradava mais que nunca. A idia de que, porventura, estivesse
 contemplando-a pela derradeira vez dotou meus olhos
duma comovente expresso.

Chvabrin tambm compareceu; chamei-o para um
canto e comuniquei-lhe a minha entrevista com Ivan Igntitch.
 Ele foi seco:

- Para que precisamos de padrinhos? Podemos passar
 perfeitamente sem eles.

Acertamos realizar o duelo s sete da manh do dia
seguinte, atrs dos montes de feno, que ficavam perto da fortaleza.
 E falvamos de maneira to amistosa, que Ivan Igntitch

 cuidou que ns houvssemos entendido, e cometeu

uma indiscrio:

- J no era sem tempo - disse-me ele com ar risonho.
 - Uma paz, mesmo m, vale mais do que a melhor
das brigas. Pelo menos  mais satisfatria para a sade. . .



- Como ? Como , Ivan Igntitch? - perguntou
Vasslissa legorovna, que, a um canto da sala, manobrava
um baralho para fazer adivinhaes.

Ivan Igntitch percebeu no meu rosto sinais de contrariedade
 e, lembrando-se da promessa que fizera, ficou
perturbado, sem saber o que dizer. Chvabrin acudiu em seu
socorro:

- Ivan Igntitch est aprovando a nossa reconciliao.


- E com quem voc brigou, meu caro?

- Eu e Piotr Andreitch tivemos um pega srio. . .

- Ms por que motivo?

- Por uma coisa -toa, Vasslissa legorovna: uma
cano.

- Brigar por causa duma cano? Mas como pde
acontecer?

-  que Piotr Andreitch comps uma cano e hoje
cantou-a para mim. Eu, ento, cantei a minha cano predileta:
 "Filha do capito, no v passear de noite. . ." Da
nasceu a discusso. Piotr Andreitch ficou danado! Mas depois
 se acalmou, compreendendo que cada um tem o direito
de cantar o que lhe aprouver. E assim tudo terminou bem.

A sem-vergonhice de Chvabrin quase me fez perder a
cabea. Mas ningum, exceto eu, percebeu as suas grosseiras
 insinuaes. Pelo menos, ningum lhe deu ateno.

Da cano, a conversa passou naturalmente para os
poetas, e o comandante emitiu a opinio de que todos eram
uns bbados e me aconselhou carinhosamente a largar a
poesia de mo, pois ela era incompatvel com o servio militar
 e jamais levava a um bom fim.

Era-me intolervel a presena de Chvabrin, e assim,
pouco depois, despedi-me de todos. Chegando em casa, exa




minei minha espada, verifiquei o seu fio e me deitei, determinando
 a Savilitch que me acordasse antes das sete.

No dia seguinte,  hora combinada, postava-me atrs
dum monte de feno. Chvabrin no tardou a comparecer.

- Podem supreender-nos - disse logo que chegou.
- Vamos andar depressa!

Tiramos as tnicas e, apenas de camisa, desembainhamos
 as espadas. E eis que surge, de trs de um dos montes
 de feno, a figura de Ivan Igntitch,  frente de cinco soldados
 veteranos. Exigiu que o acompanhssemos  presena
do comandante, e, contrariados, obedecemos. No meio dos
soldados, batemos para a fortaleza atrs de Ivan Igntitch,
que triunfalmente encabeava a marcha, com uma imponncia
 nunca vista.

Chegando  casa do comandante, Ivan Igntitch abriu
a porta e gritou solenemente:

- Esto aqui!

Vasslissa legorovna correu para nos receber:

- Ah, meus caros amigos, como se atrevem?! No
tem cabimento! Um assassinato em nossa fortaleza! Sero
punidos  severamente por Ivan Kusmitch! - Fez uma
pausa e voltou com a maior energia: - Piotr Andreitch!
Aliexiei Ivnovitch! Entreguem as suas espadas! J! J!
Palachka, ponha estas espadas na despensa. Piotr Andreitch,
 nunca pensei que me fizesse uma coisa assim. No
se sente envergonhado? Aliexiei Ivnovitch j foi removido
da Guarda por um assassinato.  um ateu! O senhor, por
acaso, quer seguir a mesma trilha?

Ivan Kusmitch apoiava inteiramente a mulher e
ajuntou:

- Vasslissa legorovna diz a pura verdade! Os duelos
so terminantemente proibidos pelo regulamento militar! 



Enquanto os dois falavam, Palachka recolheu as nossas
 espadas e levou-as para a despensa. No pude conter o
riso, porm Chvabrin manteve o seu ar superior e dirigiu-se
 esposa do comandante, afetando a maior serenidade:

- Com todo o respeito que nutro pela senhora, no
posso deixar de observar que se est incomodando inutilmente.
 Nosso julgamento  da competncia exclusiva do
nosso comandante.

Prontamente ela replicou:

- Ah, meu caro, est muito enganado! marido e mulher
 so uma coisa s, em corpo e esprito! - E, virando-se
para o marido: - Ivan Kusmitch, por que est a sem fazer
nada? Trancafie-os, a po e gua, em prises separadas at
que a cabea deles volte para o lugar. E que o Padre Guerssim
 obrigue-os a uma penitncia para ficarem em paz
com Deus e se arrependerem perante os homens.

Ivan Kusmitch no sabia que deciso tomar. Maria
Ivnovna estava branca como papel. Mas, afinal, as coisas
se aquietaram. Vasslissa legorovna, mais sossegada, obrigou-nos
 a um aperto de mo e Palachka nos devolveu as
armas.

Deixamos a casa do comandante aparentemente de
bem. Ivan Igntitch nos acompanhou. Mostrei-me zangado
com ele:

- O senhor no se envergonha de ter rompido sua
palavra de honra? Como nos foi denunciar ao capito?

- Juro por Deus que nada revelei a Ivan Kusmitch!
Foi Vasslissa legorovna que, desconfiada, arrancou tudo de
mim. As ordens foram todas dadas por ela,  absoluta revelia
do capito. Felizmente, com a graa de Deus, tudo acabou
bem. . .



E, sem mais palavras, encaminhou-se para a sua casa,
deixando-me a ss com Chvabrin.

_ Nosso caso no pode terminar assim - disse eu.

_ Claro que no - respondeu Chvabrin. - O senhor
 vai pagar com o sangue o que me fez. Advirto, porm,
que seremos vigiados. Por alguns dias teremos que ficar na
moita. At breve !

E cada um foi para o seu lado, como se nada houvesse

entre ns.

Voltando  casa do comandante, eu, como de costume,
fui sentar-me junto de Maria Ivnovna. Ivan Kusmitch
havia sado. Vasslissa legorovna entretinha-se em ocupaes
 caseiras. Conversamos baixinho. Muito carinhosamente,
 Maria Ivnovna ralhou comigo por causa do rebulio
 que provocara a minha desavena com Chvabrin:

- Quase desmaiei quando soube que vocs iam duelar.
 Como so complicados os homens ! . . .   Por causa
duma ninharia, que seria olvidada numa semana, chegam ao
ponto de se matar, indiferentes  aflio daqueles que. . .
Mas tenho a certeza de que no foi o senhor quem provocou
a briga. Tudo partiu de Aliexiei Ivnovitch.

- Por que pensa que foi ele?

- Porque ele faz pouco dos outros. No gosto nada
dele. Mas, coisa curiosa, de maneira nenhuma gostaria de
incorrer no seu desagrado. Ficaria preocupadssima.

Poderia esclarecer-me o que diz. Acha que o agrada
 ou no?

Maria Ivnovna confundiu-se e enrubesceu:

Francamente, acho que ele se interessa por mim.

- Como assim?

J pediu a minha mo



- J pediu a sua mo? No me diga! Quando foi que
ele lhe props casamento?

- No ano passado. Dois meses antes de o senhor
chegar.

- E recusou, Maria Ivnovna?

- No est claro que sim? No nego que Aliexiei
Ivnovitch seja um homem inteligente, de boa famlia e rico.
Mas, quando me lembro de que teria de beij-lo na frente de
todos, na cerimnia do casamento. . . No! Nem por todas
as riquezas do mundo!

O que Maria Ivnovna me disse abriu os meus olhos,
esclareceu muita coisa. Compreendi a razo da malevolente
perseguio que Chvabrin movia  moa. Muito provavelmente
 ele percebera a nossa mtua inclinao e se empenhara
 em nos separar. E as palavras que motivaram a nossa
briga se me afiguraram ainda mais ignbeis. No eram apenas
 grosseiras, mas constituam uma preconcebida calnia.
O desejo de castigar o infame difamador cresceu em mim, e
comecei a esperar, impacientemente, uma ocasio propcia.

No esperei muito. No outro dia, quando burilava uma
elegia, mordendo a caneta no nervosismo de encontrar uma
rima melhor, Chvabrin bateu na minha janela. Larguei a
caneta, peguei a espada e sa ao seu encontro.

- Para que esperar mais? - disse ele. - Agora ningum
  nos  vigia.   Vamos  at  o  rio.  L no   seremos
perturbados.

Caminhamos calados. Descemos um ngreme atalho,
chegamos  beira do rio e desembainhamos as espadas.
Chvabrin era melhor esgrimista; eu, porm, era mais forte e
impetuoso. Monsieur Beaupr, que, como eu j disse, fora
soldado, dera-me algumas aulas da matria, que de muito



me valiam naquela ocasio. Chvabrin no contara encontrar
 em mim um adversrio que oferecesse perigo, e estava
surpreendido. Por bom espao de tempo trocamos espadeiradas
 sem nenhum dano. Mas, quando percebi que ele
comeava a afrouxar, entrei a atac-lo com redobrada firmeza
 e consegui faz-lo retroceder a ponto de molhar os ps
na gua. De repente, ouvi gritar o meu nome. Virei um
pouco a cabea e vi Savilitch correndo em nossa direo
pelo mesmo ngreme atalho que descramos. No exato instante,
 senti uma fisgada no peito, abaixo do ombro direito, e
ca desacordado.



CAPTULO 5
O AMOR

,uando voltei a mim, no pude logo compreender
o que me havia acontecido. Estava deitado numa cama,
num quarto que no conhecia, e tomado de imensa fraqueza.
 Savilitch, ao meu lado, segurava uma vela. Algum,
com muito cuidado, tirava a atadura que me enfaixava o
peito e o ombro. Lentamente fui ganhando conscincia.
Lembrei-me do duelo e compreendi que fora ferido. Eis que
a porta rangeu.

- Como ele est passando? - falou baixinho uma
voz, fazendo tremer meu corao.

- A mesma coisa - respondeu Savilitch com um
suspiro. - J se vo cinco dias e permanece inconsciente.

Tentei virar a cabea, mas me faltaram foras. Ento,
com muito esforo, falei:

- Onde estou? Quem  que est a?

Maria Ivnovna abeirou-se da cama e dobrou-se sobre
mim:

- Como est se sentindo?

- Graas a Deus estou vivo - respondi fracamente.
-  Maria Ivnovna?

E no pude dizer mais nada, pois as foras me fugiram.
Savilitch soltou uma exclamao e o seu rosto se inundou
de alegria.

- Recuperou os sentidos! Recuperou os sentidos! -



repetiu. - Com a graa de Deus! Ah, Piotr Andreitch, que
susto o senhor me pregou! Cinco dias desacordado no 
pouca coisa!

Maria Ivnovna cortou-o:

- No fale muito com ele, Savilitch. Est ainda
muito enfraquecido.

E se retirou, cerrando a porta com cuidado. Meus
olhos ganharam nitidez. Encontrava-me em casa do comandante
 e Maria Ivnovna viera ver-me! Quis fazer umas
quantas perguntas a Savilitch, mas o velho balanou negativamente
 a cabea e tapou os ouvidos com as mos. Aborrecido,
 fechei os olhos e de novo ca na sonolncia.

Quando despertei, chamei Savilitch, mas em vez dele,
me atendeu Maria Ivnovna. Com voz anglical me deu bom
dia.  indescritvel a suave emoo que me assaltou naquele
instante. Peguei na mo dela, encostei-a no meu rosto,
molhei-a com as lgrimas do meu reconhecimento. Macha
consentiu e, de repente, seus lbios pousaram no meu rosto
num beijo quente e perturbador. Senti o peito em fogo:

- Querida Maria Ivnovna, seja minha esposa. Faa
a minha felicidade!

Ela dominou-se, retirou a mo e disse meigamente:

- Pelo amor de Deus, acalme-se. Ainda corre perigo.
O ferimento no est cicatrizado. Tome cuidado. Faa isto
por mim. . .

E retirou-se, deixando-me nas nuvens. A felicidade me
ressuscitou. Ela me amava! Ela seria minha esposa! E o
inefvel pensamento inflava todo o meu ser.

Daquele momento em diante, comecei a recuperar-me
rapidamente. Encontrava-me sob os cuidados do barbeiro
da fortaleza, porquanto no havia mdico, mas, graas a
Deus, ele no era insensato e no se excedia. A mocidade e



a natureza me ajudaram. Toda a famlia do comandante me
desvelava cuidados, especialmente Maria Ivnovna, que no
me deixava sozinho um minuto sequer.  bvio que, na primeira
 oportunidade, retomei a declarao interrompida. Ela
me ouvia mais pacientemente. Com a maior simplicidade
me confessou que tambm gostava muito de mim, garantindo
 que os pais ficariam muito satisfeitos com a escolha
que fizera. E acrescentou:

- Mas pense bem no que faz. A sua famlia estar de
acordo com o nosso casamento?

Pus-me a pensar. Da compreenso de minha me no
tinha dvidas. Mas meu pai era diferente. Conhecia sua
maneira de ser e sabia que o meu amor no o tocaria muito.
Atribuiria meu sentimento a um impulso da mocidade. Com
a mxima franqueza confessei a Maria Ivnovna os meus
temores. E resolvi escrever uma carta a papai, relatando
tudo com a mais recomendvel veemncia e pedindo-lhe que
abenoasse a pretendida unio. Escrita a carta, mostrei-a a
Maria Ivnovna. Ela achou-a to persuasiva e comovente
que no teve dvidas da sua eficincia e entregou-se aos
sentimentos do seu doce corao, confiante na mocidade e
no amor.

Reconciliei-me com Chvabrin to logo fiquei bom.
Ivan Kusmitch, repreendendo-me pelo duelo, disse:

- Prezado Piotr Andreitch! A rigor eu deveria prend-lo.
 Mas j teve o castigo merecido. Quanto a Aliexiei
Ivnovitch, continua preso no armazm de cereais, com sentinela
  vista. A espada dele Vasslissa legorovna trancou a
chave. Que a recluso areje as suas idias a ponto de se arrepender
 do ato praticado.

Eu me sentia to feliz que no podia conservar no
corao nenhum sentimento de vingana e roguei a Ivan



Kusmitch que soltasse Chvabrin. Ele relutou, mas, parlamentando
 com a mulher, que no punha objees, acabou
por mandar p-lo em liberdade. O meu adversrio veio
fazer-me uma visita. Externou o seu arrependimento pelo
lamentvel incidente, confessou-se culpado de tudo e pediu
que eu esquecesse o passado. No tendo gnio rancoroso,
pronta e sinceramente perdoei-lhe a desavena que provocara
 e o golpe com que me ferira. Certo de que a sua calnia
no passava de amor-prprio ferido e de despeito por se ver
desprezado, foi com generosidade que perdoei ao desventurado
 rival.

Alguns dias depois, plenamente restabelecido, voltei
para minha casa. Ansioso, esperava a resposta da minha
carta, no muito seguro da aquiescncia e procurando abafar
 alguns tristes pressentimentos. Ainda no falara com
Vasslissa legorovna nem com o comandante a respeito das
minhas intenes, mas tinha a certeza de que no iriam ficar
surpreendidos com elas. Tanto eu quanto Maria Ivnovna
no escondamos deles os nossos sentimentos, seguros de
contarmos com total aprovao.

Afinal, certa manh, Savilitch irrompeu no meu quarto
 com um envelope na mo. Recebi-o tremendo, ao reconhecer
 no sobrescrito a caligrafia paterna. No ignorava o
que significava aquilo. Comumente era mame quem me
escrevia, limitando-se meu pai a acrescentar no fim da carta
uma linha do prprio punho. Permaneci algum tempo sem
abrir o envelope, lendo e relendo o endereo algo solene:
"Ao meu filho Piotr Andreitch Griniov. Provncia de Orienburg.
 Fortaleza de Bielogorsk". Tentei adivinhar pelo talhe
da letra o estado de esprito em que fora escrita. Por fim,
resolvi abri-la e logo pelas linhas iniciais vi que tudo havia
ido por gua abaixo. O teor da carta era o seguinte:



Meu filho Piotr:

Recebemos no dia 15 deste a carta em que pede a
nossa bno e o nosso consentimento para se casar
com Maria Ivnovna, filha de Mirnov. Quero no somente
 negar os seus dois pedidos, como severamente
repreend-lo por seu procedimento, digno de uma
criana irresponsvel. No posso levar em conta sua
patente de oficial, pois voc provou sobejamente que
no est  altura dela. A espada que lhe foi entregue
para defender a Ptria, voc a sujou num reles duelo
com um vagabundo da sua laia. you escrever agora
mesmo a Andrei Karlovitch solicitando a sua imediata
remoo para um posto ainda mais distante, no qual
poder curar-se da sua sentimental tolice. Sua me, ao
saber do duelo e do ferimento que recebeu, caiu doente
de desgosto e ainda se encontra de cama. Que espera
da vida? Imploro a Deus para que lhe de juzo, porm
no tenho esperanas de ser atendido por sua infinita
misericrdia.

d
S eu pai r|

A. G.

A leitura da carta provocou em mim os mais variados
sentimentos. As expresses cruis com que papai me brindava
 magoaram-me fundamente. O desprezo com que se
referia a Maria Ivnovna parecia-me to indigno quanto
injusto. A idia de ser transferido de posto me alarmava.
Porm o que mais me desgostou foi saber que minha me es




tava enferma. Fiquei zangadssimo com Savilitch, pois julguei
 que tinha sido ele quem informara meu pai do duelo.
Depois de andar de um lado para outro no quarto, parei
diante dele e reprovei-o ameaadoramente:

  No ficou satisfeito em ser responsvel pelo meu

ferimento, que me ps quase um ms s portas da morte!
Ainda quis matar minha me!

No seria diferente a expresso de estupor de Savilitch
 se um raio tivesse cado em sua cabea:

- Meu senhor! Que  que me est dizendo? Fui culpado
 de seu ferimento? Deus sabe que corria para defendlo
 com meu corpo contra a espada de Aliexiei Ivnovitch!
Se no consegui, foi porque a maldita velhice me tirou as
pernas! Mas o que foi que fiz  sua me?

- O que fez? Quem mandou voc escrever contando
o meu duelo? Por acaso encarregaram-no de me espionar?

- Eu escrevi? - e Savilitch chorava. - Meu Deus
misericordioso! Leia esta carta e ver se eu contei alguma
coisa.  do senhor seu pai.

Tirou do bolso uma carta e ma entregou. Nela eu li as
desaforadas palavras que se seguem: p

\

Devia ter vergonha do seu procedimento, velho
co lazarento, pois, contrariando minhas ordens
expressas, nada me comunicou sobre as extravagncias
do meu filho. Se no fosse por estranhos, no saberia
de nada. E desta forma relapsa que cumpre a sua obrigao
 e as determinaes do seu senhor? you coloclo
 como porqueiro, velho co miservel, por fazer
segredo das estripulias do rapaz e ser cmplice dele.
Ordeno-lhe que, to cedo receba esta, me responda



informando-me como ele est passando. Segundo me
escreveram, est melhor. No se esquea de me relatar
minuciosamente em que lugar foi ferido e qual tem sido

'       o tratamento.

Era patente a inocncia de Savilitch. Minhas censuras
e suspeitas no tinham o menor fundamento. Pedi-lhe que
me perdoasse, mas o velho estava inconsolvel:

- Vejam s para que vivi eu tantos anos! Estou recebendo
 o pagamento dos meus prstimos! Sou um co lazarento,
 sirvo somente para guardar porcos e fui o culpado do
seu ferimento! No, meu patrozinho! No sou culpado de
nada. A culpa cabe toda quele miservel francs! Foi ele
quem o ensinou a manejar espadas e a bater com os ps no
cho, como se fosse com espadeiradas e patadas que o senhor
 ia escapar da sanha de um homem sem corao! Para
tanto  que se contratou aquele francs, jogando-se dinheiro
pela janela!

Mas fiquei matutando. Quem teria denunciado a papai
o meu comportamento? O general no fora. Pouco se
importava ele comigo, e mesmo Ivan Kusmitch no achara
necessrio enviar-lhe um relatrio sobre o duelo. Fazia mil
suposies, at que minhas suspeitas recaram sobre Chvabrin.
 Era a nica pessoa que lucraria com a delao, porquanto
 poderia ela resultar em minha remoo e o decorrente
 esfriamento dos laos que me uniam  famlia do
comandante.

Fui procurar Maria Ivnovna para p-la a par de tudo.
Recebeu-me na porta da casa:

- Que  foi  que  aconteceu?  Como  o  senhor est
plido!



- Veja! Est tudo perdido! - respondi, entregando-lhe
 a carta de meu pai.

Tocou a ela empalidecer. Depois de ler a carta, devolveu-a
 com a mo trmula e falou com a voz embargada:

- Cada um tem seu destino. O meu no era ser sua
esposa. Seus pais no me querem na famlia. Seja feita a
vontade de Deus! Ele sabe o que me convm. E, se no
podemos ir contra a vontade dele, Piotr Andreitch, meu desejo
  que seja muito feliz. . .

Tomei-lhe a mo:

- S serei feliz ao seu lado! A senhorita me ama e eu
estou disposto a tudo. Vamos ajoelhar-nos aos ps dos seus
pais. Eles so simples, bondosos, sem orgulho. . . No recusaro
 a bno. Ns nos casaremos, e depois, passados uns
tempos, suplicarei a meu pai que faa o mesmo. Tenho a
certeza, de que ele no recusar. Mame estar do nosso
lado. Tudo far para demov-lo.

- No, Piotr Andreitch - respondeu Macha. -
No me casarei com o senhor sem antes receber a aprovao
 do seu pai. No poderamos ser felizes sem ela.  melhor
 nos curvarmos ante a vontade de Deus. Se encontrar
aquela que o cu lhe destinou, que Deus esteja consigo,
Piotr Andreitch. De minha parte, nunca deixarei de rezar
pela felicidade dos dois. . .

Comeou a chorar e se despediu. Quis ir atrs dela pela
casa adentro, porm senti que no me poderia conter e voltei
para casa.

Estava sentado, imensamente abatido, quando Savilitch
 cortou meus melanclicos pensamentos. Estendeu-me
uma folha de papel e disse:

Meu senhor! Veja se eu o denunciei e se sou culpado
 da discrdia entre o senhor e seu pai.



Peguei o papel. Era a resposta  carta que ele recebera
d meu pai. E li:

f

v Senhor Andrei Pietrvitch, nosso bondoso pai:

Recebi sua magnnima carta, na qual se digna raIhar
 comigo, seu fiel servo, dizendo que eu no tenho
vergonha por no cumprir as suas determinaes. Eu
no sou nenhum co lazarento, mas seu obediente
servo, que sempre cumpriu as suas ordens e sempre serviu
 lealmente at que seus cabelos ficaram brancos.
Nada informei sobre o ferimento de Piotr Andreitch
unicamente para no assust-lo, mas soube que a nossa
bondosa patroa Avdtia Vassilievna tomou tamanho
susto que ficou doente, e pela sade dela tenho rezado
sempre. Piotr Andreitch sofreu um ferimento no peito,
debaixo do ombro direito, exatamente junto ao osso, e
o ferimento tinha quase um dedo de fundo. Da margem

" do rio, onde se deu o duelo, foi carregado por ns para
a casa do comandante e l ficou, sendo tratado pelo

!' barbeiro da fortaleza, Stiepan Paramonov. Agora, graas
 a Deus, est restabelecido e a respeito do seu

<      comportamento s posso dizer coisas boas. Os superio

 rs,  voz corrente, esto muito satisfeitos com ele e em
casa de Vasslissa legorovna  considerado como um
filho. O que aconteceu com ele foi uma infelicidade, e
no deve ser destratado por isso: o cavalo tem quatro
patas e, s vezes, d um tropeo. Quanto ao que o senhor
 se dignou escrever a respeito de me mandar buscar
 de volta para ser seu porqueiro, que seja feita a sua



vontade de senhor. Com os humildes cumprimentos do
seu fiel servo

ARKHIP SAVIELITCH.

No foi possvel deixar de sorrir certas vezes ao ler a
carta do generoso velho. Eu, porm, no me sentia em condies
 de responder a meu pai e, para sossegar mame,
achei qua a missiva de Savilitch era mais do que bastante.

Aps aquele dia, a minha vida mudou. Maria Ivnovna
j quase no me dirigia a palavra, procurando de todas as
formas me evitar. A casa do comandante perdeu o interesse
para mim e fui-me habituando a permanecer solitrio no
meu quarto. A princpio Vasslissa legorovna se queixava
da minha ausncia, mas, como eu mantivesse a mesma
disposio arredia, acabou por no me falar mais nada. No
que tange a Ivan Kusmitch, s o via quando o servio me
obrigava. Muito raramente e a contragosto encontrava
Chvabrin, percebendo nele uma escondida animosidade
contra mim, o que mais fazia aumentar a minha desconfiana.
 Levava, enfim, uma vida insuportvel. Afundava-me
em permanente melancolia, alimentada pela solido e pelo
cio dos meus dias. Foi-se o gosto pela leitura e pelas
composies literrias. Estava aniquilado a ponto de temer
ficar louco ou entregar-me  devassido. Felizmente, inesperados
 acontecimentos, que tiveram extrema significao em
toda a minha vida, sacudiram forte e freneticamente a
minha alma.



CAPTULO 6

A REBELIO DE PUGATCHEV

A,

ntes de iniciar a narrativa dos singulares fatos
que testemunhei,  necessrio dizer umas palavras sobre a
situao em que se achava a provncia de Orienburg, nos
fins de 177 3.

A imensa e rica terra era povoada por muitas tribos
semi-selvagens, que s h bem pouco tempo haviam reconhecido
 o poder dos czares russos. Suas costumeiras revoltas,
 sua inconformidade s leis e  vida civil, a ousadia e
crueldade das suas incurses, exigiam do governo uma permanente
 vigilncia para conserv-las obedientes. As fortalezas
 eram levantadas em lugares propcios e mantidas, na
maior parte, por cossacos, que eram os primitivos dominadores
 das regies banhadas pelo rio laizk. Mas justamente
os cossacos de laizk, que deveriam zelar pela ordem e paz
daqueles ermos, tornaram-se a partir de certa poca os sditos
 mais indisciplinados e perigosos. Em 1772 revoltava-se
a sua principal cidade contra as rgidas medidas impostas
pelo General Traubenberg com o fito de manter a ordem no
Exrcito. Da redundou o brbaro assassinato de Traubenberg,
 a arbitrria mudana da administrao e, por fim, o
sufocamento da insurreio a fogo de metralha e com impiedosos
 castigos.

Tais acontecimentos se haviam verificado pouco antes



da minha chegada  Fortaleza de Bielogorsk. Na ocasio
tudo estava calmo, ou parecia estar. As autoridades acreditavam
 infantilmente na submisso dos matreiros insurretos,
que muito ardilosamente escondiam o seu rancor,  espera
de uma oportunidade para reiniciar a baderna.

Dito isso, tornemos  narrativa.

Certa noite, no comeo de outubro de 1773, estava eu
sozinho em casa, sentado perto da janela, ouvindo o uivar
do vento outonal e observando as nuvens que rapidamente
corriam diante da lua, quando me vieram chamar por ordem
do comandante. Imediatamente fui. Em casa de Ivan Kusmitch
 encontrei Chvabrin, Ivan Igntitch e o sargento cossaco.
 Vasslissa legorovna e Maria Ivnovna no apareceram.
 O comandante tinha um ar apreensivo. Cerrando as
portas, mandou-nos sentar, exceto o sargento, que postou-se
 porta de entrada, sacou do bolso um papel e falou:

- Senhores oficiais, tenho uma notcia grave. O general
 acaba de me escrever. Ouam o que ele me diz.

E, pondo os culos, leu-nos o seguinte:

Ao Senhor Comandante da Fortaleza de Bielogorsk,
 Capito Mirnov. Confidencial.

Pela presente comunicao, informo que o cossaco
 do Don e herege Emilian Pugatchev escapou da priso.
 Incorrendo em inominvel insolncia, adotou o
nome do finado Imperador Pedro in e,  frente de um
bando de salteadores, revoltou as povoaes do laizk,
arrasando vrias fortalezas e praticando em toda a
regio pilhagens e assassinatos. Na contingncia, ao
tomar conhecimento desta, solicito ao senhor capito



tomar imediatamente as devidas providncias para
repelir o aludido bandido e usurpador e, se possvel,
aniquilar completamente o bando, caso ele ataque a
fortaleza confiada  sua responsabilidade.

- Tomar as devidas providncias! - exclamou o
comandante, tirando os culos e dobrando o comunicado.
-  muito fcil dizer! Mas o bandido seguramente dispe
de foras e ns aqui no temos mais que cento e trinta
homens, no contando os cossacos, dos quais no podemos
esperar grande coisa, mas o que digo no atinge a sua pessoa,
 Maximitch.

O sargento sorriu e o comandante continuou:

- Na verdade, pouco podemos fazer, senhores oficiais!
 Mas vamos executar o que est ao nosso alcance.
Manteremos sentinelas e patrulhas noturnas. No caso de
ataque, fechem os portes e espalhem os soldados em posies
 vantajosas. Voc, Maximitch, ponha olho nos seus cossacos
 ! Examinem e limpem bem direito o canho. E, principalmente,
 guardem absoluto silncio de tudo, pois  da
maior convenincia que nada transpire na fortaleza antes do
tempo.

Dadas as ordens, Ivan Kusmitch suspendeu a reunio.
Retirei-me junto com Chvabrin, e entramos a comentar o
que acabramos de ouvir:

- Qual  a sua opinio? Como iro terminar as coisas?
 - perguntei.

- S Deus pode saber. Aguardemos o desenrolar dos
acontecimentos. Por enquanto no vejo motivo para maiores
 apreenses. Contudo, se...

Interrompeu o que dizia, ps-se pensativo, depois
comeou a assobiar uma canoneta francesa.



No obstante todas as cautelas, a notcia da fuga de
Pugatchev se espalhou pela fortaleza. Apesar do grande respeito
 que Ivan Kusmitch tinha pela mulher, nada no mundo
o faria revelar-lhe um segredo de servio a ele confiado.
Todavia foi por intermdio dela que a notcia se divulgou.

Recebida a comunicao do general, Ivan Kusmitch
usou de um estratagema para Vasslissa legorovna no ficar
sabendo o contedo dela. Informou  mulher que o Padre
Guerssim acabara de receber interessantssimas notcias de
Orienburg, das quais estava guardando a mais estranha
reserva. Foi o bastante para Vasslissa legorovna querer
imediatamente fazer uma visita  esposa do sacerdote, e, a
conselho do marido, carregou a filha consigo.

Inteiramente dono da casa, Ivan Kusmitch trancou
Palachka na despensa para que no ouvisse nada, e mandou-nos
 convocar.

Vasslissa legorovna retornou sem ter apurado nenhuma
 das interessantssimas notcias recebidas pelo Padre
Guerssim, mas soube que, na sua ausncia, tinha havido
uma reunio de oficiais e que Palachka fora trancafiada na
despensa. Desconfiou que o marido a enganara e ps-se a
inquiri-lo. Ivan Kusmitch, que havia convenientemente se
preparado, resistiu bravamente ao assdio. Sem um tropeo,
rebateu todas as investidas da curiosidade feminina.

- ^ Voc sabe, Vasslissa legorovna, que as mulheres
daqui tm a mania de usar palha para acender os foges.
Como tal prtica  imprudente, baixei ordens terminantes
para utilizarem somente ramos secos.

Mas por que precisou trancar Palachka na despensa?


Com esta ele no contava. Compreendeu, e mastigou
uma resposta sem sentido. Vasslissa legorovna bispou que



havia gato escondido, mas nada arrancaria do marido, e
desviou a conversa para os pepinos salgados, que Akulina
Pamflovna preparava de maneira toda especial. Mas passou
 a noite em claro, verrumando que segredo era aquele
que o marido no podia revelar, ele, que no lhe escondia
nada.

No outro dia, quando vinha da missa, deu com o marido
 retirando da boca do canho trapos, pedrinhas, pedaos
de madeira, ossos, enfim, todo o lixo que a meninada enfiava
 ali de brincadeira. "Por que faz aquilo?", pensou ela.
"Ser que teme algum ataque dos quirguizes? Por que ele
quis esconder uma bobagem daquela?"

Chegando em casa, chamou Ivan Igntitch com a firme
disposio de fazer com que ele aclarasse o mistrio que
tanto a atormentava. Comeou com algumas observaes
sobre as coisas caseiras, assim como um juiz de instruo
que d incio ao inqurito com perguntas alheias  questo
para engambelar o acusador e arrancar depois a confisso
que tem em vista. Aps um breve silncio, deu um prolongado
 suspiro e disse, balanando a cabea:

- Santo Deus!  E  agora esta!  Como nos vamos
arranjar?

- Oh, minha senhora, no se preocupe! - respon- i
deu Ivan Igntitch. - Soldados temos, plvora no falta e
o canho est em forma. Com a ajuda de Deus podemos;
repelir Pugatchev.

- Quem  esse Pugatchev?

Ivan Igntitch percebeu que dera com a lngua nos den
tes, mas j era tarde. Vasslissa legorovna obrigou-o a contar
 tudo, prometendo ser mais discreta do que um tmulo.

Vasslissa legorovna cumpriu dignamente a promessa
no tocando no assunto com ningum, exceo feita da



lher do padre, assim mesmo porque Akulina Pamfovna
deixava uma vaca pastando na estepe, onde corria o risco de
ser roubada pelos bandoleiros.

Em dois tempos toda a gente falava de Pugatchev nas
mais diversas verses. O comandante encarregou o sargento
de fazer uma rigorosa investigao nas aldeias e fortalezas
vizinhas. Passados dois dias o sargento voltou informando
ter visto um bom nmero de forasteiros, a uns sessenta
quilmetros da fortaleza, e ter ouvido dos basquires que
uma grande fora deslocava-se para a regio. Infelizmente
no podia garantir nada, pois no se atrevera a ir mais
adiante.

Na fortaleza os cossacos ficaram intensamente agitados.
 Iam e vinham nas ruas, formavam grupos, conversavam
 em voz baixa, dispersando-se logo que viam aparecer
um soldado da guarnio. Alguns homens de confiana
foram designados para espion-los, e lulai, um calmuco
batizado, fez um importante depoimento. Estava certo de
que o sargento mentira. O astuto cossaco, ao voltar da misso
 de reconhecimento, declarara aos companheiros que se
encontrara com os revoltosos, tendo-se apresentado ao
chefe, a quem beijara a mo e com quem conversara largamente.
 O comandante no teve dvidas: mandou prender o
sargento, ato que repercutiu muito mal entce os cossacos.
Passaram eles a resmungar ostensivamente, e certo dia,
quando Ivan Igntitch desempenhava uma ordem do
comando, ouviu perfeitamente uma ameaa: - Vai ver o
que  bom, rato de guarnio! - No mesmo dia o coman

 Populao de raa monglica, em sua maior parte, que habita o
norte do Cucaso e a margem direita do Volga. 



dante resolveu interrogar o sargento, mas ele fugira da priso,
 provavelmente com o auxlio dos companheiros.

Um novo caso veio aumentar a inquietao do comandante.
 Um basquir foi surpreendido com um manifesto de
Pugatchev, o que levou Ivan Kusmitch a convocar os oficiais
 para outra reunio, e, como da outra vez, resolveu
afastar Vasslissa legorovna com um pretexto convincente.
Como sua imaginao no era das mais fortes, veio com a
mesma conversa, antecipada de um pigarro:

- Olhe, Vasslissa legorovna, esto dizendo que o
Padre Guerssim recebeu de Orienburg. . .

- Chega de embustes, Ivan Kusmitch! - gritou ela.
- Quer  me afastar outra vez da reunio de oficiais para
falar de Emilian Pugatchev! No me enganar mais!

Ivan Kusmitch estava pasmo:

- Se sabe de tudo, minha querida, fique. Discutiremos
 em sua presena.

- you ficar mesmo. E deixe de bancar o esperto. No
tem o menor jeito. Vamos, mande chamar os oficiais.

Novamente nos reunimos, com a participao de
Vasslissa legorovna. O comandante leu o manifesto de
Pugatchev, da lavra de algum cossaco de poucas letras. O
bandoleiro anunciava o propsito de atacar imediatamente
a nossa fortaleza, pedia a adeso de cossacos e soldados e
aconselhava os oficiais a no se oporem sob pena de execuo
 sumaria. O manifesto era prdigo em palavras grosseiras
 mas veementes e devia impressionar vivamente as criaturas
 simples.

Que atrevimento! - exclamou Vasslissa legorovna.
       Propor que marchemos ao seu encontro e deposiemos
 as bandeiras imperiais aos seus ps! Ah, miservel



filho de uma cadela! Ser que ele no sabe que temos quarenta
 anos de servio ativo e j enfrentamos coisas muito
piores, com a graa de Deus? Ser crvel que haja comandantes
 que se rendam a tal bandido?

-  duro saber - respondeu Ivan Kusmitch. - Mas
fomos informados que vrias fortalezas j se entregaram.

- Se    assim,  fora  ele  deve  ter   -  comentou
Chvabrin.

- Tem que prov-la aqui - disse Ivan Kusmitch. -
Vasslissa legorovna, d-me a chave do depsito. E o
senhor, Ivan Igntitch, v buscar o basquir e mande lulai
trazer as chibatas.

- Espere um pouco - pediu Vasslissa legorovna,
levantando-se. - Deixe primeiro eu levar Macha para um
lugar distante. Ela no suporta ouvir gritos. Fica assustadssima.
 Eu tambm, para ser sincera, no sou adepta de interrogatrios
 a pancada. Aos senhores que ficam, felicidades!

Naquela poca, o emprego da tortura estava to arraigado
 nas prticas judicirias que o humanitrio decreto que
a aboliu ficou muito tempo sem ser cumprido. Pressupunha-se
 que a confisso do criminoso era prova cabal para
imputar-lhe o crime, conceito no somente sem fundamento,
como at contrrio ao esprito jurdico, pois se a negativa do
acusado no  admitida como prova da sua inocncia, tambm
 a sua confisso extrada no deve ser considerada
como prova de culpa. Se ainda hoje ouo velhos juizes
lamentarem a abolio do brbaro costume, naquele tempo,
ento, ningum punha em dvida a necessidade da tortura,
indiferentemente fossem juizes ou acusados. Por tais razes,
nenhum de ns estranhou ou se alarmou com a deciso do
comandante. E Ivan Igntitch foi buscar o basquir que estava
 trancafiado no depsito. No demorou a traze-lo para o



vestbulo, mas Ivan Kusmitch mandou que o fizessem-entrar

na sala.

No foi com facilidade que ele transps o umbral, por

causa do grande e pesado grilho que trazia. Tirou o gorro
alto, e parou junto  porta. Olhei-o e tremi. Viva cem anos
e no esquecerei aquela figura. Devia ter mais de setenta
anos, e no tinha nariz nem orelhas. A cabea era raspada e,
como barba, uns poucos fios grisalhos. Baixo, magro e corcovado,
 os seus olhos fuzilavam.

  Ora! - exclamou o comandante, ao reconhecer

no prisioneiro, pelos medonhos sinais, um dos rebeldes castigados
 em 1741. - Vejo que  lobo velho e j caiu na
nossa armadilha. Vamos. Chegue mais perto e diga: quem
lhe mandou vir aqui?

O velho basquir no abriu a boca, e olhava para o
comandante com absoluta indiferena.

- Por que no responde? Ser que no entende o
russo, idiota? - falou Ivan Kusmitch. - lulai, perguntelhe
 na sua lngua quem o mandou c  fortaleza.

lulai repetiu em trtaro a pergunta de Ivan Kusmitch.
Mas o prisioneiro continuou na mesma indiferena e nada
respondeu.

- No vai ficar assim! - gritou Ivan Kusmitch. -
Agora mesmo ir falar. Soldados! Arranquem o roupo
dele e esquentem-lhe bem as costas. Olhe, lulai, quero um
trabalho bem feito!

Dois veteranos comearam a despir o basquir. A
expresso do desgraado, olhando para um lado e para o
outro, era a de um animal acuado. Um dos veteranos
pegou-lhe as mos, colocou-as  altura do seu'pescoo e
assim suspendeu o velho. lulai levantou a chibata. A o
prisioneiro deu um dbil e suplicante gemido. Sacudindo a



cabea, abriu a boca e, em lugar da lngua, deixou ver um
pequeno toco dela.

Quando considero que isso aconteceu no meu sculo e
que hoje vivo no tranqilo reinado do Imperador Alexandre,
 impossvel deixar de admirar os rpidos progressos da
civilizao e a propagao das doutrinas humanitrias.
Jovens! Se esta minha histria chegar s suas mos, lembrem-se
 de que as mais slidas transformaes da humanidade
 so aquelas que tm por base o aprimoramento dos
costumes, sem abalos violentos.

Ficamos todos perplexos com o que vamos.

- Senhores,  evidente que nada obteremos do prisioneiro
 - disse o comandante. - lulai, leve-o de volta para
o depsito. E voltemos ns a conversar.

Comeamos a analisar a nossa situao, quando Vasslissa
 legorovna entrou na sala, ofegante e alarmada.

- Que houve com voc? - perguntou, um tanto aflito,
 o comandante.

- Uma desgraa! A Fortaleza de Nijneozrnaia foi
tomada hoje! Um criado do Padre Guerssim acaba de chegar
 de l. Assistiu a tudo. O comandante e todos os oficiais
foram enforcados! Os soldados foram aprisionados! Os
bandidos, em breve, marcharo para c!

A infausta notcia me abalou fortemente. Conhecera o
comandante da Fortaleza de Nijneozrnaia. Era um homem
simples, severo, muito moo ainda. No havia dois meses
que ele estivera em Bielogorsk, vindo de Orienburg.
Acompanhava-se da esposa e pernoitara em casa de Ivan
Kusmitch. A Fortaleza de Nijneozrnaia ficava a uns vinte e
cinco quilmetros da nossa apenas. Assim, de uma hora pr outra poderamos ser atacados. O triste destino de



V

Maria Ivnovna acudiu-me  mente e meu corao ficou
frio. Tomei, ento, a palavra:

- Ivan Kusmitch,  nosso dever defender a fortaleza
a qualquer preo. E sobre isso nem  preciso falar. Mas 
urgente pensar na segurana das mulheres. Se o caminho
para Orienburg ainda oferece possibilidade, devemos mand-las
 para l. Ou ento para uma outra fortaleza mais distante,
 longe do alcance dos bandidos.

Ivan Kusmitch virou-se para a esposa:

-  bem pensado, querida. No seria mais conveniente
 levar vocs duas para outro lugar mais garantido, at
liquidarmos a questo aqui?

-  uma asneira! - replicou energicamente ela. -
Haver, porventura, alguma fortaleza onde as balas no
cheguem? Em que se baseia para pensar que Bielogorsk no
 segura? Graas a Deus estamos aqui h mais de vinte e
um anos. J enfrentamos basquires e quirguizes. Quem dir
que no podemos tambm enfrentar Pugatchev?

- Est  direito  -  respondeu  Ivan  Kusmitch.  -
Fique se tem confiana nas nossas possibilidades. Mas
pense em Macha. Tudo correr bem se resistirmos ao ataque
e recebermos reforos. Mas se no nos agentarmos e os
miserveis tomarem a fortaleza?

Vasslissa legorovna gaguejou um pouco:

- Se for assim. . .

- No, Vasslissa legorovna - prosseguiu o comandante,
 vendo que as suas objees haviam calado no nimo
da mulher, o que acontecia pela primeira vez na vida. -"
No  prudente que Macha permanea aqui. Vamos envi-la
para Orienburg. Ficar com a madrinha. L h numerosa
soldadesca, canhes em penca e a muralha  de pedra. Frafl'
camente, aconselho que v com ela. Conquanto j no seja



nenhuma jovem, pense bem no que lhe acontecer se a fortaleza
 for tomada.

  Concordo, em parte! - disse ela. - Que Macha

seja mandada para Orienburg. Eu, porm, no arredarei o
p daqui. No  depois de velha que me irei separar de voc,
nem ser enterrada sozinha em terra estranha. Se vivemos
juntos, juntos morreremos.

  Se  o seu desejo, no me oponho - respondeu

Ivan Kusmitch, comovido. - Mas no percamos tempo. V
aprontar Macha para partir. Amanh, logo cedo, sair
daqui. Arranjaremos uma escolta, embora fiquemos desfalcados,
 pois nem tantos homens temos. Mas onde Macha se
meteu?

- Est em casa de Akulina Pamfilovna - informou
Vasslissa legorovna. - A coitadinha desmaiou quando
soube da queda de Nijneozrnaia. Tenho medo que ela fique
doente. Santo Deus, que vida a nossa!

Vasslissa legorovna saiu para preparar a viagem da
filha e a reunio prosseguiu. Nela, porm, no abri a boca e
at nem mesmo ouvia o que diziam. Maria Ivnovna apareceu
 para o jantar. Estava muito plida, os olhos marcados
pelo pranto. Comemos quase que em silncio e deixamos a
mesa mais cedo que de hbito. Despedimo-nos de toda a
famlia e cada qual tomou o seu rumo. Eu, porm, de propsito,
 esquecera a espada e voltei para apanh-la. Tinha a
certeza de que iria encontrar Maria Ivnovna sozinha. E
assim foi. Ela, na porta, me entregou a espada e disse com
os olhos marejados:

Adeus, Piotr Andreitch. Esto me mandando para
Unenburg. Desejo que seja feliz. Talvez Deus consinta que
nos encontremos ainda. Mas se no...

cmeou a soluar. Tomei-a em meus braos:



- Adeus, meu anjo! Adeus, sonho da minha vida!
Acontea o que me acontecer, ser voc o meu ltimo
pensamento, ser sua minha ltima prece!

Macha chorava convulsamente, colada ao meu peito.
Beijei-a ardentemente e parti.


CAPTULO 7
O ATAQUE

(aquela noite no dormi, nem me despi. Tinha o
propsito de ir, cedinho, para o porto por onde Maria Ivnovna
 deixaria a fortaleza e me despedir dela pela derradeira
 vez. Verificara-se em mim uma considervel mudana:
a agitao dos meus pensamentos era menos pungente do
que o abatimento em que estivera at h pouco mergulhado.
 melancolia da separao vinham juntar-se uma vaga e
doce esperana, uma nervosa expectativa dos perigos a
enfrentar e um nobre sentimento do dever a cumprir. A noite
correu sem que eu desse conta.

J ia eu saindo de casa, quando chegou um cabo com
a informao de que os cossacos haviam abandonado a fortaleza,
 carregando lulai, e que pelas redondezas viam-se
cavaleiros desconhecidos. A hiptese de que Maria Ivnovna
 no pudesse deixar a fortaleza me amedrontou. Dei
apressadamente umas ordens ao cabo e corri para a casa do
comandante.

O dia vinha rompendo. Ia  toda, quando ouvi que me
chamavam. Era Ivan Igntitch, que me alcanou:

- Aonde vai? Ivan Kusmitch est na muralha e mandou
 que eu viesse busc-lo. Pugatchev chegou!

- Maria Ivnovna j foi? - perguntei angustiadamente.





- No conseguiria. A estrada para Orienburg j foi
cortada. A fortaleza est cercada. As coisas no vo bem,
Piotr Andreitch!

Chegamos  muralha. Era uma elevao natural do terreno
 fortificada com uma paliada. Toda a gente da fortaleza
 se aglomerara l, sendo que os soldados j haviam tomado
 posio com os seus fuzis. O canho fora
transportado na vspera. O comandante andava de um lado
para outro na frente do seu minguado contingente e a aproximao
 do perigo despertara no velho soldado uma energia
assombrosa. Cavalgando pela estepe, no muito distante,
avistava-se uma vintena de homens. Pareciam ser cossacos,
mas entre eles havia tambm basquires, facilmente identificados
 pelos gorros de pele de lince e pelas aljavas. O
comandante passou em revista a sua tropa e incentivou-a:

- Valentes soldados! Chegou a hora de defender a
imperatriz, nossa me, e mostrar ao mundo que sabemos
cumprir o nosso juramento!

A veemncia das palavras entusiasmou os soldados,
que responderam com vivas! Chvabrin, ao meu lado, olhou
demoradamente o inimigo. Os cavaleiros espalhados pela
estepe ouviram o grito dos soldados e se juntaram em certo
ponto, parecendo conferenciar. O comandante ordenou que
Ivan Igntitch apontasse o canho para o ajuntamento e ele
prprio manejou a mecha. A bala passou zunindo por cima
do grupo, sem causar-lhe mossa.

Foi quando surgiu Vasslissa legorovna, em companhia
 de Macha, que no queria ficar s:

- Ento, como vai o combate? Onde est o inimigo?

- Anda a por perto - respondeu Ivan Kusmitch. -
Mas, com a ajuda de Deus, sairemos a contento. E voc,
Macha, est com muito medo?



  No, meu paizinho. Aqui fico mais tranqila do

que sozinha em casa. . .

E me olhou, fazendo um grande esforo para sorrir.
Instintivamente apertei fortemente o punho da espada,
recordando-me que a recebera, na vspera, das suas mos,
como se estivesse na emergncia de defend-la. Meu corao
pulsava, acelerado. Imaginava-me seu paladino e ansiava
por demonstrar ser merecedor da sua confiana. Indcil,
comecei a esperar pelo momento decisivo.

Mas um magote de cavaleiros apareceu por trs duma
elevao, a quinhentos metros da fortaleza, e depressa a estepe
 estava coalhada de inumerveis homens armados de
lanas e arcos. Destacava-se, entre eles, cavalgando um cavalo
 branco, um homem de cafet vermelho com o sabre
desembainhado na mo. Tratava-se de Pugatchev em pessoa.
 Em dado momento, sofreou o animal. Foi cercado por
numerosos comparsas e, provavelmente por uma ordem sua,
quatro homens galoparam em direo  fortaleza. Reconhecemos
 logo serem alguns dos nossos desertores. Um prendia,
 sob o gorro, uma folha de papel. Outro trazia fincada
na lana a cabea de lulai, que, lanada por cima da paliada,
 veio cair aos ps do comandante. E os traidores
berraram:

- No atirem! Entreguem-se ao czar! O czar est
aqui!

Vo ver o czar! - gritou Ivan Kusmitch. -
Fogo, soldados!

Houve uma descarga. O cossaco que trazia o papel

es e cornprida para homens, comum em todo o Oriente, com cinta
a"g?s cprdas que podem ser estendidas at alm das pontas
dedos. 



cambaleou e caiu do cavalo, enquanto os outros, rapidamente,
 retrocediam. Olhei para Maria Ivnovna. Horripilada
  vista da cabea ensangentada do calmuco e atordoada
 pelo estampido, parecia que ia perder a razo. O
comandante destacou um cabo para apanhar o papel da
mo do cossaco morto. O cabo trouxe tambm pela rdea o
cavalo do bandido. Ivan Kusmitch leu o papel e rasgou-o
depois em pedacinhos. Enquanto isso, os assaltantes pareciam
 organizar-se para desfechar o ataque. Realmente, poucos
 minutos aps as balas comearem a assobiar sobre as
nossas cabeas, umas flechas esparsas vieram cravar-se na
paliada ou cair perto de ns.

- Vasslissa legorovna, isso aqui no  assunto para
mulheres! - disse o comandante. - Trate j de levar
Macha embora. No v como ela est apavorada?

Vasslissa legorovna abaixara-se para se proteger dos
tiros. Depois deles, perdera um pouco a animao. Obseryou
 a estepe, onde se processava uma grande agitao. E,
virando-se para o marido, disse:

- Ivan Kusmitch, nossa vida ou nossa morte depende
da vontade de Deus. Abenoe sua filha. Macha, aproxime-se
de seu pai.

Muito branca, tremendo, Macha se acercou do pai,
ajoelhou-se e curvou-se, quase roando a testa no cho. O
velho comandante fez por trs vezes o sinal-da-cruz, depois
ergueu-a, beijou-a e falou com voz sufocada:

- Seja feliz, Macha. Reze a Deus, e ele no se esquecer
 de voc. Se encontrar um homem direito, que Deus lhe
d amor e discernimento. Vivam to unidos quanto vivemos
eu e sua me. Agora, adeus, Macha. Que Deus nos prole




 - E, voltando-se para a mulher: - Leve-a depressa
daqui, Vasslissa legorovna!

Chorando, Macha enlaou o pescoo do pai. E, entre
lgrimas, Vasslissa legorovna falou:

  Vamos despedir-nos tambm, Ivan Kusmitch.

Adeus! Perdo se alguma vez aborreci voc.

- Adeus! Adeus, minha querida! - e o comandante
abraou fortemente a velha companheira. - Agora, chega!
Vo para casa que j no  sem tempo.

Vasslissa legorovna e a filha rumaram para se abrigarem
 em casa. Acompanhei-as com o olhar, at que Maria
Ivnovna se virou e me acenou com a cabea. Mas a Ivan
Kusmitch j se dedicava inteiramente aos seus soldados.
Atentamente observou as manobras dos inimigos, que se
reuniram em torno do chefe e depois apearam dos cavalos.
Ivan Kusmitch alertou os seus comandados:

- Agora, firmes! Eles vo atacar.

No mesmo instante, ecoaram gritos e uivos arrepiantes.
Os rebeldes corriam aceleradamente para a fortaleza. O
canho estava carregado. O comandante deixou que eles
chegassem bem perto e, ento, mandou disparar. A bala
caiu precisamente no meio dos assaltantes, que fugiram
para todos os lados, deixando o chefe sozinho, brandindo o
sabre, procurando convenc-los a se reincorporarem. Efetivamente
 conseguiu, e os gritos e uivos recomearam.

timo, soldados! - falou o comandante. -
Agora abram o porto e toquem o tambor. Para a frente,
soldados! Para atacar, sigam-me!

Num timo, o comandante, Ivan Igntitch e eu nos
encontrvamos fora da paliada. A guarnio, porm,
amedrontada, no deu um passo.



- Como , meus filhos? Por que esto parados? -
gritou Ivan Kusmitch. - Se temos de morrer, morramos!
Faz parte do nosso dever!

Mas a os assaltantes j nos haviam envolvido e penetrado
 na fortaleza. O tambor silenciou. Os soldados arriaram
 as armas. Vi-me atirado ao cho, mas rapidamente me
levantei e, misturando-me com os rebeldes, entrei na fortaleza.
 Ferido na cabea, o comandante estava cercado por um
grupo de bandoleiros, que lhe exigiam as chaves. Tentei ir
em seu auxlio, mas alguns cossacos me seguraram, me
amarraram com cintos, gritando:

- Vo pagar bem caro a desobedincia ao czar!
Fomos arrastados pelas ruas. Os habitantes saram das

casas oferecendo po e sal, que eram os smbolos da hospitalidade.
 Os sinos tocavam. De sbito, berraram no meio da
multido que o czar aguardava os prisioneiros na praa,
onde recebia os juramentos de fidelidade. Todos correram
para l e ns fomos levados aos empurres.

Pugatchev encontrava-se repimpado numa poltrona,
diante da porta da casa do comandante. Envergava um cafet
 vermelho de cossaco, enfeitado de gales. O gorro de pele
de marta, com borlas douradas, enterrava-se na sua cabea
at os olhos, que luziam. O rosto no me pareceu desconhecido.
 Os chefes cossacos o rodeavam. Branco como cal, tremendo
 como vara verde, o Padre Guerssim encostava-se
no porto, com um crucifixo nas mos, e, silenciosamente,
parecia suplicar pelos prisioneiros. Na praa, apressadamente
 armaram uma forca. Ao nos aproximarmos os basquires
 afastaram o povaru e nos empurraram para diante
de Pugatchev. Os sinos se calaram e baixou um profundo
silncio.



- Onde est o comandante? - perguntou o impostor.


O nosso sargento avanou e apontou Ivan Kusmitch.
Pugatchev encarou severamente o velho e perguntou:

- Como teve o atrevimento de se opor a mim, que
sou o czar?

O ensangentado e enfraquecido comandante reuniu as
ltimas foras e respondeu com voz firme:

- No  czar, coisa nenhuma! No passa de um
ladro e de um impostor!

Pugatchev fechou a cara e agitou um leno branco.
Imediatamente uns cossacos agarraram o velho capito e o
arrastaram para a forca. O mutilado basquir cujo interrogatrio
 havia fracassado na vspera subiu ao travesso da
forca e manejou a corda para a execuo. Instantes depois
Ivan Kusmitch era enforcado. Tocou, ento, a vez de Ivan
Igntitch ser levado  presena de Pugatchev.

- Preste juramento a seu czar Piotr Fiodorovitch! -
gritou-lhe Pugatchev.

Ivan Igntitch repetiu as palavras do seu comandante:

- No  czar, coisa nenhuma! No passa de uni
ladro e de um impostor!

Novamente Pugatchev agitou o leno e o corpo do bom
tenente ficou pendurado ao lado do corpo do comandante.

Chegou a minha vez. Tinha os olhos resolutamente
postos em Pugatchev e me dispunha a repetir o que disseram
os meus valentes companheiros. Foi quando vi, com indescritvel
 espanto, Chvabrin entre os mais destacados chefes
rebeldes. Tinha o cabelo cortado em crculo e vestia um
cafet cossaco. Acercou-se de Pugatchev e falou-lhe qualquer
 coisa ao ouvido.


  Forca com ele - disse o impostor, sem mesmo me

olhar.

Passaram-me um lao no pescoo. Comecei a rezar

baixinho, pedindo perdo a Deus por todos os meus pecados
e implorando a salvao de todos os que me eram caros. E
fui arrastado para a forca.

  No tenha medo, no tenha medo - repetiam os

meus carrascos, talvez me desejando encorajar.

A, escutei um grito:

- Esperem, malditos! Esperem!

Os homens pararam. E vi Savilitch atirar-se aos ps
de Pugatchev.

- Nosso pai! Que vai lucrar com o sacrifcio de um
jovem aristocrata? Conserve-o vivo e procure obter um bom
resgate. Mas, se quer um exemplo para impor respeito, aqui
estou. Mande-me enforcar. Sou um velho que j no serve
para nada.

Pugatchev   fez   um   sinal   com   a   mo   e   eu   fui
desamarrado.

- Est livre. Nosso pai o perdoou - disseram-me.
No ouso dizer que, naquele momento, tivesse ficado

alegre com a minha liberdade. Mas tambm no posso dizer
que a lamentei. Os meus sentimentos estavam deveras
perturbados. Empurraram-me para junto de Pugatchev,
obrigaram-me a ajoelhar aos seus ps. Ele estendeu-me a
mo de duras veias.

- Beije! Beije! - gritavam  minha volta.

Eu, porm, preferia a morte mais atroz quela vil
humilhao.

     T~ Patl"ozinho Piotr Andreitch, no seja cabeudo!

disse baixinho Savilitch, cutucando-me as costas. -



No lhe vai tirar pedao! Beije a mo do bandi. . . Livra!
Ande, beije-lhe a mo!

Fiquei imvel. Pugatchev retirou a mo e falou com
um leve sorriso:

- Vossa Senhoria certamente ficou aparvalhado pela
alegria. Levem-no daqui!

Levantaram-me e me deixaram livre. Permaneci vendo
o resto da terrvel comdia.

Teve incio o juramento de fidelidade pelos habitantes
da fortaleza. Vinha um aps outro, beijava o crucifixo e
fazia uma reverncia ao impostor. Os soldados da guarnio
 estavam em fila. O alfaiate da fortaleza, com a sua bem
pouco amolada tesoura, ia cortando-lhes as trancas; depois
de tosados, curvavam-se ante Pugatchev, que os declarava
perdoados e os aceitava no bando. A cerimnia durou cerca
de trs horas. Por fim, Pugatchev se levantou e se afastou,
seguido do seu estado-maior. Trouxeram um cavalo branco
ricamente ajaezado. Dois cossacos o ajudaram a montar.
Pugatchev, do alto da sela, informou ao Padre Guerassim
que iria jantar em sua casa. No exato momento, ouviu-se
um grito de mulher. Alguns bandoleiros arrastavam de casa
Vasslissa legorovna, desgrenhada e quase nua. Um deles j
se apossara do seu casaquinho, outros traziam colches de
pena, malas, servios de ch, roupas, em suma, o que puderam
 saquear.

- Misericrdia!   -   gritava   a   infeliz   velha.   -
Levem-me para junto de Ivan Kusmitch!

De repente, deu com os olhos na forca e viu o marido
pendurado, e foi como se tivesse um ataque de loucura:

- Miserveis! Que fizeram com ele! Ivan Kusmitchi
meu querido, meu valente soldado! Voc escapou das baio'



netas prussianas e das balas turcas! E no tombou numa
luta honrosa! Morreu nas mos dum porco fugido das

i 

 Faam  a velha bruxa calar a boca!  - gritou

Pugatchev.

Um jovem cossaco descarregou um golpe de sabre na
cabea dela e Vasslissa legorovna caiu morta no sop da

escada.

Pugatchev picou o cavalo e o povaru saiu correndo

atrs dele.


CAPTULO 8

UM CONVIVA INESPERADO

A

praa ficou deserta. Continuei parado no
mesmo lugar, com a mente em desordem, chocado pelos trgicos
 acontecimentos que acabava de testemunhar. Mas o
que mais me torturava era no saber o destino de Maria Ivnovna.
 Onde se encontrava? Que lhe teria sucedido? Tivera
oportunidade de escapar? Seria seguro o seu esconderijo?
Cheio de inquietantes dvidas, entrei na casa do comandante.
 Nada escapara  sanha dos assaltantes. Mesas, cadeiras
 e armrios em pedaos. Cacos de loua cobriam o cho.
O resto havia sido roubado. Subi a pequena escada que levava
 ao quarto de Maria Ivnovna. Pela primeira vez ali
entrava. A cama havia sido revolvida pelos bandidos. O
armrio estava quebrado e dele tinham levado tudo. Uma
lamparina brilhava frouxamente diante do oratrio vazio.
Restara, intacto, o espelho pregado na parede. Onde estava
a dona daquele quarto de donzela? Tive um pensamento
horrvel: imaginei-a nas mos dos bandidos. . . E senti uma
dolorosa presso no corao. No pude conter o choro e,
em voz alta, gritei pela minha amada. Ouvi, ento, um leve
rudo e Palachka surgiu de trs do armrio, lvida,
tremendo:

- Ah, Piotr Andreitch! - disse, torcendo as mos'
- Que dia atroz! Que monstruosidade!



  E Maria Ivnovna? - perguntei, impacientemente.

 O que aconteceu com ela?

'   viva.   Escondeu-se   em   casa   de   Akulina

Pamflovna.

  jsfa casa do padre! - exclamei alarmado. -

Santo Deus, Pugatchev tambm est l!

Em dois pulos estava na rua e, tonto, corri para a casa
de Guerssim. A distncia j se ouviam gritos, gargalhadas,
canes. Pugatchev comemorava a vitria com os seus
sequazes. Palachka correra em meu encalo. Mandei que
ela, sorrateiramente, chamasse Akulina Pamflovna. A mulher
 do padre no demorou a vir encontrar-se comigo no
vestbulo. Trazia na mo uma garrafa vazia.

- Pelo amor de Deus! Onde est Maria Ivnovna?
- perguntei na maior aflio.

- A coitadinha est deitada na minha cama, atrs do
tabique.  Por pouco no  se dava uma desgraa, Piotr
Andreitch! Felizmente, Deus no consentiu! O bandido
acabava de se sentar para jantar, quando ela acordou e
gemeu. . . Quase morri de medo! Ele ouviu o gemido e me
perguntou quem era. Fiz um salamaleque e respondi que era
minha sobrinha, que se encontrava de cama, doente, h mais
de uma semana. "E a sua sobrinha  moa?", quis saber ele.
Respondi que sim. Pediu, ento, que a trouxesse para ele
ver. Fiquei em elicas, mas consegui apelar para uma sada expliquei-lhe que ela no se podia levantar, estava muito fraca.

No tem importncia, velha. Eu you v-la", disse ele. E o
maldito foi mesmo espi-la atrs do tabique. Abriu o cortino,
 olhou-a com seus olhos de ave de rapina e nada fez.
Protegeu! Sabe de uma coisa? Eu e meu marido j
Preparados para morrer. Por milagre, a pobrezi




nha no o reconheceu! Santo Deus, que dia horrvel! Pobre
Ivan Kusmitch! O que fizeram com ele! E Vasslissa legorovna!
 E Ivan Igntitch! O que fez o bom velhote? No sei
como pouparam o senhor. E que monstro o Chvabrin! Cortou
 o cabelo em crculo e est participando do festim aqui
em casa! No se pode negar que  finrio! Quando falei da
sobrinha doente, ele olhou para mim e o seu olhar era como
uma faca que me atravessasse. Todavia, no denunciou
nada e, pelo menos, ficamos devendo isso a ele.

Ouviam-se os gritos bbados dos convivas e a voz do
Padre Guerssim. Exigiam vinho e o padre chamava a
mulher. Ela ficou inquieta:

- V para casa, Piotr Andreitch! Agora no tenho
tempo para atend-lo. E os bandidos esto embriagados.
Corre o risco se cair na mo deles agora. Adeus, Piotr
Andreitch. O que tiver de ser, ser. Confiemos que Deus se
apiede de ns!

Ela voltou para a sala e eu fui para casa mais apaziguado.
 Ao passar pela praa, vi alguns basquires em volta
da forca, tirando as botas dos sacrificados. Contive a minha
indignao, pois senti a inutilidade da minha interveno.
Os bandidos corriam pela aldeia, pilhando as casas dos oficiais.
 Por todos os cantos se ouviam os gritos dos bandidos,
embriagados.

Savilitch me esperava na porta. E exclamou ao me
ver:

- Graas a Deus! Cuidei que tinha cado outra vez
na unha dos bandidos! Ah, patrozinho, acredite! Os miserveis
 nos surrupiaram tudo! Roupas, equipagem, loua. . .
Carregaram tudo! Ainda bem que o deixaram com vida! O
senhor reconheceu o chefe deles, patrozinho?

- No, no o reconheci. Quem ?



- Como, meu senhor?! Ento se esqueceu daquele
vagabundo da estalagem que o embrulhou e levou o seu capote
 de pele de lebre? De pele de lebre e quase novo! E o
animalejo estragou-o logo quando o vestiu!

Fiquei atnito. Constatava, agora, a incrvel parecena.
 E compreendia, ento, o motivo do inexplicvel perdo
que merecia. Como era engraada a vida! Um capote oferecido
 a um vagabundo me salvara da forca, o bbado de
ontem, que perambulava pelas estalagens de estrada, era o
homem que tomava fortalezas e ameaava o imprio!

- O senhor no vai comer qualquer coisa? - perguntou
 Savilitch, inflexvel nos seus hbitos. - C em
casa no temos nada. Mas you arranjar-me l fora.

Ficando s, entreguei-me  meditao. Que iria fazer?
Tanto permanecer na fortaleza dominada pelo impostor
quanto acompanhar o bando era procedimento fora de cogi
tao, indigno de um oficial. Meu dever impunha que me
apresentasse onde meus servios pudessem ser teis naqueles
 conturbados dias. . . Mas o amor me impelia a ficar
perto de Maria Ivnovna, para a eventualidade de poder
defend-la e ampar-la. Conquanto farejasse uma bem breve
mudana na situao, no podia deixar de tremer imaginando
 os perigos que a jovem corria.

Minhas reflexes foram cortadas pela chegada de um
cossaco, que veio correndo.com o recado de que "o grande
czar exigia a minha presena".

- Onde ele est? - perguntei, aprontando-me para
obedecer.

- Na casa do comandante - informou o cossaco. -
Quando acabou de jantar, o nosso pai foi para a casa de
banhos, mas agora est repousando. Vossa Senhoria deve
concordar, por tudo o que se v, que ele  uma grande perso




nalidade. No jantar comeu dois leites assados. No banho,
exigiu o vapor to quente que Taras Kurotchkin no agentou
 ficar fustigando-lhe o corpo com o raminho de btula,
passou-o a Fomka Bikhaiev, e a muito custo se recuperou
com gua fria. Sim, so procedimentos que demonstram a
sua personalidade. E dizem que, no banho, viram a grande
medalha que tem pendurada no peito. De um lado, uma
guia bicfala, e do outro o seu prprio perfil!

No achei oportuno contrariar a opinio do cossaco e
acompanhei-o  casa do comandante, imaginando no trajeto
o meu encontro com Pugatchev e tentando adivinhar qual
seria o seu desfecho. O leitor pode facilmente avaliar o meu
grau de serenidade. . .

J escurecia quando chegamos  casa do comandante.
A forca com as suas vtimas era uma sinistra viso. O corpo
de Vasslissa legorovna ainda estava atirado prximo da
porta de entrada, guardada por dois cossacos. O rebelde que
me conduzia foi comunicar a minha chegada e depressa tornou;
 fui levado para a sala onde, na vspera, to ternamente
me despedira de Maria Ivnovna.

Deparei com uma cena incrvel. Em torno da mesa,
coberta com uma toalha e crivada de copos e garrafas, estavam
 aboletados Pugatchev e uma dzia de chefes cossacos,
com seus gorros e berrantes camisas. Tinham os rostos vermelhos
 pela ao do vinho e os olhos faiscavam. Entre eles
no se encontravam os nossos dois traidores: Chvabrin e o
sargento.

Ao me ver, Pugatchev me convidou:

- Seja bem-vindo, Vossa Senhoria! Queira fazer o
favor de escolher um lugar.

Os convivas se apertaram um pouco e eu me sentei,
calado, numa ponta da mesa. Meu vizinho, que era um



jovem e belo cossaco, encheu-me logo o copo de vinho; eu,
porm, nem o toquei. Pus-me a observar curiosamente a
assemblia. Pugatchev plantava-se  cabeceira, os cotovelos
fincados na tbua, as amplas mos apoiando o queixo
escondido por espessa barba negra. O rosto de traos
harmoniosos e at simpticos no denunciava nenhuma
ferocidade. Com insistncia falava a um homem dos seus
cinqenta anos, tratando-o ora de "conde", ora de Timofei e
uma vez por outra de "tiozinho". Todos se tratavam como
camaradas, no demonstrando qualquer deferncia especial
pelo chefe. Falaram abundantemente do assalto daquela
manh, do sucesso da revolta e de planos futuros. Cada um
enaltecia as faanhas praticadas, opinava sobre a marcha
dos acontecimentos e discutia abertamente com Pugatchev.
E naquele singular conselho de guerra ficou resolvido um
avano sobre Orienburg, ao arrojada e que por pouco no
seria coroada de xito. A marcha contra Orienburg foi marcada
 para o dia seguinte.

- Agora, meus irmos, antes de dormir - disse
Pugatchev -, vamos cantar a minha cano predileta! Comece
 voc, Tchumakov!

Com uma bela e suave voz, meu vizinho comeou a entoar
 uma melanclica cano de barqueiro, e logo todos se
lhe juntaram em coro:

No rumoreje, velha floresta amiga,

No perturbe os meus cismares,

Pois amanh serei inquirido

Por um juiz tremendo - o nosso prprio czar!
,, J sei o que ele me vai perguntar:
 "Fale, fale, pobre filho de um mujique,

Quem foi seu companheiro de assaltos



E se eram muitos, fale!"

Confesso, aos vossos ps, humildemente,

Toda a verdade, grande czar e pai nosso.

Sim, tive companheiros. Quatro eram.

O primeiro era a imensa noite escura.

O segundo, meu punhal de ao,

O terceiro, o meu brioso corcel,

E o quarto, meu arco retesado.

Tive espies tambm - minhas flechas de fogo.

E o czar, nosso pai, ento dir:

"Salve,  valente filho de um mujique,

Que to bem roubou e respondeu!

Por uma e outra coisa you presente-lo

Com um belo castelo em campo aberto,

Feito de dois postes e uma viga..."

No  possvel passar para o papel a impresso que me
causou esta cano popular sobre a forca, cantada por homens
 que nela, um dia, iriam morrer. Seus rostos amedrontadores,
 suas vozes fortes e afinadas, a expresso de tristeza
que imprimiam s palavras, j por si to significativas -
tudo me sacudia e me insuflava um potico horror.

Aps enxugarem mais um copo, os homens se levantaram
 e se despediram de Pugatchev. Ia segui-los, quando
Pugatchev me impediu:

- No v. Quero conversar com o senhor.

Ficamos, ento, sozinhos. Houve um mtuo e prolongado
 silncio. Pugatchev no tirava o olhar de mim, piscando
 de vez em quando o olho esquerdo com uma extraordinria
 expresso de gozao e velhacaria. Por fim, entrou a
gargalhar com uma to sincera alegria que, contaminado,
pus-me a rir tambm, sem saber por que o fazia.



- Vossa Senhoria passou um mau pedao, hein? -
disse. - Confesse que as pernas fraquejaram quando meus
camaradas botaram a corda no pescoo do senhor. . . Viu
as coisas mal paradas, hein? A esta hora estaria balanando
na forca se no fosse o seu criado. . . Reconheci logo aquele
 velho  malandro. Vossa Senhoria podia supor que o
homem que encontrou na estrada fosse o prprio grande
czar? - A ele tomou um ar misterioso e importante e continuou:
 - Para mim Vossa Senhoria tinha muita culpa.
Mas eu soube perdoar pela ao generosa que praticou e
porque me prestou um grande favor, quando eu tinha que
me esconder dos meus inimigos. Mas ainda ir ter muito
mais. you encher Vossa Senhoria de benefcios quando
receber o meu imprio! Promete servir-me com dedicao?

A pergunta do impostor e a sua ousadia me pareceram
to cmicas que no pude reprimir um sorriso.

- Por que sorri? - perguntou ele, enfarruscando o
semblante. - No acredita que eu seja o grande czar? Fale
com sinceridade!

Fiquei perturbado. Reconhecer o vagabundo como
czar se me afigurava duma fraqueza inominvel. Acus-lo
de impostor seria o mesmo que abrir o meu prprio tmulo.
Tal atitude no passava de petulncia intil, sabia-o ento
perfeitamente, e fora o que eu pensava fazer, diante do povo,
quando me passaram a corda no pescoo. E hesitei. Com a
testa franzida, Pugatchev aguardava a minha resposta. Por
fim, e muito me orgulho hoje da deciso, falou em mim a
voz forte do dever, sobrepondo-se  fragilidade humana, e
disse-lhe:

- you  ser  franco.  Pensa que posso  reconhec-lo
como czar? Se o fizesse, homem inteligente que , veria que
o estava enganando.



l

- Mas quem sou eu, no seu parecer?

- S Deus sabe quem ! Mas, seja quem for, est-se
metendo numa empresa muito arriscada.

Pugatchev endureceu o olhar:

- Acha, ento, que eu no sou o Czar Piotr Fiodorovitch?
 Muito bem. Mas os ousados no tm o seu prmio?
Grichka Otriopiev no foi czar em outros tempos? Pode
fazer de mim o juzo que quiser, mas fique ao meu lado. Que
tem a ver com os outros? Sirva-me com dedicao e eu farei
do senhor marechal e prncipe. Que tal?

Respondi firmemente:

- No posso. Sou nobre de nascimento e prestei juramento
  imperatriz. No posso servi-lo. Se gosta de mim,
como diz, deixe-me ir para Orienburg.

Pugatchev ps-se pensativo, depois falou:

- Mas, se fizer o que pede, posso contar que no lutar
 contra mim?

- Como posso prometer tal coisa? - retruquei. -
Sabe, to bem quanto eu, que no mando em mim. Sou um
militar. Se me ordenarem que marche contra voc, marcharei.
  a disciplina. Voc mesmo, como chefe agora, exige
absoluta obedincia dos seus subordinados. Que faria com
quem se negasse a obedec-lo? Bem, minha vida est em
suas mos. Se me deixar ir, eu muito agradeo. Se me condenar,
 Deus ser o seu juiz. Assim disse tudo o que tinha
francamente a dizer.

A minha sinceridade tocou Pugatchev:

- Compreendo as razes - disse, dando-me uma
palmada no ombro. - Se sei condenar, sei tambm perdoar!
 Pode ir para onde quiser e fazer o que achar mais
certo. Amanh venha despedir-se de mim. Agora vamos
dormir, que eu estou caindo de sono.


Sa para a rua noite era fria e serena. A lua e as
estrelas iluminavam fortemente a praa e a forca. Na fortaleza
 tudo era treva e silncio. Apenas na taverna havia luz e
gritos de retardatrios. Olhei para a casa do Padre Guerssim.
 A porta e as janelas estavam fechadas. Dentro, tudo
parecia em paz.

Fui encontrar Savilitch preocupado com a minha
ausncia. Quando contei-lhe que estava livre, sua alegria foi
imensa:

- Deus o protegeu! - exclamou, fazendo o sinalda-cruz.
 - Logo que amanhecer sairemos desta maldita
fortaleza! E sem olhar para trs! Preparei uma coisinha
para o senhor comer. Vamos, coma, patrozinho! E durma
sossegado.

Segui o seu conselho. Depois de comer com bom apetite,
 deitei-me no cho, cansado de corpo e esprito.

,,



CAPTULO 9
A DESPEDIDA

Eu ui despertado pelo rufar do tambor. Era bem
cedo. Dirigi-me ao ponto de reunio. Em volta da forca,
donde ainda pendiam os enforcados na vspera, alinhavamse
 os homens de Pugatchev. Os cossacos estavam montados,
os infantes portavam as suas armas, as bandeiras tremulavam,
 uns poucos canhes, entre os quais reconheci o nosso,
haviam sido colocados sobre carretas de campanha. Todos
os habitantes ali se encontravam  espera do impostor.
Diante da porta da casa do comandante, um cossaco segurava
 pela rdea um magnfico cavalo branco. Procurei, com
os olhos, o corpo de Vasslissa legorovna. Tinha sido levado
para um canto e coberto com um pano grosseiro.

Afinal, surgiu Pugatchev e a multido se descobriu. Ele
parou  entrada da casa e fez uma larga saudao. Um dos
chefes entregou-lhe um saco de moedas de cobre, e ele
comeou a atir-las, aos punhados. Aos berros, o povaru se
lanou para apanh-las e, na balbrdia, muitos saram
pisados.

Pugatchev foi cercado pelos principais asseclas, e,
entre eles, estava Chvabrin. Nossos olhares se cruzaram um
instante. Ele bem pde ler no meu o desprezo que lhe votava,
 mas me virou as costas, depois de um sorriso de zombaria
 que escondia toda a sua raiva. Vendo-me, Pugatchev me
fez um sinal com a cabea para que me acercasse.



- Oua bem - disse ele. - V sem demora para
Orienburg e previna o governador e todos os generais que
dentro de uma semana estarei l. Aconselhe-os a me receberem
 com amor filial e obedincia. Do contrrio sero todos
enforcados. Boa viagem a Vossa Senhoria!

Virou-se, ento, para o povo e, apontando Chvabrin,
declarou, levantando a voz:

- Eis  aqui, meus filhos, o  novo comandante de
vocs! Sejam obedientes, pois ele  que me responder por
vocs e pela fortaleza!

Tais palavras me horrorizaram. Chvabrin era o
comandante da fortaleza! Maria Ivnovna ficaria sob a sua
custdia. Que seria dela, meu Deus!

Pugatchev avanou. Trouxeram-lhe o cavalo. Agilmente
 cavalgou a montaria, sem esperar a ajuda dos cossacos.
 Foi quando Savilitch saiu do meio do povo e entregou
uma folha de papel a Pugatchev. Eu no compreendia nada.

- Que negcio  esse? - perguntou o impostor,
autoritariamente.

- Faa  o   favor   de   ler  e   saber  -  respondeu
Savilitch.

Pugatchev examinou o papel longa e atentamente. E,
por fim, falou:

- Por que diabo escreve de modo to complicado?
Meus nobres olhos no decifram nada! Onde est meu
secretrio-mor?

Um moo, com gales de cabo, correu para Pugatchev,
que lhe passou o papel, ordenando:

- Leia isso alto!

Estava eu curiosssimo em saber que coisas tinha escrito
 o meu servo a Pugatchev. E, em voz alta, o secretriomor
 comeou a soletrar:


Jft


- "Dois roupes, um de algodo e outro de seda, seis
rublos."

- Que raio  isso? - e Pugatchev amarrou a cara.

- Mande-o   ler   mais   -   respondeu   calmamente
Savilitch.

O secretrio-mor continuou:

- "Um uniforme de l verde, sete rublos. Uma cala
branca, cinco rublos. Uma dzia de camisas de Unho holands
 com punhos, dez rublos. Uma caixa com um servio de
ch, dois rublos e meio..."

- Que besteirada  essa? - cortou Pugatchev. -
Que tenho eu a ver com caixas e camisas de linho?

Savilitch deu um pigarro e p's-se a explicar:

- Senhor!  a lista das coisas que foram roubadas do
meu patro pelos bandoleiros. . .

- Que bandoleiros? - perguntou Pugatchev severamente.


- Perdo! A palavra saiu errada. Eu queria dizer soldados.
 Eles levaram tudo isso do meu patro. No se aborrea
 ! O cavalo tem quatro patas e, mesmo assim, d tropees.
 Mande ler tudo at o fim.

- Leia - disse Pugatchev.

E o secretrio-mor prosseguiu a leitura:

- "Um cobertor de l e outro de seda acolchoado de
algodo, quatro rublos. Uma pelia de pele de raposa, forrada
 de l vermelha, quarenta rublos. Um capote de pele de
lebre, dado ao senhor na estalagem, quinze rublos."

- Que diabo  isso? - perguntou Pugatchev com os
olhos soltando fascas.

Receei pela vida do meu bom servo, que procurava
novamente se explicar, porm, o impostor o interrompeu,
gritando:



- Como tem a ousadia de me vir importunar com
semelhantes bagatelas? - E, arrancando o papel das mos
do secretrio-mor, atirou-o na cara de Savilitch. - Velho
cretino! Foram roubados? Que se danem! Mas voc, velho
safado, deve rezar noite e dia pelo resto da vida por mim e
por meus soldados. Por um triz escapou de ficar pendurado
juntamente com seu patro, ao lado dos que me desobedeceram
 ! Um capote de pele de lebre! you dar-lhe um casaco
de pele! Mas da sua, que you mandar arrancar, sabe?

- Est na sua vontade! - retrucou Savilitch. -
Mas eu sou um servo e tenho que prestar contas dos pertences
 do meu patro.

Pugatchev parecia estar atacado de bondade. Deu-lhe
as costas e tocou o cavalo sem dizer mais nada. Chvabrin e
os chefes cossacos o seguiram. Em boa ordem o bando deixou
 a fortaleza e o povo acompanhou-o para v-lo partir.
Ficamos na praa apenas eu e Savilitch, que examinava a
sua lista com uma expresso de profundo pesar. Vendo que
Pugatchev tinha para comigo excepcionais deferncias,
resolvera aproveit-las. Mas a sua artimanha no dera em
nada. Eu comecei a ralhar com ele pelo inoportuno zelo,
mas acabei rindo.

- Pode rir, senhor. Pode rir. Mas, quando tivermos
de   comprar  tudo   novamente,   ver  que  no   ser  to
divertido. . .

Apressei-me em ir  casa do Padre Guerssim para ver
Maria Ivnovna. Akulina Pamfilovna me recebeu com uma
m notcia. Durante a noite, a moa tivera febre alta e ainda
estava delirando. E me conduziu ao quarto da enferma.
Aproximei-me da cama na ponta dos ps. Espantei-me com
a mudana verificada no seu rosto. Ela no me reconheceu
e, por largo tempo, fiquei ali pregado, indiferente ao que di




ziam o padre e a mulher, provavelmente palavras consoladoras.
 Um mundo de turvos pensamentos tomava-me o crebro.
 Amedrontava-me o estado da infeliz e desamparada
rf, entregue a to sanguinrios algozes, e reconhecia a
incapacidade de defend-la. Mas, principalmente, me assustava
 a presena de Chvabrin. Investido na autoridade de
comandante da fortaleza, em que situao ficava a pobre
moa? Inocente objeto do seu dio, era capaz de, por vingana,
 fazer tudo com ela. Como eu poderia evitar os seus
desmandos? Como poderia livr-la das mos daquele malfeitor?
 S me restava uma coisa: partir incontinenti para
Orienburg, a fim de apressar a retomada da fortaleza de Bielogorsk
 e pr na empresa tudo quanto estava ao meu alcance.
 Despedi-me do padre e de Akulina Pamfilovna, pedindo-lhes
 encarecidamente que velassem por aquela que j
considerava minha esposa. Tomei, ento, a mo da infeliz
moa e beijei-a, molhando-a com as minhas lgrimas.

- Boa viagem, Piotr Andreitch - despediu-se Akulina
 Pamfilovna, que me levara at a porta. - Queira Deus
que nos vejamos em dias melhores. No se esquea de ns e
escreva com freqncia. Fora o senhor, Maria Ivnovna no
tem ningum que a proteja. . .

Na praa, parei um momento, olhei para a forca, inclinei-me
 diante dela e sa da fortaleza, tomando a estrada
para Orienburg, seguido de Savilitch.

Caminhava absorto em meus pensamentos, quando
ouvi o tropel de um cavalo atrs de mim. Virei-me e vi que,
da fortaleza, vinha galopando um cossaco, arrastando pela
rdea um cavalo basquir. Como me fizesse sinais, parei e
logo pude reconhecer o nosso sargento. Alcanando-nos,
entregou-me a rdea do outro animal:

- Vossa Senhoria! O nosso pai oferece-lhe este cava




Io e uma pelia que ele usava. - Na sela estava amarrado
um capote de pele de carneiro. - E lhe manda ainda -
acrescentou, gaguejando - uma moeda. . . de meio
rublo. . . Mas eu a... perdi no caminho. . . Queira
perdoar-me. . .

Savilitch olhou-o de esguelha:

- Perdeu-a no caminho, no ? E o que  que est
tinindo em seu peito, desavergonhado?

O sargento no se deu por achado:

- Tinindo no meu peito? Que Deus lhe perdoe, meu
velho!  o metal do brido e no o meio rublo como supe.

- No h nada - intervim. - Apresente meus
agradecimentos a quem lhe mandou aqui. E procure o meio
rublo na volta. Se o encontrar, fique com ele para a vodca.

- Muito agradeo a Vossa Senhoria! - respondeu,
fazendo o cavalo voltar. - Rezarei sempre pelo senhor!

Sem mais, meteu o cavalo a galope, com o cuidado de
apertar o peito com a mo. Em pouco, desaparecia de nossa
vista.

Vesti o capote, montei e acomodei Savilitch na
garupa.

- Est vendo, senhor? No foi  toa que eu entreguei
a lista quele biltre! O ladro sentiu remorsos. . . Claro que
este pangar e o capote de pele de carneiro no valem nem
a metade do que nos roubaram. Mas sempre  melhor do
que nada.



CAPTULO 10

O CERCO DA CIDADE

C,



'hegando perto de Orienburg, vimos uma grande
quantidade de prisioneiros, com as cabeas tosadas e os rostos
 mutilados pelos ferros dos carrascos. Trabalhavam perto
das fortifcaes, sob vigilncia armada. Uns removiam o
lixo acumulado no fosso, outros abriam trincheiras. Havia
pedreiros carregando tijolos e reparando a muralha. No porto
 da cidade, as sentinelas nos mandaram parar e nos exigiram
 os passaportes. Mas, quando o sargento ouviu que
procedamos da Fortaleza de Bielogorsk, levou-me sem demora
  presena do general.

Estava no pomar, cuidando das macieiras desfolhadas
, pelo vento outonal. Ajudado por um velho jardineiro, revestia
 de palha os ramos para defend-los do frio. Tinha um
semblante sereno, saudvel e bonacho. Alegrou-se muito
com a minha chegada e crivou-me de perguntas sobre os ttricos
 acontecimentos que eu presenciara. Fiz um relato
completo. O velho me ouvia atentamente, sem deixar de
podar os galhos secos.

- Pobre Mirnov! - murmurou ao trmino do meu
depoimento. -  lastimvel! Era um correto oficial. E a
senhora dele, como era bondosa e com que perfeio salgava
 os cogumelos! E o que me diz de Macha, a filha do
capito?



Informei-lhe que ficara na fortaleza, aos cuidados da
mulher do Padre Guerssim.

- Ai, ai, ai!  mau, muito mau! No se pode confiar
na disciplina de bandoleiros!

Lembrei-lhe que a Fortaleza de Bielogorsk no ficava
muito longe e, com toda a certeza, Sua Excelncia no
demoraria a enviar uma boa tropa para libertar os seus
habitantes. O general meneou a cabea, dando mostra de
indeciso:

- Temos que pensar, temos que pensar. . .  Falaremos
 ainda sobre o assunto. E peo que venha hoje tomar
ch comigo. O conselho de guerra vai reunir-se l em casa.
Poder fornecer-nos precisas informaes sobre o vagabundo
 Pugatchev e o seu bando. Agora, v descansar um
pouco.

Fui para o alojamento que me havia reservado e j
encontrei Savilitch empenhado na nossa instalao. Impaciente,
 aguardei a hora marcada para a reunio do conselho.
O leitor facilmente poder imaginar que de forma alguma
deixaria de comparecer ao conselho, que deveria ter uma
decisiva influncia sobre o meu destino.  hora precisa, estava
 na casa do general.

L encontrei uma das autoridades da cidade - o diretor
 da Alfndega, se no me engano -, um velhote gorducho
 e vermelho, com um cafet de brocado. Perguntou-me
logo pela sorte de Ivan Kusmitch, a quem chamava de compadre,
 intercortando a todo instante o meu relato com perguntas
 suplementares e comentrios de ordem moral, que
embora no caracterizassem um conhecedor da arte militar
denunciavam ao menos certa sagacidade e inteligncia.

Enquanto conversvamos, foram chegando os demais



convidados. Quando todos se sentaram e foi servido o ch,
o general fez uma demorada e bastante precisa exposio da
situao.

- Agora, meus senhores,  urgente resolver como
devemos agir contra os insubmissos. Na ofensiva ou na
defensiva? Qualquer um dos meios tem vantagens e desvantagens.
 A ofensiva traz maiores esperanas de pronto desbaratamento
 do inimigo. A defensiva, porm,  mais garantida.
   Assim   sendo,   vamos   pr   a  deciso   em   votao.
Obedeamos  ordem hierrquica. Primeiro votam as patentes
 inferiores. Senhor tenente! - continuou, dirigindo-se a
mim. - D a sua opinio.

Levantei-me e, em sucintas palavras, tracei a personalidade
 de Pugatchev e as caractersticas do seu bando. Optei
pela ofensiva. Mas frisei que os mtodos que devamos
empregar no seriam os mesmos que se usavam contra um
exrcito regular.

A minha opinio foi recebida pelas autoridades com
patente desagrado. Viam nela apenas a irreflexo e a ousadia
 prpria da mocidade. Houve um murmrio, no meio do
qual ouvi perfeitamente a palavra "rapazote", proferida a
meia voz. O general virou-se para mim e disse com um
sorriso:

- Senhor tenente! Nos conselhos de guerra  comum
que os primeiros votos sejam favorveis s aes ofensivas.
 perfeitamente compreensvel. Mas continuemos a votao.
 Senhor conselheiro! Qual  a sua opinio?

Apressadamente o velhote de cafet de brocado acabou
de tomar a sua terceira xcara de ch, a que juntou uma boa
dose de rum, e respondeu ao general:

- Sou de opinio, Excelncia, que no devemos agir
nem na ofensiva nem na defensiva.



- No compreendo, senhor conselheiro - disse o
general, tomado de surpresa. - A ttica no dispe de outros
 meios. . . Ou atacamos ou defendemos. . .

- Vossa Excelncia se esqueceu do subomo. . .

- Eh, eh, eh! A sua opinio  da maior sensatez! A
corrupo  movimento que tem cabimento na estratgia
militar. Iremos aproveitar seu conselho. Podemos prometer
uns   setenta  rublos  pela  cabea  do  bandoleiro. . .   At
mesmo cem. . . H verbas secretas. . .

- Pois, ento! - interrompeu-o o conselheiro da
Alfndega. - Quero ser um carneiro quirguiz e no um
conselheiro, se os patifes no entregarem seu chefe atado de
ps e mos.

- Vamos  pensar um pouco  mais, depois resolveremos
 - falou o general. - Ainda h outras opinies a
serem   ouvidas.   Continuemos   obedecendo      hierarquia.
Senhores, formulem seus votos!

Os votos foram unanimemente contrrios ao meu. As
autoridades aventaram a falta de confiana na tropa, a
incerteza do sucesso, a necessidade de prudncia e outras
coisas do mesmo estilo. Todos estavam acordes em se manter
 sob a proteo dos canhes, atrs da forte muralha, e
no aventurar em campo raso uma duvidosa vitria. Ouvidas
 todas as opinies, o general sacudiu a cinza do
cachimbo e falou em torn oratrio:

- Meus senhores! Cumpre-me declarar que compartilho
 a opinio do senhor tenente. Fundamenta-se ela nas
melhores regras da ttica blica, que prefere, na maioria dos
casos, os movimentos ofensivos aos defensivos.

A o general fez uma pausa para encher o cachimbo. O
meu amor-prprio triunfava e eu olhava soberanamente
para as autoridades, que confabulavam entre si, demonslll




trando preocupao e desagrado. E, misturando um fundo
suspiro com uma baforada, o general continuou:

- Mas, meus senhores, eu no poderia arcar sozinho
com tamanha responsabilidade, quando est em jogo a segurana
 das provncias a mim confiadas por Sua Majestade,
nossa serenssima czarina. Por conseguinte, concordo com a
maioria dos votos, que decidiu ser mais sensato e mais
garantido esperar o cerco da cidade, repelindo os ataques
inimigos com a artilharia e, conforme as circunstncias, tentando
 algumas sortidas.

Tocou s autoridades olharem para mim com ar de
mofa. E o conselho foi dissolvido. No pude deixar de
lamentar a frouxido do digno general, que, em vez de
impor a sua opinio de militar, aceitava a de pessoas desconhecedoras
 do assunto.-

Passados uns poucos dias, fomos informados de que
Pugatchev, fiel  promessa feita, se aproximava de Orienburg.
 De cima da muralha divisei as tropas rebeldes. Pareceu-me
 que o seu nmero engrossara pelo menos dez vezes
desde o assalto que eu testemunhara. E vinham fortalecidas
por numerosas peas de artilharia, tomadas, certamente, s
pequenas fortalezas subjugadas. Recordei-me, ento, da
deliberao do conselho e quase chorei de tristeza, imaginando
 o demorado isolamento em que amos ficar na
fortaleza.

No pretendo narrar todo o cerco de Orienburg, que
pertence  Histria. Limito-me a dizer que, por imprevidncia
 do comando, foram seis meses de fome e terrveis
provaes. No  preciso muita imaginao para conceber
quo insuportvel tornou-se a vida em Orienburg. A populao
 esperava, sob a maior depresso, o desfecho daquela
luta, certa de que a sorte lhe seria adversa. Tudo faltava. O


povo acabou acostumando-se s granadas que caam nos
quintais. E at as constantes investidas de Pugatchev perderam
 o interesse. Eu estiolava de tdio. O tempo corria,
nenhuma carta chegava de Bielogorsk, pois todas as estradas
 estavam interceptadas. A separao de Maria Ivnovna
tornou-se intolervel, amargurado como estava eu pela
incerteza do seu destino. As sortidas constituam meu nico
passatempo. Graas a Pugatchev, possua um excelente
cavalo. Com ele dividia as minhas parcas raes, com ele
saa todos os dias da cidade para escaramuas com os
bandoleiros. Nessas escaramuas, eles, em geral, levavam a
melhor - mesmo bbados, estavam bem alimentados e tinham
 melhores animais. A combalida cavalhada da cidade
no poderia competir com a deles. s vezes, tambm a
nossa esfomeada infantaria saa a campo, mas a espessura
da neve no consentia que manobrasse com xito contra os
espalhados inimigos. Inutilmente os canhes ribombavam
sobre a muralha; na estepe, porm, se atolava e no se conseguia
 deslocar em virtude da fraqueza dos cavalos. Assim
se desenvolviam as nossas aes militares! E era a inoperosidade
 que as autoridades de Orienburg chamavam de sensata
 e garantida!

Certo dia, quando conseguimos, com muita dificuldade,
 desbaratar e pr em retirada um grupo bastante numeroso,
 ca a fundo sobre um cossaco que se atrasara dos
companheiros. J ia abat-lo com um golpe de sabre, quando,
 tirando o gorro, ele gritou:

- bom dia, Piotr Andreitch! Como vai o senhor?
Assombrado, reconheci o nosso sargento. E fui tomado

de indescritvel alegria.

- bom dia, Maximitch. Faz muito tempo que saiu de
Bielogorsk?



- H pouco, Piotr Andreitch. Ontem mesmo ainda
estava l. E at trouxe uma cartinha para o senhor.

- Onde est? - perguntei, ansioso.

- C guardadinha! - e batia no peito. - Prometi a
Palachka que daria um jeito de entreg-la ao senhor.

Entregou-me um papel dobrado e se foi a galope. Com
as mos tremendo de emoo, desdobrei o papel e li:

Por vontade de Deus vi-me privada, subitamente,
de meus pais. No tenho mais no mundo parentes ou
protetores. Recorro ao senhor, pois sei que sempre me
estimou e sempre est disposto a ajudar qualquer pessoa.
 Rogo a Deus para que esta carta chegue s suas
mos. Maximitch jurou entreg-la. Ele disse a Palachka
 que de vez em quando v o senhor nas sortidas
e que o senhor no tem o menor cuidado, parecendo
no pensar naqueles que, com lgrimas, rezam a Deus
pela sua sorte. Estive muito tempo doente. Quando fiquei
 boa, Aliexiei Ivnovitch, que substituiu meu pai
no comando da fortaleza, obrigou o Padre Guerssim
a me entregar a ele, ameaando denunci-lo a Pugatchev.
 Estou morando em nossa casa, guardada por
sentinelas. Aliexiei Ivnovitch vive forando-me a
casar com ele. Diz que me salvou a vida, encobrindo a
mentira de Akulina Pamfilovna, que dissera aos bandidos
 ser eu uma sua sobrinha. Para mim, prefiro a
morte a me casar com um homem como Aliexiei Ivnovitch.
 Ele me trata com a maior crueldade e est
sempre ameaando de me levar para o acampamento
de Pugatchev, se eu no aceder aos seus rogos. L eu
acabaria desgraada. Pedi a Aliexiei Ivnovitch que



me desse um prazo para pensar. Ele concordou em
esperar mais trs dias, mas, se eu no aceitasse o casamento,
 no teria clemncia. O senhor, Piotr Andreitch,
 a minha nica salvao. Ajude esta infeliz! Pea ao
general e aos comandantes que nos mandem socorrer
urgentemente. E venha o senhor tambm, se for
possvel.

Sua humilde amiga e desamparada rf

MARIA MIRNOV.

Ao ler a carta, quase fiquei louco. Galopei para a cidade,
 esporeando sem trguas meu cavalo. E, pelo trajeto, ia
desordenadamente concebendo mil modos de salv-la, mas
claro  que nenhum era eficiente. Transpondo o porto da
cidade, fui diretamente para a casa do comandante, onde entrei
 precipitadamente.

O general estava andando na sala, de um lado para
outro, fumando o seu cachimbo. Ao me ver, estacou. Espantado
 com o meu transfigurado aspecto, quis logo saber a
razo da minha inopinada visita.

- Excelncia, corro ao senhor como se fosse a meu
pai! Pelo amor de Deus, atenda ao pedido que lhe you

, fazer! Est em jogo a felicidade da minha vida!
l - Mas o que se passa, meu caro? Que posso fazer?

Diga!

- Excelncia, eu imploro que me d o comando de
uma companhia de soldados e meia centena de cossacos.
Prometo tomar a Fortaleza de Bielogorsk!

O general encarou-me severamente, julgando, naturalmente,
 que eu ficara maluco, coisa que no estava muito
longe de ser verdade. . .



- No compreendo! Tomar a Fortaleza de Bielogorsk?


- Posso jurar que sim, general - respondi ardentemente.
 - Basta o senhor me dar a tropa que peo.

- No  possvel, meu jovem amigo - e ele balanou
 negativamente a cabea. -  considervel a distncia
que nos separa de Bielogorsk. Seria fcil ao inimigo cortar
as comunicaes e aniquilar a sua tropa! Com as comunicaes
 cortadas. . .

Achei ridculo que ele, naquele momento, se preocupasse
 com teorias estratgicas, e interrompi-o desaforadamente:


- A filha do Capito Mirnov conseguiu remeter-me
uma carta. Pede socorro! Chvabrin quer obrig-la a se
casar com ele!

- Que me diz? Esse Chvabrin  um patife de marca
maior! Quando cair nas minhas unhas, ser julgado sumariamente
 e fuzilado na muralha da fortaleza! Mas, por
enquanto, devemos ter pacincia. . .

- Que pacincia?! - gritei, exaltado. - Enquanto
isso ele se casar com Maria Ivnovna!

- Oh! eis uma coisa que no tem grande importncia
 !  at melhor para ela que se case com Chvabrin. Ter
a proteo do celerado. Depois de fuzilado, Deus nos oua,
haveremos de encontrar um marido decente para ela. As
viuvinhas  encontram  marido  mais  depressa do  que as
solteiras. . .

- Prefiro   morrer   a   entreg-la   a. Chvabrin!   -
enfureci-me.

- Ah, meu caro! Estou compreendendo tudo. O senhor
 est apaixonado por Maria Ivnovna. Bem, assim o
caso muda de figura! Pobre rapaz! Mas mesmo assim no



lhe posso ceder a tropa que me pede. Tal expedio no tem
cabimento ! No poderia nunca assumir to grande responsabilidade
 !

Abaixei a cabea, sentindo-me desamparado. A angstia
 me tomava dolorosamente o peito. Mas, de repente, tive
uma idia genial. Qual seja ela, o leitor ver no captulo
seguinte, como costumavam dizer os romancistas antigos.



CAPTULO 11
A ALDEIA AMOTINADA

D,

'espedi-me do general e corri para casa. Savilitch
 me brindou com as suas costumeiras advertncias:

- Que mania tem o senhor de andar lutando contra
ladres embriagados! No  prprio de nobres! A todo
momento est correndo o risco de morrer! Se ao menos
fosse contra turcos ou suecos, no dizia nada. Mas contra
esta canalha!. . .

Cortei a lengalenga com uma pergunta:

- Quanto dinheiro ainda tenho?

- O bastante para as necessidades do senhor - respondeu,
 muito contente. - Os patifes no puseram a mo
nele. Dei um jeito de escond-lo. . .

E, realmente, sacou das entranhas do cafet uma comprida
 bolsa de tric, gorda de moedas de prata.

- timo, Savilitch! Passe-me para c a metade e
guarde o resto. you  Fortaleza de Bielogorsk.

- Meu patrozinho Piotr Andreitch! - disse o bondoso
 servo com a voz tremida. - Como pode empreender
tal viagem, quando os bandidos dominam todas as estradas?
 Pense nos seus pais, se no quer pensar no senhor! Por
que ir l? Tenha um pouco de pacincia. No tardar que
cheguem tropas de reforo e desanquem os bandoleiros.
Ento, sim, poder ir aonde quiser.

Minha resoluo, porm, era inabalvel:



- Perde seu tempo com tais argumentos. Eu preciso
ir e no deixarei de ir. No fique triste, Savilitch. Deus 
grande e ns ainda nos veremos. Mas olhe uma coisa: no
fique com somiticarias. Compre tudo o que for preciso,
mesmo trs vezes mais caro! O resto do dinheiro ser um
presente meu, se no voltar depois de trs dias. . .

- Que  est  dizendo,  senhor?  -  interrompeu-me
Savilitch. - Pensa que eu you deix-lo ir sozinho? Nem
em sonho me pea tal coisa! Se est decidido a partir, eu irei
atrs nem que seja a p. Que ficaria fazendo aqui? Pode
fazer o que lhe der na cabea, mas eu no abandonarei o
senhor!

No ignorava que era absolutamente intil discutir
com Savilitch, e deixei que ele comeasse os seus preparativos
 para a viagem. Foi rpido e, meia hora depois, montei
no meu magnfico cavalo, enquanto Savilitch se encarapitava
 num matungo, esqueltico e manco, que lhe fora dado
por um vizinho por no ter condies de aliment-lo. No
porto da cidade, as sentinelas no nos puseram obstculos,
e marchamos para Bielogorsk.

Comeava a ficar escuro. A estrada que tomamos passava
 pela aldeia de Berdsk, onde Pugatchev se abrigava. Estava
 ela coberta pela neve, mas por toda a extenso da estepe
 encontravam-se pegadas de cavalos, diariamente
renovadas. Ia a trote e Savilitch, que no podia acompanhar
 a andadura, a todo minuto gritava de longe:

- Mais devagar, patrozinho! Pelo amor de Deus, v
mais devagar! Meu desgraado animal no pode emparelhar
 com o do senhor! Por que tanta pressa? No vamos a
nenhuma festa, caramba! Vamos  a caminho de um tiro!
Cuidado, patrozinho!  No se precipite! Santo Deus, a
cada momento estou vendo morto o filho do meu amo!



No demorou que vssemos brilhar as luzes de Berdsk.
Chegamos  ravina, que era a defesa natural da povoao, e
Savilitch no se afastou de mim, num ininterrupto chorriIho
 de lamentaes. Eu pretendia rodear a aldeia, mantendo
uma cautelosa distncia que me livrasse de complicaes.
Mas, de repente, divisei na escurido, bem  minha frente,
uns cinco mujiques armados de paus: era uma guarda avanada
 de Pugatchev. Intimaram que parssemos. Ignorando a
senha, arrisquei passar por eles calado. Mas fomos cercados
e um deles segurou o meu cavalo pela rdea. Desembainhei
o sabre e descarreguei-o na cabea do mujique. Foi salvo
pelo gorro, mas cambaleou e largou a rdea. Os outros,
perturbados, recuaram. Aproveitei a confuso, esporeei o
cavalo e sa a galope.

As trevas da noite que tombava favoreciam a minha
escapada. Mas, olhando para trs, vi que Savilitch no me
seguia. O pobre velho, com o cavalo que tinha, no se podia
livrar dos bandidos. Que fazer? Esperei uns minutos e,
convencendo-me de que ele fora apanhado, voltei para
socorr-lo.

Chegando perto da ravina, ouvi rudos, gritos e a voz
de Savilitch. Esporeei o cavalo e em pouco me encontrei
entre os homens que me haviam detido momentos antes. Tinham
 desmontado Savilitch e estavam amarrando-o. 
minha chegada pularam de alegria. Aos gritos atiraram-se
contra mim e me arrancaram o cavalo. E aquele que parecia
ser o chefe disse que nos ia levar imediatamente  presena
do czar:

-  o nosso pai. Ele  o que ir resolver se enforcaremos
 vocs agora ou quando o sol nascer.

Era intil qualquer resistncia, e l fomos levados em
triunfo pelos mujiques. Transpusemos a ravina e entramos



na aldeia. Havia luz em todas as esp, barulho e gritaria
por toda parte. As ruas estavam cheias de gente, mas, graas
  escurido, meu uniforme de oficial passou despercebido.
 Conduziram-nos para uma isb levantada numa
encruzilhada, em cuja porta havia dois canhes e dois barris
de vinho.

- O palcio  aqui - falou um dos homens. - you
comunicar que os prendemos.

E entrou. Olhei para Savilitch. Ele fez o sinal-da-cruz
e comeou a rezar baixinho. A demora foi grande, mas, por
fim, o mujique voltou e me disse:

- Nosso pai quer falar com o oficial.

Penetrei na isb, ou no palcio, como o chamavam os
mujiques. Estava iluminada por duas velas de sebo e inteiramente
 forrada de papel dourado. Mas os bancos, a mesa, o
lavatrio pendurado por uma corda, a toalha num prego, o
fogo com muitos potes em cima, tudo, enfim, no destoava
duma isb qualquer. Pugatchev estava sentado sob os cones.
 Vestia um cafet vermelho, na cabea um gorro cossaco.
 Tinha as mos nos quadris e exibia uma atitude importante.
 Ao seu lado, com um fingido ar de dependncia,
estavam alguns dos seus principais camaradas. Fazia-se
notrio que a notcia da priso de um oficial despertara
intensa curiosidade entre os bandoleiros, que se preparavam
para receb-lo solenemente.

Pugatchev logo me reconheceu e, como num passe de
mgica, a sua soberana pose desapareceu:

- Ora,  Vossa Senhoria? - perguntou com vivacidade.
 - Como passa? A que devemos a honra da sua
visita?

Respondi que viajava por assuntos particulares e que
os seus homens me haviam interceptado.



4

- Que   assuntos   particulares   so   esses,   poderia
dizer-me?

Fiquei sem saber como responder. Pensando que eu
no me queria externar diante de estranhos, ordenou aos
camaradas que sassem. Todos abandonaram a sala, menos
dois, que ficaram impassveis.

- No tenha receio de falar na frente deles - explicou
 o impostor. - So de absoluta confiana. Nada lhes
escondo.

Olhei de esguelha para os seus confidentes. Um era
velho e desgastado. Corcovava, tinha a barba rala e branca
e no demonstrava nada de especial, fora uma fita azul passada
 a tiracolo sobre o capote. Mas se tiver mil anos no
esquecerei o outro. Era alto, gordo, espadado, parecia ter
uns quarenta e cinco anos. A densa barba ruiva, os olhos
cinzentos e rutilantes, o nariz mutilado e as avermelhadas
manchas de bexiga que lhe salpicavam a testa e as faces
emprestavam ao seu rosto uma expresso inexplicvel. Vestia
 uma camisa vermelha, um casaco quirguiz e a cala de
cossaco. O velho, fiquei sabendo depois, era o Cabo Bielobordov,
 desertor do Exrcito imperial, e o outro, chamado
Afansi Sokolov, porm mais conhecido pelo apelido de
Palmada, era um criminoso que por trs vezes conseguira
fugir das minas da Sibria.

A impresso causada por aqueles dois homens, diante
dos quais eu fora inesperadamente parar, era to viva que,
por um momento, varreu do meu crebro todas as preocupaes.
 Pugatchev, porm, me trouxe de volta  realidade,
perguntando-me:

- Gostaria de saber por que motivo deixou Orienburg!


Um singular pensamento me acudiu: se a fatalidade me



l

punha pela segunda vez diante de Pugatchev,  que me estava
 oferecendo a oportunidade de realizar o meu intento.
No quis que ela me escapasse e, sem refletir no que verdadeiramente
 poderia resultar a minha temeridade, respondi:

- Porque quero ir a Bielogorsk libertar uma rf, que
l est sendo maltratada.

Os olhos de Pugatchev soltaram fascas:

- Que me diz? Qual dos meus homens se atreveu a
maltratar uma rf? Seja quem for, no escapar  punio
 ! Diga! Quem ?

- Chvabrin. Ele mantm presa aquela moa que viu
doente em casa do Padre Guerssim, lembra-se? Quer obrig-la
 a se casar com ele.

- Pois ir receber uma boa lio! - disse Pugatchev,
 muito srio. - Para aprender que sou inflexvel com
quem  indisciplinado e maltrata o povo. No escapar da
forca!

- Uma palavra! - disse Palmada com voz rouca.
- Voc se apressou em nomear Chvabrin comandante da
fortaleza, como se apressa agora em mandar enforc-lo. J
alarmou os cossacos, dando-lhes um chefe que  nobre. No
alarme agora os nobres, enforcando um deles  primeira
denncia. . .

- No vejo razo para poupar os nobres! - acrescentou
 o velho da fita azul. - Enforcar Chvabrin  coisa
que no  tem nenhuma importncia. Mas  seria tambm
conveniente interrogar minuciosamente o oficial. Por que
fez a queixa? Se ele no o reconhece como czar, no tem o
direito de pedir a sua justia. Se o reconhece, por que at
agora estava metido em Orienburg com os nossos inimigos?
No acha que seria bom lev-lo para a isb de interrogatrios
 e acender l um foguinho? Tenho c minhas suspeitas



de que Vossa Senhoria foi mandado pelo comandante de
Orienburg.

A lgica do velho me pareceu muito forte. E fiquei frio
ao pensar em que unhas fora parar. Pugatchev percebeu a
minha perturbao.

- Vossa Senhoria est vendo? - e piscou-me o olho.
- Meu marechal-de-campo no  de meias medidas. Que
me diz?

O bom humor de Pugatchev restabeleceu-me o equilbrio.
 E serenamente respondi que, achando-me em seu
poder, ele poderia fazer comigo o que lhe desse na telha.

- Exatamente! - concordou Pugatchev. - Mas
Vossa Senhoria me precisa contar em que condies est a
cidade.

- Graas a Deus tudo est normal.

- Normal?! Como est normal se o povo morre de
fome?

Era a pura verdade. Mas, fiel ao meu juramento, procurei
 convenc-lo de que aquela histria de fome no passava
de boato e que, em Orienburg, havia provises de sobra.

- Est vendo s? - rosnou o velho. - Ele est
mentindo com o maior descaramento! Todos os fugitivos
so unnimes em dizer que a fome campeia em Orienburg, e
que j do graas a Deus quando encontram uma carnia.
No entanto Vossa Senhoria afirma que l no falta nada. Se
quer enforcar Chvabrin, no me oponho. Mas faa o mesmo
com este rapaz. Seria uma dupla limpeza!

As consideraes do infernal velhinho, segundo me
pareceu, fizeram Pugatchev vacilar. Venturosamente, Palmada
 comeou a se opor ao camarada:

- Chega de matana, Naumitch! Com mil diabos,
voc s pensa em enforcar e apunhalar! Grande heri me



saiu! No sei que raio de coisa tem na cabea! Est com o
p na cova, mas no pensa seno em desgraar os outros.
Ser que no tem nada na conscincia?

- Santo do pau oco! - retrucou Bielobordov. -
Onde foi arranjar tanta bondade?

- Claro que tambm sou um pecador - respondeu
Palmada. - Este brao - e fechou a grossa mo, arregaou
 a manga e mostrou o cabeludo antebrao - j derramou
 muito sangue cristo. Mas s matei inimigos. Jamais
toquei num hspede. E o fiz com minhas armas e no com
intrigas de mulher!

O velho virou a cara e rosnou o insulto:

- Nariz cortado!

- Que  que rosnou a, velho miservel? - gritou
Palmada. - Eu vou-lhe mostrar o que  nariz cortado! Seu
dia chegar, cachorro velho! Deus no ir permitir que escape
  torqus do carrasco. . . Enquanto no chega o dia,
ande com jeito para que eu no lhe arranque a barbicha!

- Senhores generais! - gritou Pugatchev em torn
solene, mas conciliador. - Vamos parar com esta briga! Se
todos os ces de Orienburg esperneassem na forca no seria
nada. Mas que os nossos se estraalhem entre si  pssimo!
Acabem com o bate-boca. Faam as pazes!

Bielobordov e Palmada no prosseguiram na discusso,
 mas entreolhavam-se de cara fechada. Senti a premente
necessidade de dar outro rumo  conversa, que poderia ter
um fim muito desagradvel para mim, e, endereando-me a
Pugatchev, disse em torn alegre:

- Ah, esqueci-me de agradecer-lhe o excelente cavalo
e o capote. Sem a sua delicadeza fatalmente no teria chegado
 a Orienburg. Teria morrido de frio no caminho. . .

-n    O ardil deu certo. O semblante de Pugatchev se abriu:



- Recebe-se com uma mo, d-se com a outra! - e
piscou os olhos. - Mas me conte o que tem com a moa
que Chvabrin mantm presa. No estar apaixonado?

- Ela  minha noiva - confessei, percebendo que o
ambiente mudara favoravelmente e no achando preciso
esconder a verdade.

- Sua noiva? Por que no me disse logo? Pois vamos
cas-los e comemorar condignamente o casrio! - E,
virando-se para Bielobordov: - Olhe, meu marechal,
Vossa Senhoria e eu somos velhos amigos. Sentemo-nos e
jantemos. A noite  boa conselheira. Amanh tomaremos
uma deciso a respeito dele.

Tinha vontade de recusar o convite, mas era impraticvel.
 Duas jovens cossacas, filhas do dono da isb, forraram
 a mesa com uma toalha branca. Trouxeram po, sopa
de peixe, vinho e cerveja. E novamente me encontrei  mesa
com Pugatchev e seus sinistros sequazes.

O festim, do qual fui involuntria testemunha, se arrastou
 at altas horas da noite. Mas, afinal, o lcool fez o seu
efeito. Pugatchev caiu no sono na cadeira mesmo. Os dois
outros participantes se levantaram e me fizeram sinal para
que o deixasse dormir. Sa com eles. Palmada mandou que
uma sentinela me conduzisse  isb que servia de priso. L
encontrei Savilitch, e com ele fiquei trancado a chave.

O meu dedicado servo estava to espantado com a
marcha dos acontecimentos que nem fez perguntas. Acomodou-se
 num canto, e por algum tempo suspirou e gemeu. Por
fim, comeou a roncar. Ento, afundei-me num mar de
pensamentos e passei toda a noite em claro.

De manha, Pugatchev mandou chamar-me. Diante da



porta da sua isb estava uma trica9 e trtaros eram seus
trs cavalos. O povo se acotovelava na rua. Encontrei
Pugatchev no vestbulo com roupa de viagem, pelia e gorro
quirguiz. Os dois camaradas da vspera o ladeavam, mas
mostravam uma atitude submissa muito diferente da que tinham
 na noite anterior. Pugatchev me cumprimentou com
grande cordialidade e me mandou sentar ao seu lado na
trica.

- Toque para a Fortaleza de Bielogorsk! - ordenou
ao espadado trtaro que, de p, conduzia o veculo.

Meu corao ps-se a bater com violncia. Os cavalos
arrancaram, os guizos tilintaram e a trica parecia ter asas.
Foi quando ouvi a voz que me era to familiar:

- Pra! Pra!

Savilitch vinha correndo atrs de ns. Pugatchev deu
ordem de parar. O velho servo implorou:

- Patrozinho Piotr Andreitch! No me abandone
depois de velho no meio destes bandi. . .

- Ah, velho safado! - exclamou o impostor. -
Mais uma vez Deus nos faz encontrar! Vamos, ajeite-se a
na frente.

- Obrigado, senhor! Obrigado, meu pai! - e Savilitch,
 rpido, se acomodou. - Que Deus lhe d cem anos de
vida! Rezarei pelo senhor o resto da minha existncia e
nunca mais falarei no capote de pele de lebre.

Aquele capote de pele de lebre acabaria agastando
seriamente Pugatchev, mas, felizmente, ele no ouviu, ou

 f ^Grande tren puxado por trs cavalos emparelhados, usado na Rssia.

 (N. do E.)



desdenhosamente fingiu que no ouviu a inoportuna meno.
 Os cavalos recomearam a galopar.  passagem da
trica, o povo parava e curvava-se em profunda reverncia.
Com um movimento de cabea, Pugatchev agradecia, ora
para um lado, ora para o outro. Depressa deixamos a aldeia
e desabalamos pela estrada plana.

 fcil calcular a emoo que eu experimentava. Dentro
 de poucas horas iria ver aquela que j considerava perdida.
 Encenei, mentalmente, o momento do encontro. . . Pensei
 tambm no homem em cujas mos repousava o meu
destino e que, por singulares e misteriosas circunstncias, se
ligara tanto a mim. Recapitulei os seus atos monstruosos, os
seus hbitos sanguinrios. E dizer-se que era tal criminoso
que espontaneamente se encarregava de libertar a minha
amada!. . . Ele, porm, no sabia que Macha era filha do
Capito Mirnov. . . Talvez Chvabrin, ameaado, revelasse
a verdade. . . Ou mesmo, por outra maneira, poderia descobrir
 tudo. . . Que seria, ento, de Maria Ivnovna? Um frime
 percorreu-me a espinha e meus cabelos se arrepiaram.

De repente, Pugatchev arrancou-me dos meus sobressaltados
 pensamentos:

- Por que Vossa Senhoria est to pensativo?

- Como no poderia estar? Sou oficial e nobre.
Ainda ontem lutava contra o senhor, hoje estou aqui ao seu
lado e toda a minha felicidade depende do seu poder!

- Mas, por acaso, est com medo?

Respondi que, tendo sido j uma vez perdoado por ele,
tinha confiana no s na sua clemncia como na sua ajuda.

- Tem razo! Deus  testemunha de que tem razo!
Viu como os meus companheiros olhavam Vossa Senhoria
com maus olhos. Ainda hoje o velho Bielobordov teimava



que era um espio e que deveria ser torturado e enforcado.
Eu, porm, repeli a idia - e abaixou a voz para que Savilitch
 e o cocheiro no ouvissem - porque no me esqueci
daquele copo de vinho e daquele capote de pele de lebre.
Est vendo que no sou to cruel como apregoa a sua
gente. ..

Acudiu-me a tomada de Bielogorsk, mas achei prudente
 silenciar sobre ela, e fiquei calado. Houve uma breve
pausa e ele voltou:

- Que dizem de mim em Orienburg?

- Dizem que  difcil venc-lo. Seu nome impe
respeito.

O rosto de Pugatchev era todo vaidade:

-  a verdade nua e crua! Estou empregando uma ttica
 invencvel! Que dizem l da batalha de luseieva? Morreram
 quarenta generais, quatro exrcitos imperiais foram
aprisionados. . . Acha que o rei da Prssia seria capaz de
igual faanha?

A jactncia do impostor me pareceu engraada e quis
que ela se prolongasse:

- E que acha de si mesmo? Poderia derrotar o grande
 Frederico?

- Como no? Tenho derrotado todos os generais de
vocs e, no entanto, eles venceram Frederico. . . At agora
no perdi uma batalha sequer!  dar tempo ao tempo e eu
marcharei sobre Moscou.

- Quer mesmo marchar sobre Moscou?

Por um momento, Pugatchev pareceu meditar. Depois
disse em voz baixa:

- Deus  quem sabe. Tenho as minhas dificuldades e
meu  poder   limitado.  Meus companheiros querem  ser



espertos demais. . . So todos uns ladres. . . Tenho que
andar com muita cautela. Ao primeiro insucesso, no trepidaro
 em entregar a minha cabea para salvar a deles. . .

- Sem tirar nem pr! No seria melhor deixar que se
arranjassem e rogar clemncia  imperatriz?

Pugatchev sorriu com amargura:

- No. J  muito tarde para me arrepender. Nunca
que obteria clemncia! Tenho que prosseguir na empreitada
que iniciei. Quem sabe? Talvez d certo. O impostor Grichka
 Otriopiev no reinou em Moscou?

- Mas ignora como terminou? Foi jogado da janela,
apunhalado, queimaram seu corpo, pegaram nas cinzas e
com elas carregaram um canho... E atiraram!

- Preste ateno. you contar uma histria que ouvi
de uma velha calmuca, quando era menino. Um dia, a guia
perguntou ao corvo por que ele vivia trezentos anos e ela
apenas trinta e trs. O corvo respondeu que era por uma
razo muito simples: enquanto ela bebia sangue fresco, ele
se alimentava de carnia. A guia refletiu bem e resolveu
experimentar tal espcie de alimentao. Voaram juntos,
ficaram voltejando at que viram um cavalo morto. Desceram
 e o corvo comeou a bicar a carnia, e a cada bicada
elogiava a carne podre. A guia se decidiu, deu uma bicada,
outra, bateu as asas e disse: "No, compadre corvo! Em vez
de comer carne podre trezentos anos, prefiro deliciar-me
com sangue vivo uma vez s e, depois, seja o que Deus quiser
 !" No  uma boa histria?

-  curiosa. Mas acho que viver de assassinatos e
roubos  o mesmo que comer carnia.

Pugatchev me olhou espantado, mas nada respondeu.
Por um bom espao de tempo, viajamos em silncio, cada



um entregue aos seus pensamentos. s voltas tantas, o
cocheiro trtaro comeou a entoar uma cano cheia de
tristeza. Savilitch cochilava, e a trica ia comendo a plana
e branca estrada de inverno. De repente, divisei uma aldeia
 ngreme margem do no laizk, com a sua paliada e a sua
igrejinha, e quinze minutos depois entrvamos na Fortaleza
de Bielogorsk.



CAPTULO 12
A RF

A

trica foi diretamente  casa do comandante. O
povo, reconhecendo os guizos, corria atrs dela e cercou-a
quando parou. Chvabrin foi receber o impostor na porta. O
traidor vestia-se como cossaco e deixara a barba crescer.
Ajudou Pugatchev a descer, desdobrando-se em atenes
servis. Ao dar comigo, ficou perturbado, mas logo se dominou
 e me estendeu a mo:

- Viva! J  um dos nossos? Devia ter-se passado h
mais tempo!

Virei4he o rosto, sem dar resposta.

Senti uma dor no corao, quando entrei na sala que
to familiarmente freqentara. Na parede ainda se achava
pendurado o diploma de oficial como um triste epitfio do
tempo passado. Pugatchev foi sentar-se no mesmo diva em
que Ivan Kusmitch tirava a sua sesta, ninado pelos muxoxos
da esposa. Chvabrin fez questo de pessoalmente lhe servir
vodca. Pugatchev escorropichou um clice e disse, apontando
 para mim:

- Oferea tambm a Sua Senhoria!

Chvabrin acercou-se com a bandeja, mas novamente
virei-lhe o rosto. Ele estava inteiramente perturbado. Com
sua nata esperteza, j percebera que Pugatchev no estava
satisfeito com ele. A presena do impostor amedrontava-o e
ele me olhava com suspeio.



Pugatchev fez-lhe vrias perguntas sobre a fortaleza,
sobre os boatos que corriam concernentes  aproximao de
foras inimigas e sobre outras coisas do mesmo gnero. De
repente,  queima-roupa, perguntou:

- Diga-me c, meu caro, que moa  essa que mantm
 presa? Eu quero v-la.

Chvabrin ficou mais plido do que um cadver e,
gaguejando, respondeu:

- Senhor. . .   Senhor, ela no est presa. . .   Est
enferma. . . Acamada em seu quarto. . .

- Quero ir l! - disse o impostor, levantando-se.
No havia meios de impedi-lo, e Chvabrin conduziu

Pugatchev ao quarto de Maria Ivnovna. Eu fui atrs deles.
Na escada o traidor estacou:

- Senhor! A sua autoridade  inconteste. Obedeolhe
 cegamente! Mas no gostaria que um estranho entrasse
no quarto de minha esposa. . .

Eu tremi e perguntei a Chvabrin, pronto para
esmurr-lo:

- Ento se casou?

- Calma! - interveio Pugatchev. - A histria 
comigo! - E, virando-se para Chvabrin: - No me venha
com patranhas e falsos pudores! Se ela  sua esposa ou no,
pouco se me d. Levo ao quarto dela quem eu bem entender.
Vossa Senhoria queira acompanhar-me.

Na porta do quarto, Chvabrin estacou outra vez e disse
com voz tremida:

- Senhor, quero preveni-lo que ela est com febre
muito alta. H trs dias seguidos que delira.

Pugatchev impacientou-se: '(

- Abra logo a porta! ^
Chvabrin comeou a vasculhar os bolsos, acabando



por dizer que no trouxera a chave. Pugatchev deu um violento
 pontap na porta, que cedeu, e ns entramos.

Olhei e nem podia acreditar no que via. Com uma
roupa de camponesa em frangalhos, Maria Ivnovna estava
sentada no cho, lvida, esqueltica, os cabelos desgrenhados.
 Ao seu lado havia um jarro de gua com a boca tapada
por um pedao de po. Ao me ver, ela estremeceu e deu um
grito. O abalo que senti ento  impossvel descrever.

Pugatchev olhou para Chvabrin e amargamente sorriu:

- Voc tem uma bela enfermaria! - E, aproximando-se
 de Maria Ivnovna: - Diga-me, minha amiga, por
que motivo o seu marido castigou-a assim? Por acaso praticou
 alguma falta grave?

- Ele no  meu marido! - protestou ela. - No ,
e jamais serei sua esposa! Prefiro morrer, e certamente morrerei
 se no me libertarem!

Pugatchev cravou um olhar terrvel em Chvabrin:

- E voc teve a ousadia de me enganar! Sabe o que
merece, canalha?

Chvabrin caiu ajoelhado aos ps do impostor. Todos
os meus sentimentos de dio foram sufocados pelo desprezo
que senti. Fiquei olhando com repugnncia aquele nobre
que chafurdava aos ps de um criminoso fugido da cadeia.
Pugatchev abrandou-se:

- Por esta vez est perdoado. Mas fique sabendo que,
 primeira patifaria que me fizer, eu no me esquecerei desta
tambm. - E, dirigindo-se a Maria Ivnovna, disse-lhe com
toda a ternura: - Pode sair daqui, minha bela amiga.
Concedo-lhe a liberdade. Eu sou o czar!

Maria Ivnovna levantou os olhos para ele e compreendeu
 que ali estava o assassino de seus pais. Escondeu o



rosto entre as mos e tombou desmaiada. Corri para ela.
Mas, no exato momento, a minha velha conhecida Palachka,
 sem medir conseqncias, invadiu o quarto e comeou a
cuidar da sua patroazinha. Pugatchev saiu do quarto e foi
para a sala de visitas. Eu e Chvabrin o acompanhamos.

- Vossa Senhoria viu? - riu Pugatchev. - Libertamos
 a moa! No acha que  hora de chamar o padre e o
obrigarmos a casar a sobrinha? Eu serei o padrinho, Chvabrin
 servir de testemunha. . .   Daremos uma festa de
arromba!

Aquilo que eu tanto temera aconteceu. Ouvindo a proposta
 de Pugatchev, Chvabrin viu que poderia vingar-se:

- Senhor!   -   gritou.   -   Eu   sou  culpado,  pois
preguei-lhe uma mentira! Mas Griniov tambm o iludiu! A
moa no  sobrinha do Padre Guerssim coisa nenhuma!
 filha do Capito Mirnov, que foi enforcado quando
tomamos a fortaleza!

Pugatchev cravou em mim um olhar de fogo:

- No estou compreendendo!

- Chvabrin falou a verdade - disse eu firmemente.

- Mas no foi o que me contou - tornou Pugatchev,
amarrando a cara.

Tive uma verdadeira inspirao:

- No foi. Mas como poderia dizer na frente dos seus
homens que a filha de Mirnov estava viva? Eles a matariam
 ! Ningum poderia salv-la!

- L isso  verdade - riu Pugatchev. - Os meus
paus-d'gua liquidariam a moa. A mulher do padre fez
muito bem em engan-los.

- Olhe aqui - disse eu, aproveitando a boa mar de
Pugatchev. - Francamente no sei quem . No sei, nem
me interessa. Mas Deus sabe que daria gostosamente a



minha prpria vida para pagar tudo quanto fez por mim.
Peo, porm, que no exija aquilo que a minha honra e
a minha conscincia repelem.  meu protetor. J que comeou,
 acabe, deixando-me levar a infeliz rf para onde Deus
achar conveniente. E, esteja onde estiver, acontea o que lhe
acontecer, ns rezaremos fervorosamente pela salvao da
sua alma pecadora!

Minhas palavras tocaram  corao de Pugatchev:

- Pois vai ser exatamente como quer. Grande na
punio, grande no perdo,  como tenho procedido. Leve a
sua amada para onde quiser, e que Deus lhes d muito amor
e discernimento!

E, virando-se para Chvabrin, deu-lhe ordem para preparar
 um salvo-conduto vlido para todas as fortalezas ocupadas
 pelas foras rebeldes. O traidor, j inteiramente arrasado,
 no abriu a boca. E Pugatchev saiu para inspecionar a
fortaleza. Chvabrin o acompanhou, mas eu fiquei, alegando
precisar preparar a viagem.

Corri para o quarto de Maria Ivnovna. Encontrei a
porta fechada. Bati.

- Quem ? - perguntou Palachka.

Disse o meu nome. E ouvi a meiga voz de Maria Ivnovna,
 do outro lado da porta:

- Espere um pouco, Piotr Andreitch. Estou-me vestindo.
 V para a casa de Akulina Pamfilovna. Dentro de
poucos minutos estarei l.

Rumei para a casa do Padre Guerssim. Ele e a mulher
correram ao meu encontro. Savilitch j lhes anunciara a
minha chegada.

- bom dia, Piotr Andreitch! - exclamou Akulina
Pamfilovna. - Deus Todo-Poderoso determinou que nos
vssemos outra vez. Como passa? No havia dia que no



nos lembrssemos do senhor! Como Maria Ivnovna sofreu
com a sua partida! Conte-nos como conseguiu entender-se
to amistosamente com Pugatchev. Como pde escapar 
sanha daquele bandido? Pelo menos por isso, temos de ser
gratos ao impostor!

- Pare de tagarelar, velha! - interrompeu-a o Padre
Guerssim. - Guarde um pouco para depois... A tagarelice
 no  uma virtude. Mas faa o favor de entrar, Piotr
Andreitch! H quanto tempo no nos vemos!

Akulina Pamfilovna ofereceu-me tudo quanto tinha em
casa, sem parar um segundo de falar. Fiquei sabendo como
Chvabrin os obrigara a entregar Maria Ivnovna, como a
moa chorara por no querer deix-los, como fora mantido
um contato entre eles, graas a Palachka, rapariga esperta,
que conseguira enrolar o sargento, como incutira em Maria
Ivnovna a idia de me escrever, e vrias coisas mais. Por
meu turno, relatei em poucas palavras a minha histria. E,
quando contei que Pugatchev sabia da mentira que haviam
pregado, o casal persignou-se.

- Que Deus nos ampare e afaste esta nuvem de ns
- disse Akulina Pamfilovna. - Mas que nojenta pessoa 
Aliexiei Ivnovitch! Nunca vi igual!

E eis que a porta se abre e aparece Maria Ivnovna, plida
 e risonha. Vestia-se como outrora, toda simplicidade e
bom gosto.

Peguei-lhe nas mos, mas, por algum tempo, no consegui
 dizer uma palavra sequer. Ficamos calados, emocionados.
 Os donos da casa sentiram que desejaramos ficar
sozinhos e saram. Ento, no nos fartamos de conversar.
Ela me relatou pormenorizadamente tudo o que lhe acontecer
 depois que a fortaleza caiu em poder dos rebeldes, o
medo que se apossara dela, as humilhaes a que o asque




roso Chvabrin a submetera. Relembramos os felizes dias
passados e, ao faz-lo, no pudemos conter as lgrimas. Por
fim, fiz uma exposio dos meus projetos. Permanecer na
fortaleza, dominada por Pugatchev e comandada por Chvabrin,
 era impraticvel. Em Orienburg, sitiada e sofrendo
toda sorte de privaes, nem se podia pensar. E, como
Macha no tivesse nenhum parente vivo, propus que ela se
abrigasse na aldeia de meus pais. No primeiro momento,
hesitou, temerosa da m vontade que meu pai tinha para
com ela. Mas consegui convenc-la a ir. Sabia que papai
consideraria uma felicidade e uma obrigao abrigar a filha
de um brioso militar, que morrera no cumprimento do
dever.

- Querida Maria Ivnovna! - terminei. - Considero-a
 minha esposa. Estranhos acontecimentos nos ligaram
indissoluvelmente e nada no mundo ter a fora de nos
separar.

Ela me ouviu com singeleza, sem fingido acanhamento,
sem inventar obstculos. Sentia que sua vida estava unida 
minha. Mas obstinou-se em reafirmar que s seria minha
esposa com o consentimento de meus pais. No a contrariei.
Beijamo-nos ardentemente, como se selssemos um juramento,
 e assim tudo ficou resolvido entre ns.

Uma hora depois, o sargento veio entregar-me o salvoconduto,
 que trazia a garranchosa assinatura de Pugatchev,
e me informou que ele queria ver-me. L fui e encontrei-o
aprontando-se para voltar. No posso explicar o que senti
no momento em que me iria separar daquele homem que
para todos era um monstruoso e nefando bandoleiro, mas,
para mim, no. Por que esconder a verdade? Naquele minuto,
 uma imensa piedade me prendia a ele. Ardentemente
desejava arranc-lo dos facnoras que chefiava e salvar-lhe a



vida enquanto era tempo. Mas Chvabrin e o povaru que
nos rodeava no permitiram que eu lhe dissesse tudo o que
trazia no corao.

Despedimo-nos cordialmente. Pugatchev bispou Akulina
 Pamflovna no meio do povo e ameaou-a com o dedo e
piscou-lhe o olho maliciosamente. Acomodou-se na trica e
ordenou ao cocheiro que tocasse para Berdsk. Quando os
cavalos arrancaram, ele ainda gritou para mim:

- Adeus, Vossa Senhoria! Talvez nos encontremos
um dia!

Realmente, tornamos a nos encontrar, porm em que
circunstncias!. . .

Pugatchev partiu. Durante um bom espao de tempo
permaneci olhando a trica que ia sumindo na estepe coberta
 de neve. O povo foi deixando a praa. Chvabrin sumiu.
Encaminhei-me, ento, para a casa do Padre Guerssim.

Tudo j estava pronto para a nossa partida e eu no
queria retard-la. A bagagem fora arrumada no velho tren
do comandante e o cocheiro atrelava os cavalos. Maria Ivnovna
 foi despedir-se dos pais enterrados no cemitrio que
ficava atrs da igreja. Tive a inteno de acompanh-la; ela,
porm, me pediu que a deixasse ir sozinha. Pouco se demorou,
 e ao voltar trazia no rosto a marca das lgrimas que
vertera.

Tomamos assento no tren, Maria Ivnovna, Palachka
e eu. Savilitch se ajeitou na bolia. O Padre Guerssim e a
mulher estavam na porta para a ltima despedida.

- Adeus, querida Maria Ivnovna! Adeus, caro Piotr
Andreitch ! - acenava a boa mulher. - Uma boa viagem,
e que Deus lhes d muitas felicidades!

Partimos. Vi Chvabrin na janela da casa do coman




dante. Seu rosto denunciava o dio que saturava a sua alma.
Eu, porm, no quis tripudiar sobre o inimigo derrotado e
desviei o olhar. Transpusemos o porto e, para sempre, deixamos
 a Fortaleza de Bielogorsk.


CAPTULO 13
A PRISO

U

mido de maneira to inesperada  minha adorada
 Macha, cujo destino ainda naquela manh tanto me
assustava, eu no podia acreditar na realidade e imaginava
que a cadeia de acontecimentos de que participara no passava
 de um sonho. Maria Ivnovna mostrava-se pensativa,
olhando ora para mim, ora para a estrada, dando a impresso
 de que ainda no recuperara totalmente os sentidos.
Palavras no trocvamos, to cansados estavam os nossos
coraes. Sem que dssemos conta, duas horas depois entrvamos
 na fortaleza mais prxima, tambm ocupada pelos
rebeldes. Ali substitumos os animais. Dada a presteza com
que os atrelaram e dado o apressado atendimento do barbudo
 cossaco, colocado por Pugatchev no comando da fortaleza,
 compreendi que, induzidos pela loquacidade do cocheiro
que nos conduzia, tomavam-me por uma figura importante.

Tocamos para diante. Quando a noite comeou a cair,
estvamos perto de uma pequena cidade onde, conforme
informara o barbudo comandante, havia um poderoso
contingente que ia juntar-se s foras sitiantes do impostor.
Mas fomos detidos por uma patrulha.

- O compadre do czar e a sua mulher! - berrou o
cocheiro.

Eis que um grupo de hussardos cercou o tren aos
urros e um sargento de vasta bigodeira gritou:



- Pule da, compadre do diabo! Voc e sua mulher
vo ver o que  bom!

Desci e exigi que fosse levado ao comandante. Vendo
que eu era um oficial, os soldados sossegaram e o sargento
me conduziu  presena de um major. O tren nos acompanhou
 a passo. Savilitch, que no me largou, resmungava ao
meu lado.

- Est a o que d ser compadre do czar! Samos de
uma fogueira para cair noutra! Santo Deus misericordioso!
Como  que esta encrenca vai acabar?

Em cinco minutos chegvamos a uma casinha fortemente
 iluminada. O sargento me deixou com a sentinela e
entrou. Depressa voltou e disse que Sua Excelncia no
tinha tempo para me receber, mas mandara que eu fosse metido
 na priso e que a minha esposa fosse levada  sua
presena. ,

-  um absurdo! - exclamei, enfurecido. - O
comandante est maluco?

- Como posso saber, excelentssimo? - respondeu o
sargento. - S sei que Sua Excelncia mandou meter o
excelentssimo na priso e levar a excelentssima  presena
de Sua Excelncia.  tudo o que eu sei, excelentssimo!

Atirei-me para a porta. As sentinelas no me barraram
e eu me enfiei pela casa adentro at chegar  sala onde meia
dzia de oficiais de hussardos estavam jogando cartas. O
major preparava-se para distribu-las aos parceiros. Que
surpresa no foi a minha quando, ao defront-lo, reconheci
Ivan Ivnovitch Zrin, o bravo capito que me comera cem
rublos na estalagem de S inibir sk!

- Ser possvel? O senhor no  Ivan Ivnovitch?

- Ora, viva, Piotr Andreitch!  Como passa, meu
caro? De onde vem? No quer entrar aqui no joguinho?



- Muito obrigado. . . Prefiro que me arranje alojamento.


- Para qu? Fique comigo aqui.
^- No posso. Estou acompanhado.

- Pois traga o seu amigo tambm para c!

- No se trata de um amigo. . . Trata-se de uma
senhora. ..

- Uma senhora? Onde a apanhou, meu caro? - e
Zrin deu um assobio to engraado que todos riram e eu fiquei
 encabulado. - Est bem. you arranjar um alojamento.
Mas  pena. . .  Poderamos promover aqui uma festinha
como aquela, lembra-se? - E, virando-se para um hussardo:
 - Voc a, rapaz! Por que no trouxe a comadre de
Pugatchev? Ela est-se fazendo rogada? Diga-lhe que no
precisa ter receio. . . Que o chefe c  boa alma e no lhe
ir fazer mal. . .  Mas, ao mesmo tempo, aplique-lhe uns
cascudos.

- Alto l! De quem est falando? - interpelei Zrin
e, encorpando a voz: - No h comadre de Pugatchev
nenhuma! H  a filha do Capito Mirnov. Eu libertei-a e
a estou levando para a aldeia do meu pai, onde ela vai ficar.

- No me diga! Ento foi voc quem chegou ainda
agorinha? Que histria  essa de compadre de Pugatchev?
No estou compreendendo nada!

- Explicarei tudo depois. Agora, pelo amor de Deus,
vamos tranqilizar a moa que os hussardos amedrontaram!


Zrin deu ordens imediatas. E ele prprio se abalou at
o tren para apresentar suas desculpas a Maria Ivnovna
pelo lamentvel qiproqu e ordenou ao sargento que arranjasse
 para ela o melhor alojamento da cidade. Eu dormiria
em sua casa.



- Muito obrigado. . . Prefiro que me arranje alojamento.


- Para qu? Fique comigo aqui.

- No posso. Estou acompanhado.

- Pois traga o seu amigo tambm para c!

- No se trata de um amigo. . . Trata-se de uma
senhora...

- Uma senhora? Onde a apanhou, meu caro? - e
Zrin deu um assobio to engraado que todos riram e eu fiquei
 encabulado. - Est bem. you arranjar um alojamento.
Mas  pena. . .  Poderamos promover aqui uma festinha
como aquela, lembra-se? - E, virando-se para um hussardo:
 - Voc a, rapaz! Por que no trouxe a comadre de
Pugatchev? Ela est-se fazendo rogada? Diga-lhe que no
precisa ter receio. . . Que o chefe c  boa alma e no lhe
ir fazer mal. . .  Mas, ao mesmo tempo, aplique-lhe uns
cascudos.

- Alto l! De quem est falando? - interpelei Zrin
e, encorpando a voz: - No h comadre de Pugatchev
nenhuma! H  a filha do Capito Mirnov. Eu libertei-a e
a estou levando para a aldeia do meu pai, onde ela vai ficar.

- No me diga! Ento foi voc quem chegou ainda
agorinha? Que histria  essa de compadre de Pugatchev?
No estou compreendendo nada!

- Explicarei tudo depois. Agora, pelo amor de Deus,
vamos tranqilizar a moa que os hussardos amedrontaram!


Zrin deu ordens imediatas. E ele prprio se abalou at
o tren para apresentar suas desculpas a Maria Ivnovna
pelo lamentvel equvoco e ordenou ao sargento que arranjasse
 para ela o melhor alojamento da cidade. Eu dormiria
em sua casa.



Terminada a ceia, ficamos a ss, e eu, ento, narrei-lhe
todas as minhas aventuras. Zrin me ouviu com extrema
ateno. E, quando acabei, balanou a cabea e disse:

- Tudo est muito direito, meu caro. Mas h uma
coisa que no posso compreender. Por que cargas-d'gua
quer casar-se? Eu sou um oficial decente, no quero engan-lo.
 Oua o que eu digo: o casamento  uma maluquice.
Por que se complicar com uma mulher e com filhos? Tire tal
bobagem da cabea!  Preste ateno ao que you dizer:
ponha a filha do capito de lado. Eu fiz uma limpeza em
regra na estrada para Simbirsk. J no oferece o menor perigo.
 Pegue a moa amanh, mande-a sozinha para a casa de
seus pais e fique comigo aqui. No precisa voltar para
Orienburg. No precisa, nem deve. Se cair outra vez nas
garras deles, tenho minhas dvidas de que escape com vida.
Assim, sua efervescncia sentimental ir extinguir-se por si
mesma e tudo entrar em forma.

Conquanto eu no estivesse inteiramente de acordo
com ele, entendia que era do meu dever permanecer no
Exrcito da imperatriz. E decidi seguir mais ou menos o seu
conselho: mandaria Maria Ivnovna para a aldeia dos meus
pais e ficaria no destacamento dele.

Quando Savilitch veio para cuidar das minhas roupas,
determinei-lhe que se aprontasse para viajar, no outro dia,
com Maria Ivnovna. Ele relutou:

- Que idia, senhor! No posso deix-lo. Quem cuidar
 do senhor? Que iro dizer seus pais?

No ignorando a sua natural obstinao, procurei
demov-lo com lealdade e afeto:

- Meu grande amigo Arkhip Savilitch! No me
negue mais este favor. Posso dispensar aqui os seus servios.
 Mas ficaria aflitssimo se Maria Ivnovna partisse



desacompanhada. Servir a ela  o mesmo que servir a mim,
pois tomei a irrevogvel deciso de me casar com ela, to
cedo as circunstncias permitirem.

Savilitch levantou os braos num gesto de profundo
espanto:

- Casar? O meu patrozinho quer casar-se? E que
ir dizer seu pai? E sua me, o que ir pensar?

- Eles aprovaro. Tenho certeza que aprovaro, depois
 que conhecerem Maria Ivnovna. Confio tambm em
voc. Papai e mame prezam muito voc. Ir interceder por
ns, no ir?

O querido velho ficou comovido:

- Ah, meu patrozinho Piotr Andreitch! Acho que 
muito jovem ainda para se casar. Mas Maria Ivnovna 
uma moa to boa que seria um verdadeiro pecado perder a
oportunidade. Case, case como  do seu gosto! Eu you
acompanhar aquele anjo sim. Como servo fiel, provarei a
seus pais que uma noiva assim no necessita trazer dote.

Agradeci a Savilitch e me deitei para dormir no quarto
 de Zrin. Satisfeito, excitado, comecei a tagarelar. Meu
hospedeiro ia dando trela, mas, pouco a pouco, suas palavras
 foram-se espaando e perdendo o nexo, at que, em vez
de responder a uma pergunta que fiz, deu um ronco, seguido
de um prolongado assobio. C alei-me e, dentro em pouco,
dormia como ele.

Na manh do dia seguinte, fui ver Maria Ivnovna,
onde se encontrava alojada. Anunciei-lhe os meus planos, e
ela, achando-os sensatos, aprovou-os totalmente. O destacamento
 devia deixar a cidade naquele mesmo dia e, por tal
razo, nada. adiantava a Maria Ivnovna atrasar a sua
partida.

Ao despedir-me dela, confiando-a aos cuidados de



Savilitch, pus-lhe nas mos uma carta para meus pais.
Maria Ivnovna no conteve o pranto e, com voz entrecortada,
 me disse:

- Adeus, Piotr Andreitch! Somente Deus pode saber
se nos tornaremos a ver, mas jamais o esquecerei. At a
hora da morte o senhor estar no meu corao!

Nada pude responder, porque numerosos estranhos nos
cercaram e eu no queria, diante deles, externar os sentimentos
 que me agitavam.

Macha se foi e eu retornei, mudo e tristonho, para a
casa de Zrin. Ele achou que eu devia distrair-me; aceitei a
sugesto para aliviar o peso do corao e passamos o resto
do dia em barulhentos e movimentados divertimentos.
Quando a noite desceu, pusemo-nos em marcha.

Escoavam-se os ltimos dias de fevereiro. O inverno,
que tornava difceis as operaes militares, estava por
pouco e os nossos generais se preparavam para uma ao
conjunta.

Pugatchev mantinha-se estacionado nas imediaes de
Orienburg, enquanto, de todas as direes, as nossas tropas
se dirigiam para o ponto onde ele estava. Diante das nossas
armas, as aldeias rebeladas se entregavam, grupos de bandidos,
 em todos os lugares, fugiam e tudo anunciava um fim
rpido e feliz.

No se passou muito tempo para que diante da Fortaleza
 de Tatichtev, o Prncipe Golozin derrotasse Pugatchev,
dispersasse o bando e libertasse Orienburg, concorrendo
decisivamente para o esmagamento final da rebelio. Zrin
foi encarregado duma ao contra um bando de basquires,
que sumiu antes que o vssemos. O degelo da primavera nos
bloqueou numa aldeia trtara. Os rios pularam do leito e as
estradas ficaram impraticveis. Nossa inrcia era consolada


com a idia de que, bem depressa, terminaria aquela guerra
mesquinha e aborrecida contra bandoleiros e selvagens.

Pugatchev, porm, no foi apanhado. Conseguiu escapar
 para a Sibria, onde organizou novos bandos e recomeou
 os seus atos de banditismo. A notcia dos seus sucessos
espalhou-se mais uma vez. Soubemos que aniquilara vrias
fortalezas siberianas. E, pouco depois, a tomada de Kazan e
a marcha do impostor em direo a Moscou alarmaram os
comandantes imperiais que haviam negligentemente confiado
 na incapacidade do terrvel revolucionrio.

Zrin recebeu ordem de cruzar o Volga e avanar celeremente
 para Simbirsk, j ameaada pelo fogo dos rebeldes.
A possibilidade de abraar meus pais e ver Maria Ivnovna
me encheu de contentamento. Zrin riu da minha exaltao
e, num sacudir de ombros, disse:

- Tinha a certeza de que acabaria mal. Vai casar-se e
ser um homem perdido!

Ensarilhamos as armas numa aldeia para passar a
noite. No dia seguinte vadearamos o rio. A autoridade local
me informou que, na outra margem, todas as aldeias estavam
 rebeladas e que os homens de Pugatchev andavam 
solta. A notcia me inquietou muito. Fiquei impaciente. A
aldeia de meu pai ficava na margem oposta, distante uns
trinta quilmetros. Pensei em atravessar o rio, j que todos
os aldees eram pescadores e no faltavam barcos. Fui
comunicar a Zrin a minha inteno:

- No se precipite - aconselhou-me ele. -  muito
arriscado ir sozinho. Deixe o dia romper. Seremos os primeiros
 a atravessar o rio e correremos a visitar seus pais,
levando um esquadro de hussardos para qualquer emergncia.


Bati o p. O barco estava pronto. Tomei assento, leva




v dois remadores comigo que imediatamente- impulsionaram
 a frgil embarcao. O cu estava bastante claro. O
Volga corria serenamente. O barco ia num suave balano,
vencendo, fcil, a pequena ondulao das guas. Meia hora
passou. No meu pensamento se misturavam a tranqilidade
da natureza, os terrveis acontecimentos polticos e sonhos
de amor. . . Chegamos ao meio da corrente. Foi quando os
remadores comearam a cochichar.

- Que se passa? - perguntei, voltando  realidade.

- No sabemos - responderam, com os olhos fixos
num mesmo ponto.

Olhei tambm na mesma direo e vi, nas sombras
noturnas, qualquer coisa que deslizava rio abaixo. O indiscriminado
 objeto se aproximava de ns. Mandei que os
remadores parassem e aguardassem. A lua se ocultou por
trs de uma nuvem. O objeto ficou ainda mais escuro. Perto
j estava, mas impossvel de se distinguir o que era.

- Que ser? - interrogaram-se os remadores. -
No parece ser vela, nem mastro.

Sbito, a lua saiu de trs da nuvem e aclarou um espetculo
 sinistro. Ao nosso encontro vinha uma forca armada
numa jangada, e dela pendiam trs corpos. Fui assaltado
por uma mrbida curiosidade. Queria ver os rostos dos
enforcados. Ordenei aos remadores que encostassem o
barco na jangada. Houve um pequeno choque e eu saltei
para a forca flutuante. A lua cheia iluminava os rostos desfigurados
 daqueles desgraados. O primeiro era um velho, o
segundo um campons, rapaz robusto e saudvel, que no
tnha mais de vinte anos. O terceiro provocou-me um choque,
 e no contive um grito de comiserao. Tratava-se de
Vanka, o meu pobre Vanka, que aderira a Pugatchev por



T

mera ignorncia. Na viga da qual pendiam, estava pregada
uma tbua com os dizeres pintados em branco: "Ladres e
rebeldes". Os remadores, algo insensveis, mantinham a jangada
 presa com um gancho. Voltei ao barco. E a jangada
prosseguiu sua ttrica viagem. Por algum tempo, a forca
avultou na escurido. Finalmente sumiu e o meu barco abicou
 na margem alta e ngreme.

Dei uma regia recompensa aos remadores e um deles
me conduziu  autoridade da aldeia mais prxima. Entramos
 na isb. Ao saber que eu pretendia cavalos, tratou-me
bastante grosseiramente, mas o meu guia sussurrou-lhe alguma
 coisa no ouvido e, como num passe de mgica, a atitude
 do homem se transformou radicalmente. Num abrir e
fechar de olhos, o carro estava  minha disposio. Acomodei-me
 e mandei que o cocheiro tocasse para a nossa aldeia.

amos a trote pela larga estrada, passando por povoaes
 adormecidas. S temia ser detido no caminho. Se o
encontro da jangada no Volga denunciava a presena dos
rebeldes, demonstrava tambm a forma enrgica com que as
foras imperiais os enfrentavam. Para qualquer emergncia,
eu levava no bolso o salvo-conduto assinado por Pugatchev
e uma ordem de Zrin. Felizmente no encontrei vivalma e,
ao romper da manh, deparei com o rio e o pinheiral atrs
do qual fica a nossa aldeia. O cocheiro chicoteou os cavalos
e em quinze minutos entrava na povoao, em cuja extremidade
 estava a casa senhorial. Os animais devoravam o terreno,
 mas, de repente, no meio da rua principal, o cocheiro
comeou a refre-los.

- Que  que h? - perguntei, impaciente.

- H uma barreira, senhor - respondeu dle, (conseguindo
 conter os fogosos cavalos,    sy 




Na verdade, vi uma barreira e uma sentinela armada de
cacete. O mujique se acercou e, tirando o gorro, pediu-me o
passaporte.

- Para qu? Que significa esta barreira?

-  que estamos revoltados, patrozinho - respondeu
 o homem, cocando a cabea.

- Onde esto os patres de vocs? - perguntei, com
o corao apertado.

- Os nossos patres esto presos no depsito de
trigo. t

- No depsito? Que histria  essa? '

- Andriuchka, secretrio da Cmara, mandou amarr-los
 e prend-los. Vai lev-los depois ao paizinho czar.

- Santo Deus! Abra a barreira, idiota! Por que no
se mexe?

Ele no se movia. Pulei do carro, dei-lhe um empurro
e abri a barreira. O mujique me olhava com parvo espanto.
Voltei ao carro e mandei tocar para a casa senhorial.

O depsito de trigo ficava no ptio. Junto  porta trancada,
 dois mujiques montavam guarda, tambm armados de
cacetes. O carro parou diante da porta. Saltei e fui direto a
eles:

- Abram a porta! - ordenei.

Meu aspecto devia ser amedrontador, pois largaram os
cacetes e fugiram em disparada. Tentei forar a fechadura
ou arrombar a porta; esta, porm, era de ferro e a fechadura,
extremamente resistente. Foi quando um jovem mujique,
saindo da isb dos servos, veio superiormente me interpelar
pelo atrevimento.

- Onde est Andriuchka? - berrei-lhe. - Chame-o
imediatamente.

- Eu sou Andrei Afanassievitch, e no Andriuchka!



- respondeu orgulhosamente, pondo as mos nos quadris.

- Que quer?

No dei resposta. Agarrei-o pela gola e, arrastando-o
para a porta, mandei que a abrisse. Ele relutou, mas, com
dois senhoriais bofetes, entrou na linha e, tirando a chave
do bolso, abriu a porta do depsito. Precipitei-me e fui
encontrar meus pais num canto frouxamente iluminado por
uma pequena fresta na parede. Tinham as mos e os ps
amarrados. Olharam-me surpresos.  que trs anos de servio
 militar haviam operado tal mudana em mim que no
podiam prontamente me reconhecer.

Logo ouvi uma voz meiga e conhecida:

- Piotr Andreitch !  o senhor?

< Virei-me e vi, no outro canto, Maria Ivnovna, que
tambm estava amarrada. Fiquei assombrado. Papai me
olhava, mudo, como se no acreditasse no que via, mas a
alegria estampava-se no seu semblante. Rapidamente cortei
com o sabre as cordas que os imobilizavam.

- bom dia, Petruchka! - disse papai, apertando-me
contra o peito. - Graas a Deus por poder v-lo!

Minha me chorava:

- Meu querido Petruchka! Como conseguiu chegar
at aqui? Est bem? No foi ferido?

Mas, quando os conduzia para a porta, encontrei-a
outra vez fechada. Gritei:

- Andriuchka! Abra a porta!

- Era s o que faltava! - respondeu-me do lado de
fora. - you ensinar-lhe a fazer badernas e a arrastar pela
gola os funcionrios do czar!

Apesar da parca iluminao, eu quis examinar o depsito,
 na esperana de encontrar um meio de sair, mas papai
me deteve,*-,



- No perca tempo.  lgico que s fiz no depsito
esta porta para entrar e sair. . .

Mame, que se alegrara por alguns momentos, foi tomada
 de forte depresso, ao ver que eu cara na ratoeira e
tambm iria fatalmente ser eliminado. Eu, porm, mantinha-me
 calmo por me encontrar junto deles e de Maria Ivnovna.
 Trazia o sabre e duas pistolas, e assim poderia resistir,
 enquanto Zrin, que deveria chegar  tarde, no nos
libertasse. Participei-lhes minha disposio, e mame e
Maria Ivnovna se acalmaram, tornando a se mostrarem
alegres com a minha chegada, e algumas horas transcorreram
 sem darmos conta, entre demonstraes de afeto e
infindveis conversas.

- Olhe, Piotr - disse meu pai -, voc praticou uma
srie de diabruras e fiquei muito aborrecido. Mas no  hora
de relembrar guas passadas. Acredito que, farto de peraltices,
 tenha-se corrigido. Estou a par dos bons servios que
prestou como um digno oficial. Muito agradeo. Foi um
consolo para a minha velhice. Se ficar devendo a voc a
nossa   liberdade,   meu   fim   de   vida   ser   infinitamente
agradvel.

Chorando, beijei-lhe as mos e fiquei contemplando
Maria Ivnovna, que, vendo-me ao seu lado, parecia
completamente calma e ditosa.

Por volta do meio-dia, ouvimos vozes e uma grande
barulheira. Meu pai ficou intrigado:

- Que ser? Talvez seu coronel tenha chegado. . .

- No  provvel. Antes da noite ele no poderia
estar aqui.

A barulheira crescia. Os tambores rufaram. Ouvia-se o
galopar de cavalos no ptio. E, ento, os olhos de Savilitch
apareceram na pequena fresta e ele falou aflitssimo:



- Andrei Pietrvitch!  Meu patrozinho Piotr Andreitch
 ! Maria Ivnovna! Aconteceu uma profunda desgraa!
   Os   bandidos   entraram   na   aldeia.   E   sabe,   Piotr
Andreitch, quem est  frente deles-? Nem mais nem menos
que o maldito Aliexiei Ivnovitch Chvabrin!

Ao ouvir o odiado nome, Maria Ivnovna ficou paralisada.
 E eu disse a Savilitch:

- Preste ateno! Envie algum de confiana a cavalo
 ao encontro do regimento de hussardos. Ele est perto do
rio. E avise ao coronel que ns corremos perigo de vida.

- Mas quem eu hei de mandar, senhor? Todos os
safados aderiram ao motim e os cavalos esto na mo deles.
Com mil demnios! J entraram no ptio! Esto chegando
ao depsito!

Realmente, ouvimos vozes do outro lado da porta. Fiz
um sinal para que minha me e Maria Ivnovna fossem
para um canto, desembainhei o sabre e me encostei na parede,
 junto da porta. Papai pegou as pistolas, engatilhou-as e
postou-se ao meu lado. A fechadura gemeu, a porta se
escancarou e surgiu a cabea do secretrio da Cmara.
Atingi-o com um golpe de sabre; ele tombou, obstruindo a
passagem, e papai atirou para fora. Os que seguiam o secretrio
 recuaram aos gritos. Carreguei o ferido para dentro e
fechei a porta com o trinco. Mas, na rpida ao, consegui
ver que o ptio estava cheio de homens e que Chvabrin estava
 no meio deles.

- No tenham medo - disse eu s mulheres. - H
esperanas. E o senhor, papai, no atire mais.  preciso
poupar as ltimas balas.

Mame rezava baixinho. Maria Ivnovna, ao lado
dela, esperava com uma serenidade de santa a deciso do
seu destino. De fora vinham ameaas, insultos e blasfmias.






Eu me mantinha firme, pronto para liquidar o primeiro que
aparecesse. De repente, houve um silncio. E ouvi a voz de
Chvabrin que me chamava.

- Estou aqui. Que quer?

- Renda-se, Griniov. No adianta resistir. A teimosia
 no o salvar. you entrar!

- Entre se  capaz, traidor!

- No me quero arriscar infantilmente, nem jogar
com a vida dos meus comandados. you mandar incendiar o
depsito. Vamos ver como sair desta, Dom Quixote de
Bielogorsk! Mas agora est na hora de jantar. Fique a,
decidindo. . . At j! Maria Ivnovna, eu lhe peo desculpas.
 Acho que no ir aborrecer-se no escuro com o seu
paladino.

E o celerado se foi, deixando sentinelas junto ao depsito.
 Ficamos calados, cada qual remoendo as suas apreenses
 e no as transmitindo aos outros. Eu imaginava todas
as ignomnias que o demonaco Chvabrin era capaz de praticar.
 Comigo quase no me preocupava. E devo confessar
que a sorte de Maria Ivnovna me perturbava mais do que a
dos meus pais. No ignorava quanto minha me era querida
pelos servos. Meu pai, no obstante sua inflexibilidade, tambm
 era muito estimado pelo senso de justia que possua e
pela capacidade de avaliar as necessidades dos seus dependentes.
 O motim em que se envolveram era apenas um ato
passageiro de insensatez e no uma manifestao real de
descontentamento. Ambos, portanto, seriam provavelmente
perdoados. Mas Maria Ivnovna? Que destino lhe reservava
o cruel e inescrupuloso Chvabrin? No me atrevia a encarar
todas as hipteses e estava resolvido - que Deus me perdoasse
 ! - a mat-la, antes que v-la, novamente, nas mos
de to nefando algoz.



Uma hora se passou. Da aldeia vinha o canto dos bbados.
 As sentinelas postas  porta do depsito estavam
contrariadas, por no participarem da orgia, e vingavam-se
de ns, involuntrias causas do seu impedimento, assustando-nos
 com a tortura e a morte. Espervamos que Chvabrin
puses'se em execuo as suas ameaas e, finalmente, ouvimos
 um grande movimento no ptio e a voz do traidor:

- Que foi que decidiram? Entregam-se ou no?

No lhe demos respostas. Ele esperou uns minutos e
depois mandou trazer palha. No demorou que as chamas
se levantassem, aclarando o escuro depsito, e a fumaa
comeou a entrar pelas fendas da porta.

Maria Ivnovna chegou perto de mim e, pegando-me a
mo, disse baixinho:

- No teime, Piotr Andreitch. Por minha causa no
se deve sacrificar, nem sacrificar seus pais. Deixe que eu
saia. Farei com que Chvabrin me obedea.

- Nunca! Por nada no mundo! - gritei, arrebatadamente.
 - No tem idia do que a espera!

- No sobreviverei  desonra - respondeu serenamente.
 -  possvel que eu salve quem me libertou e aqueles
 que to carinhosamente me abrigaram e me trataram
como filha.  Adeus, Andrei Pietrvitch!  Adeus, Avdtia
Vassilievna! Abenoem-me! Perdoe-me, Piotr Andreitch!
Esteja certo de que... de que... - E caiu no mais convulsivo
 choro, escondendo o rosto com as mos.

Eu fiquei como um louco. Mame chorava. Papai foi
categrico:

- Deixe de bobagens, Maria Ivnovna! Daqui no
sair sozinha! Se  para morrer, morramos juntos! Ateno
 ! Que est dizendo ele?

Chvabrin berrava:



- Vocs se rendem ou no? No desconfiam que vo
virar torresmo?

- No nos rendemos, miservel! - gritou meu pai.
Seu semblante enrgico e enrugado ganhara intensa animao.
 Os olhos lanaram fascas sob as sobrancelhas grisalhas.
 Virou-se para mim: - Chegou a hora!

Abriu a porta e as chamas invadiram o depsito, subiram
 at o teto, propagando-se nas vigas revestidas de musgo
seco. Meu pai atirou, cruzou a porta incendiada e gritou:

- Vamos!

Tomei minha me e Maria Ivnovna pelo brao e, rpido,
 levei-as para o ar livre.  frente da porta, estava cado
Chvabrin com uma bala no corpo, pois a mo j trmula de
papai no errara o tiro. Os bandidos, que haviam recuado,
ante nossa inesperada sada, reagruparam-se e nos cercaram.
 Distribu alguns golpes de sabre, mas um calhau atingiu-me
 violentamente o peito. Ca e, por alguns instantes,
perdi os sentidos. Fui desarmado. E, quando me recuperei,
vi Chvabrin sentado sobre o capim salpicado de sangue e,
 minha frente, papai, mame e Maria Ivnovna.

Seguravam-me pelos braos e um grupo de servos, cossacos
 e basquires nos cercava. Chvabrin, branco como cal,
com uma das mos comprimia o ferimento na ilharga. Seu
rosto era todo sofrimento e dio. Suspendeu a cabea, encarou-me
 e falou com voz dbil:

- Enforquem-no. . .   Os outros tambm. . .  Mas a
moa no. . .

Fomos arrastados para o porto. Mas, a chegando,
nos largaram e correram. Um esquadro, de sabres em riste,
e com Zrin  frente, vinha a galope.

Os rebeldes fugiram para todos os lados. Os hussardos
os perseguiram, acutilando-os, aprisionando-os. Zrin des




cu do cavalo, fez uma reverncia a meu pai, outra a minha
me e apertou-me calorosamente a mo:

- Cheguei na hora exata! Ora viva, aqui est a sua
noiva!

Maria Ivnovna ficou vermelha como um tomate.
Papai acercou-se dele e cumprimentou-o, msculo, mas
comovido. Mame, porm, pendurou-se nele, chamando-o
de anjo salvador.

- Bem-vindo seja  nossa casa - disse-lhe papai,
encaminhando-o para o vestbulo.

Ao passar por Chvabrin, Zrin parou e perguntou,
olhando para o ferido:

- Quem ?

- Precisamente o chefe do bando - informou meu
pai com o orgulho de um velho militar. - Deus permitiu
que a minha fraca mo castigasse o traidor e vingasse o sangue
 de meu filho.

-  Chvabrin - disse eu a Zrin, dando nome aos
bois.

- Ah,  ele? Fico muito contente em saber! - E,
virando-se para uns hussardos: - Tomem conta dele, rapazes
 ! E previnam ao cirurgio que trate dele com o mximo
cuidado. Quero apresent-lo  comisso secreta de Kazan.
Sendo um dos cabeas do movimento, o seu depoimento
ser de suma importncia. . .

Chvabrin volveu para ns um olhar amolecido. Pela
sua fisionomia via-se que sofria muito. Os hussardos levaram-no
 sobre um capote.

Entramos em casa. Acudiram-me, emocionado, cenas
da minha meninice ali desenroladas. Nada mudara, tudo
como antigamente. Chvabrin no consentira que a saqueas




sem, conservando, mesmo no seu aviltamento, o devido respeito
 pela propriedade alheia.

Os servos domsticos apareceram no vestbulo. No
haviam participado do motim e se mostravam barulhentamente
 contentes com a nossa libertao. Savilitch gozava
as delcias da glria.  bom explicar que, durante a confuso
 provocada pelo ataque dos bandoleiros, ele correra 
cocheira, onde se encontrava o cavalo de Chvabrin, arreara-o
 e sorrateiramente escapulira, galopando ao encontro do
regimento, que descansava  margem do Volga. Tomando
conhecimento do perigo que enfrentvamos, Zrin imediatamente
 ps-se  frente de um esquadro e, a toda brida, conseguira
 chegar a tempo.

Zrin fez questo de que a cabea do secretrio da Cmara
 ficasse exposta por algumas horas em cima de uma
estaca, na porta da taverna.

Os hussardos voltaram da caada aos rebeldes e trouxeram
 uns tantos prisioneiros, que foram trancafiados no
mesmo depsito onde havamos estado. Retiramo-nos para
os nossos quartos. Os velhos necessitavam de descanso.
Como passara a noite toda acordado, ca na cama e dormi
pesadamente. Mas Zrin saiu para tomar providncias que
considerava urgentes.

De noite, reunimo-nos na sala de visitas,  volta do
samovar, rememorando alegremente os superados perigos.
Maria Ivnovna ia enchendo as xcaras. Sentei-me a seu
lado e a ela me dediquei inteiramente. Meus pais deram
mostras de assentimento s nossas relaes. Jamais me
esqueci daquele sero. Eu estava feliz, absolutamente feliz.
Haver, por acaso, muitos momentos iguais na nossa pobre
existncia? *.



No outro dia, logo de manh, vieram comunicar a meu
pai que os servos estavam reunidos no ptio para pedir perdo.
 Quando ele apareceu no patamar da escada, os mujiques
 caram de joelhos. Interpelou-os:

- Que foi que passou pela cabea de vocs, seus
ignorantes? Por que motivo se revoltaram?

- Somos culpados, senhor! - responderam a uma
s voz.

- Ainda bem que reconhecem! Fazem suas maluquices
 e depois se arrependem! Muito bem! Perdo a todos
pela alegria que Deus me proporcionou trazendo meu filho
Piotr Andreitch. Vo com Deus, j que esto arrependidos
 . . .

- Sim,   senhor,   somos   culpados   e   pedimos   seu
perdo.

- Deus nos ofereceu um bom tempo.  preciso aproveit-lo
 para cortar o feno. E vocs, seus palermas, que 
que fizeram durante esses trs dias? Capataz! Leve essa
gente logo para o campo de feno. E tome nota, bicho ruivo,
quero que todo o feno esteja recolhido antes do So Joo!
Todos para o trabalho!

Os mujiques curvaram-se e l se foram para as suas
ocupaes, como se nada tivesse acontecido.

O ferimento de Chvabrin no era mortal. Foi mandado
ara Kazan escoltado. Da janela vi como o puseram numa
arroa. Nossos olhares se cruzaram. Ele abaixou a cabea,
u retirei-me apressadamente da janela, receoso de demonstrar
 algum jbilo pela desgraa do meu inimigo.

Zrin tinha necessidade de prosseguir, que a campanha
ao terminara ali. Decidi acompanh-lo, embora desejasse
passar alguns dias mais com a minha gente. Na vspera,


segundo os costumes daquela poca, ajoelhei-me aos ps de
meus pais, pedindo a bno para o meu casamento com
Maria Ivnovna. Os velhos me ergueram e, com demostraes
 sinceras de alegria, deram o ambicionado consentimento.
 Levei, ento, Maria Ivnovna, muito plida e humilde,
  presena deles. Recebemos a beno. Fujo de escrever
o que senti no momento. Quem j esteve em idntica situao
 sabe perfeitamente o que nos sacode. E, a quem ainda
no esteve, posso somente lamentar e aconselhar que se
apaixone e pea a bno dos pais, enquanto  tempo.

No dia imediato, o regimento estava aprestado para
partir. Zrin apresentou as suas despedidas. Estvamos certos
 de que as operaes militares terminariam em breves
dias. Eu contava casar-me dentro de um ms. Despedindo-se
de mim, Maria Ivnovna me beijou na presena de todos.
Sentei-me no carro, e mais uma vez Savilitch me acompanhava.
 O regimento ps-se em marcha. Olhei demoradamente
 a casa campesina que novamente deixava. Tinha um
triste pressentimento. O corao me dizia que nem todas as
desgraas haviam acabado para mim e ainda haveria
tempestades.

Deixo de narrar a nossa campanha, bem como o fim da
luta contra Pugatchev. Em poucas palavras consignarei que
a calamidade tomou propores alarmantes. Passamos por
terras inteiramente devastadas pelo impostor e, sem o querer,
 tiramos dos mseros habitantes o pouqussimo que haviam
 podido salvar. A administrao pblica deixara de
existir em quase todos os lugares e os proprietrios refugiavam-se,
 amedrontados, nas florestas. Os bandos de facnoras
 perpetravam atrocidades por onde passavam e os
comandantes dos destacamentos enviados em perseguio



dos rebeldes castigavam indiferentemente culpados e inocentes.
 E o quadro geral da vasta regio, onde lavrava o
fogo da contenda, era verdadeiramente trgico.

Perseguido implacavelmente por Ivan Ivnovitch Mikhelson,
 Pugatchev fugiu. Em breve, chegou-nos a notcia da
sua derrota total e aprisionamento, e pouco depois Zrin
recebia ordem de suspender a marcha. A guerra havia terminado.
 Podia eu, finalmente, voltar para a casa paterna! A
perspectiva de abraar meus pais e rever Maria Ivnovna
me enchia de alegria. Pulava como uma criana e Zrin
zombava do meu contentamento.

- Vai acabar na forca do matrimnio, pobre rapaz!

Mas, no auge da alegria, um espinho me pungia o corao,
 empeonhava a minha felicidade: a lembrana de
Pugatchev, manchado pelo sangue de tantas vtimas inocentes
 e com a execuo pairando sobre a sua cabea.
"Emilian! Emilian!", pensava eu, amargurado. "Por que
voc no foi traspassado por uma baioneta, ou no foi atingido
 pelo fogo de um canho? Melhor teria sido o seu destino."
 E eu no podia separar, no pensamento, a figura sinistra
 do bandido do humano e generoso Pugatchev, a quem
devia a vida e a liberdade da minha noiva.

Solicitei uma licena e Zrin prontamente a concedeu.
Em breves dias desfrutaria um repouso junto de meus pais e
junto de minha amada. Mas inesperadamente uma tormenta
desabou sobre mim.

No dia da viagem, no instante mesmo em que me preparava
 para partir, Zrin entrou na isb, com a testa franzida
 pela apreenso e com um papel na mo. Senti uma dor
no peito. Sua presena me assustava, embora sem saber por
qu. Ele mandou a minha ordenana sair e me disse que
tinha recebido uma ordem esquisita.



- Que ordem? - perguntei, alarmado.

- Um pequeno aborrecimento - respondeu, entregando-me
 o papel. - Veja! Acabei de receb-lo.

Li. Era uma ordem secreta, dirigida a todos os comandantes
 de destacamentos, para que eu fosse detido onde me
encontrassem e enviado, sob escolta, para Kazan, onde estava
 instalada a comisso de inqurito que investigava a
revolta de Pugatchev.

O papel quase me caiu das mos. E Zrin falou:

- No  posso fazer nada.  Meu  dever  obedecer.
Suponho que suas idas e vindas com Pugatchev chegaram
ao conhecimento das autoridades imperiais. Espero que a
coisa no d em nada e que se possa justificar plenamente
ante a comisso. No fique triste antes do  tempo.   Trate
de ir.

Eu tinha a conscincia tranqila e no temia nenhum
julgamento. Mas a idia de atrasar, no sabia por quanto
tempo, o meu doce encontro, me arrepiava. O carro j estava
 na porta. Sentei-me entre dois hussardos de sabres
desembainhados e a partida foi dada.



CAPTULO 14

O JULGAMENTO

E,

m tinha absoluta convico de que tudo girava
em torno da sada de Orienburg sem licena. E firmava
minha defesa no fato de que as sortidas eram permitidas, e
at, por todos os meios, fomentadas. Poderiam acusar-me de
excessivo ardor combatente, mas nunca de desobedincia.
Mas as minhas relaes com Pugatchev, das quais havia
numerosas provas, pareciam  primeira vista bastante
suspeitas.

Ao longo do caminho fui pensando no interrogatrio a
que seria submetido, pesando as respectivas respostas que
daria, e acabei por concluir que deveria falar toda a verdade
 comisso, julgando ser o meio mais elementar de me inocentar,
 bem como o mais certo.

Kazan estava praticamente destruda pelo fogo. As
ruas eram montes de escombros e os restos de paredes, sem
portas nem janelas, mostravam as marcas negras das chamas.
 Eram os vestgios da passagem de Pugatchev! Fui levado
 para a fortaleza, que escapara intacta no meio da cidade
 incendiada. Os hussardos me entregaram ao oficial de
dia, que mandou imediatamente chamar o ferreiro. Ligoume
 ele os ps com grossa corrente e fui depois metido numa
cela exgua e sem luz, de nuas paredes, e no alto de uma
delas havia pequena abertura gradeada por onde eu podia
ver um pedacinho de cu. Para comeo, no cheirava nada



bem. Contudo, no perdi o nimo nem a esperana. Recorri
ao consolo de todos os desventurados e, experimentando
pela primeira vez o blsamo da orao, brotada de um corao
 inocente, embora estraalhado, entreguei-me serenamente
 ao sono, sem me preocupar com o que me poderia
acontecer depois.

Na manh seguinte, fui despertado pelo guarda da priso,
 que me trazia a ordem de comparecer  comisso investigadora.
 Dois soldados conduziram-me  casa do comandante,
 que ficava num extremo do ptio. Pararam no
vestbulo e eu entrei sozinho.

Era uma sala bastante ampla.  mesa, atulhada de
papelrio, sentavam-se um general de idade provecta, com
um olhar frio e austero, e um capito da Guarda, que no
teria mais que vinte e oito anos, simptico, maneiroso e
despachado. Junto  janela, numa outra mesa, instalava-se o
secretrio, com a caneta atrs da orelha, dobrado sobre o
papel, pronto para registrar o meu depoimento. E teve incio
o interrogatrio. Perguntaram-me o meu nome e a minha
patente. O general quis saber se eu era filho de Andrei
Pietrvitch Griniov. Respondi que sim. E, ao ouvir a resposta,
 ele comentou, em torn severo:

-  lamentvel que um varo to respeitvel tenha
um filho to indigno!

Com toda a calma, respondi que, por mais graves que
fossem as acusaes que pesavam sobre mim, iria removlas
 com a mera exposio da verdade. A minha convico
no lhe calhou bem, pois, franzindo as sobrancelhas,
retrucou:

-  muito ladino, moo, mas j lidamos com outros
mais finrios e os encostamos contra a parede!

O capito me perguntou quando e em que circuns




tncias me pusera a servio de Pugatchev e de que misses
fora encarregado.

Altivo e indignado, retruquei que, na condio de oficial
 e aristocrata, jamais me poderia colocar a servio do
impostor, ou receber dele qualquer incumbncia.

- Ento como explica que, sendo oficial e aristocrata,
 foi o nico a ser poupado pelo impostor, quando
todos os seus demais camaradas foram brutalmente assassinados?
 Por que tambm se sentou cordialmente  mesa dos
revoltosos e do cabea do movimento recebeu uma pelia,
um cavalo e meio rublo? E por que motivo estabeleceu tal
relao, se no foi por traio ou, pelo menos, por vil e criminosa
 covardia?

As perguntas do capito me ofendiam fundamente e,
com calor, comecei a me defender. Minuciosamente narrei
como conhecera o impostor na estepe, durante uma borrasca
 de neve, e como ele me reconhecera e me poupara na
Fortaleza de Bielogorsk. No neguei que aceitara os presentes,
 pois no vira nenhum mal nisso, mas salientei que participara
 da defesa da fortaleza com o mximo empenho at a
capiturao. E rematei que o general poderia facilmente
apurar a devoo com que me portara no prolongado stio
de Orienburg.

A o general tomou um papel que estava na mesa e leu
em voz sonora:

Atendendo ao pedido de informaes, formulado
por Sua Excelncia, a respeito do Tenente Griniov,
acusado de participar da revolta e de manter estreitas
relaes com o impostor, prticas incompatveis com o
servio e juramento prestado e passveis de severa
punio, tenho a honra de expor o seguinte: o referido



Tenente Griniovfoi incorporado  tropa em Orenburg
em princpios de outubro de 1773, onde permaneceu
at 24 de fevereiro do corrente ano, data em que se
afastou da cidade, no mais se apresentando ao meu
comando. Mas, pela declarao de alguns desertores,
apurei que ele esteve na aldeia onde Pugatchev estabelecia
 o seu quartel-general e com o impostor viajou
para a Fortaleza de Bielogorsk, na qual anteriormente
servira. No que concerne ao seu comportamento,
posso. . .

O general interrompeu a leitura e me perguntou com
dureza:

- Depois do que ouviu, que tem a dizer em sua
defesa?

Era meu propsito prosseguir como havia comeado e
explicar abertamente os sentimentos que me uniam a Maria
Ivnovna, mas, de sbito, senti imenso nojo. Acudiu-me
que, falando nela, sua presena seria requerida para possveis
 acareaes e a idia de envolv-la naquela imunda
questo me pareceu to repugnante que fiquei aptico e
confuso.

Os membros da comisso, que, segundo me parecia, j
"me ouviam com alguma complacncia, em vista da minha
perturbao tornaram a me olhar com preveno. O capito
exigiu que eu fosse acareado com o principal denunciante e
o general determinou que fizessem entrar o bandido aprisionado.
 Com o mximo interesse virei-me para a porta  espera
 do meu denunciante. Poucos momentos depois, ouvi um
arrastar de correntes, e qual no foi a minha surpresa quando
 vi aparecer Chvabrin! Nem parecia o mesmo. Mostrava-se
 tremendamente magro e plido. Os cabelos, que eram



de um negro to intenso, haviam embranquecido e a comprida
 barba estava bastante maltratada. Com voz rouca,
mas incisiva, repetiu as acusaes que fizera. Afirmou que
Pugatchev me mandara para Orienburg como espio e que,
quase todos os dias, eu participava de sortidas com o nico
intuito de entregar aos sitiantes informaes escritas sobre a
situao da cidade. Garantiu ainda que no havia sombra
de dvida sobre minha adeso aos rebeldes e que, junto com
Pugatchev, eu fora de fortaleza em fortaleza, tramando a
perda dos meus companheiros de traio com o intento de
ocupar as suas posies e me beneficiar na destruio dos
esplios feita pelo impostor.

Ouvi-o sem pronunciar uma palavra e at fiquei satisfeito
 pelo fato de Maria Ivnovna no ter sido evocada pelo 
canalha, talvez porque seu amor-prprio sofresse com a                   
lembrana daquela que o repelira com tanto desdm, ou talvez porque seu peito ainda abrigasse uma partcula do                  
mesmo sentimento que me compelira a ficar calado. De                  
qualquer sorte, o nome da filha do Capito Mirnov no foi
pronunciado diante da comisso. Mais firme ainda fiquei na
minha deliberao e, quando me interpelaram de que maneira
 iria refutar as acusaes de Chvabrin, limitei-me a dizer
que mantinha o meu depoimento e nada mais tinha a acrescentar.
 O general ordenou que nos retirssemos. Juntos samos,
 eu e Chvabrin. Sem uma nica palavra, olhei-o com a
maior serenidade. Ele esboou um sorriso maldoso, levantou
 as pesadas e embaraosas correntes e, passando na
minha frente, apressou o passo. Fui metido outra vez na cela
e no me chamaram mais para nenhum interrogatrio.

No presenciei os acontecimentos que se seguiram e
que  preciso relatar ao leitor para que esta histria fique



completa. Mas tantas vezes ouvi cont-los que os mnimos
pormenores ficaram gravados na minha memria de tal
forma que me parece haver deles participado.

A notcia da minha priso estarreceu meus pais. Maria
Ivnovna, plenamente integrada na famlia, contara com
tanta singeleza como eu travara conhecimento com Pugatchev
 que isso no s no os preocupou como at os fez rir
gostosamente. Papai no podia admitir que eu estivesse
comprometido numa revolta cuja finalidade era a derrubada
do trono e a exterminao da nobreza. Severamente imprensou
 Savilitch. O devotado servo no negou que eu tivesse
visitado Pugatchev, que o bandoleiro me houvesse presenteado
 e dado numerosas provas de gostar de mim, mas jurava
 pela salvao da sua alma que em tudo no havia a
menor sombra de traio. Acalmados a tal respeito, os velhos
 puseram-se a esperar, com impacincia, melhores notcias
 minhas. Maria Ivnovna trazia o corao em pnico,
mas, como era supinamente discreta e cautelosa, nada deixava
 transparecer.

Algumas semanas correram e, um dia, papai recebeu
de So Petersburgo uma carta do nosso parente, o Prncipe
B... Toda ela era sobre mim. Aps o intrito protocolar,
comunicava que as suspeitas da minha ligao com os
rebeldes eram infelizmente bastante fundamentadas e que eu
fora condenado  pena mxima. Todavia, a imperatriz,
levando em considerao os servios prestados e a respeitvel
 idade de meu pai, resolvera indultar-me e, livrando-me
da ultrajante execuo, condenava-me  priso perptua
numa remota aldeia da Sibria.

O inesperado golpe por pouco no matou meu pai. Perdeu
 a habitual firmeza, e ele, que sempre calara a dor, passou
 a extern-la em amargas lamentaes.



- Como  possvel?! Meu filho envolvido nos planos
de Pugatchev! Santo Deus, para que vivi tanto? A czarina
indulta-o da pena capital! Mas que me adianta tal piedade?
No  a execuo que  horrvel! Um dos meus bisavs
morreu no patbulo, defendendo princpios que considerava
sagrados. Meu pai foi perseguido por partilhar dos ideais de
Volinski e Khruchtchov, que pagaram com a cabea o seu
idealismo! Mas um nobre quebrar seu juramento, unir-se a
ladres, assassinos e servos fujes  demasiado! Uma vergonha,
 uma desonra para a nossa estirpe!

Mame, assustada com aquele desespero, continha o
pranto na frente do marido e se esforava para sosseg-lo,
dizendo-lhe que as notcias poderiam ser infundadas e
lembrando-lhe a inconsistncia da opinio pblica. Mas
meu pai permanecia inconsolvel.

Mais que todos, sofria Maria Ivnovna. Convencida de
que eu poderia provar minha inocncia quando bem quisesse,
 suspeitava do que me impedia faz-lo e se achava culpada
 de meu infortnio. Escondia as suas lgrimas, e no
tinha outra idia seno a de me salvar.

Certo dia, papai sentou-se no diva para compulsar o
Calendrio da Corte. Mas seu pensamento andava longe e a
leitura no produzia nele o costumeiro efeito. De vez em
quando assobiava uma velha marcha. Mame, em silncio,
tricotava um casaquinho de l, sem poder evitar que algumas
 lgrimas viessem a molhar o seu trabalho. De repente,
Maria Ivnovna, que tambm estava na sala ocupada com
uma costura, levantou a cabea e manifestou a necessidade
de ir a So Petersburgo, rogando que lhe dessem os recursos
para a viagem. Mame ficou aflita:

- Mas por que precisa ir a So Petersburgo, Maria
Ivnovna? Ser que nos pretende deixar?



A moa respondeu que o seu futuro dependia daquela
deciso. Iria empenhar-se com pessoas influentes para obter
proteo, invocando a condio de filha de um homem que
se sacrificara por sua fidelidade.

Papai abaixou a cabea. Toda e qualquer palavra que
lhe recordasse o crime atribudo ao filho pesava-lhe enormemente
 e parecia ser uma ferina censura. E, com um suspiro,
disse:

- Pode ir, minha filha. No devemos pr nenhum
obstculo  sua felicidade. Mas que Deus lhe reserve para
marido um homem decente e no um indigno traidor... -
E, levantando-se, saiu da sala.

A ss com mame, Maria Ivnovna exps-lhe mais ou
menos o seu projeto. Minha me abraou-a fortemente e,
chorando, rezou para que ela fosse feliz em sua empresa. Os
meios para a viagem foram largamente proporcionados e,
poucos dias depois, Maria Ivnovna ps-se a caminho,
acompanhada pela leal Palachka e pelo velho Savilitch,
que se consolava da minha forada ausncia servindo
carinhosamente minha noiva.

Sem maiores tropeos, Maria Ivnovna chegou a Sofia,
que ficava perto da capital, e, sabendo na estalagem que a
corte na ocasio se encontrava em Tsarskoie Siel, decidiu
parar ali. Arranjou uma modesta acomodao na estao
da posta, atrs de um tabique. A mulher do encarregado no
tardou a entabular conversa com ela, contando que era
sobrinha do acendedor de lareiras do palcio imperial e
pondo-a logo a par dos infinitos segredos da vida na corte.
Informou a que horas a imperatriz se levantava, tomava seu
caf, fazia seu passeio matinal; enumerou os nobres palacianos
 que a acompanhavam naquela temporada; repetiu o que
ela dissera no jantar da vspera e relacionou o nome das
personalidades que recebera de tarde. Em resumo, a con




versa de Ana Vlassievna valia por uma verdadeira pgina de
dados histricos, bastante valiosa para a posteridade. Maria
Ivnovna ouvia-a com o maior interesse. Depois foram passear
 no parque. Ana Vlassievna contou a minuciosa histria
de cada alameda e de cada pontezinha. E, quando voltaram
para a estao da posta, vinham satisfeitssimas uma com a
outra.

No dia seguinte, bem cedinho, Maria Ivnovna acordou,
 preparou-se e se esgueirou para o parque. Fazia uma
esplndida manh, o sol dourava o alto das tlias, j amarelecidas
 pelo fresco vento outonal. As guas do lago brilhavam
 mansamente e os cisnes majestosamente nadavam sob
a sombra dos arbustos que cresciam na margem. Maria Ivnovna
 passou por um maravilhoso prado, onde estava sendo
levantado um monumento comemorativo s recentes vitrias
 do Conde Piotr Alexandrvitch Rumiantzev. E a uma
cachorrinha branca, de raa inglesa, latiu e correu para ela.
No mesmo instante, ouviu uma voz feminina, de suave
timbre:

- No tenha medo! Ela no morde.

E Maria Ivnovna viu uma senhora sentada num
banco fronteiro ao monumento. Avanou e foi ocupar a
outra ponta do banco. A senhora no tirava os olhos dela e
Maria Ivnovna, discretamente, olhando-a de esguelha,
pde examin-la dos ps  cabea. Trazia ela um vestido
branco de passeio, touca de dormir e um casaquinho. Podia
ter uns quarenta anos. O rosto cheio e rosado era todo fidalguia
 e serenidade. Os olhos azuis e o sorriso eram extremamente
 sedutores. E foi a dama quem rompeu o silncio,
perguntando suavemente:

- A   senhorita   parece   que   no      daqui,   estou
enganada?



- No, minha senhora. Est certa. Cheguei ontem da
provncia.

- Veio com seus pais?

- No, minha senhora. Vim sozinha.

- Sozinha?! Mas a senhorita  to jovem. . .

- J no tenho pai nem me.

- Naturalmente veio aqui para tratar de algum caso,
no ?

-  a pura verdade. Vim expressamente fazer um pedido
  czarina.

- Se a senhorita  rf, por certo vem fazer uma queixa
 contra uma injustia, ou uma ofensa, no  assim?

- Absolutamente, minha senhora. Eu vim rogar clemncia
 e no justia.

- Poderia dizer-me quem ?

- Sou a filha do Capito Mirnov.

- Capito  Mirnov!   Aquele  que foi  comandante
duma fortaleza na provncia de Orienburg?

- Exatamente.

A imponente dama pareceu comovida e, com a voz
ainda mais suave, falou:

- Perdoe-me se me intrometo nos seus assuntos particulares,
 mas  que tenho acesso fcil  corte. Diga-me qual
 o pedido que pretende fazer e eu me esforarei para que
seja atendida. Acredito que serei bem sucedida.

Maria Ivnovna se levantou e respeitosamente agradeceu
 a ateno. Tudo na desconhecida senhora a atraa e
infundia confiana. Tirou do bolso um papel dobrado e
entregou-o  inesperada protetora, que comeou a l-lo, a
princpio com expresso atenta e simptica. Mas, em dado
momento, ficou carrancuda, e Maria Ivnovna, que no despregava
 os olhos dela, encheu-se de medo com a transfor




mao daquele semblante antes sereno e favorvel. Terminada
 a leitura, a dama perguntou friamente:

- A senhorita pede o perdo de Griniov. Acontece
que a czarina no pode perdoar-lhe. Ele aderiu ao impostor
no por ignorncia ou por imaturidade, mas como um calculado
 e perfeito canalha.

- No  verdade! - replicou Maria Ivnovna com
veemncia.

- Como   no     verdade?   -   voltou   a   senhora,
enrubescendo.

- No ! Deus  testemunha de que no ! Estou a
par de tudo, minha senhora, e vou-lhe contar. Foi nica e
exclusivamente por minha causa que ele suportou todas as
acusaes sem se defender. No me queria envolver de
maneira alguma na questo.

E ela relatou, calorosamente, tudo quanto o leitor j
conhece, enquanto a senhora escutava-a com redobrada
ateno.

- Onde a senhorita est hospedada? - perguntou ao
final da minuciosa exposio.

E, ao saber que Maria Ivnovna se encontrava sob o
teto de Ana Vlassievna, esboou um sorriso e disse:

- Ah, perfeitamente! Agora, adeus. E no diga uma
s palavra a ningum sobre o nosso encontro. Tenho f de
que bem depressa receber uma resposta  sua carta.

E, levantando-se, enveredou por uma ensombrada alameda,
 enquanto Maria Ivnovna voltava para a estao da
posta, com o corao palpitando de esperana.

Ana Vlassievna passou-lhe um pito por ter sado to
cedo, enfrentando a frialdade do outono, sempre perigosa
para a sade de uma jovem delicada como ela. Trouxe o
samovar e, enquanto saboreava o ch, atacou o seu assunto



predileto e inesgotvel: a vida palaciana. Mas, ao cabo de
poucos minutos, eis que pra uma carruagem da corte 
porta, e um lacaio, com a libre imperial, traz o convite da
czarina para uma urgente visita da Senhorita Mirnov ao
palcio.

Ana Vlassievna caiu das nuvens:

- Meu Deus! A imperatriz mandou cham-la! Como
foi que ela soube que estava aqui? E como  que vai-se apresentar
 a ela? Aposto que no sabe fazer as reverncias da
etiqueta! No seria melhor que eu a acompanhasse? Poderia
 ser de muita utilidade... E no me diga que vai-se apresentar
 com esse vestido de viagem. . . Talvez fosse conveniente
 pedir emprestado  minha comadre um lindo vestido
amarelo que ela tem.  um vestido de alta cerimnia!

O lacaio completou o convite dizendo que a czarina
exigia que Maria Ivnovna comparecesse sozinha e com o
vestido que trouxesse na ocasio. Ana Vlassievna deu-se por
vencida e Maria Ivnovna subiu na carruagem sob uma
chuva de bnos e recomendaes da nova amiga.

Maria Ivnovna tinha o pressentimento de que a sua
vida iria ter uma soluo e o seu corao batia aceleradamente.
 Minutos aps, a carruagem parava diante do palcio.
De pernas bambas, Maria Ivnovna subiu a escadaria. E as
portas foram-se abrindo uma aps outra. Atravessou numerosas
 salas, riqussimas e desertas, com um lacaio  frente,
mostrando-lhe o caminho. Por fim, pararam ante uma porta
fechada. O guia palaciano disse-lhe que esperasse ali,
enquanto ele iria anunci-la  czarina.

Ao pensar que iria estar com a imperatriz frente a frente,
 perturbou-se tanto que mal podia suster-se de p. No foi
grande a espera, a porta se escancarou e ela foi introduzida
no quarto de vestir da czarina.



Estava a soberana sentada diante da penteadeira. Alguns
 cortesos, que a rodeavam, respeitosamente deram
passagem  jovem visitante. Muito gentilmente a imperatriz
se virou e Maria Ivnovna pde reconhecer a senhora com
quem to abertamente falara h poucos minutos atrs. A
Imperatriz Catarina chamou-a mais para perto e disse,
sorrindo:

- Sinto-me particularmente feliz em poder cumprir a
minha palavra e atender a seu pedido. O caso est resolvido.
Estou plenamente convencida da inocncia do seu noivo.
Aqui tem uma carta, que rogo entregar pessoalmente a seu
futuro sogro.

Foi com a mo tremendo que Maria Ivnovna recebeu
a carta e logo caiu ajoelhada aos ps da imperatriz, que
afetuosamente a levantou e a beijou. Quando Maria Ivnovna
 se acalmou, a soberana disse-lhe:

- Senhorita, eu sei que no  rica. Mas eu contra
uma grande dvida e devo pag-la  filha do Capito Mirnov.
 Portanto, no se preocupe com o futuro. Assumo solenemente
 o provimento das suas necessidades.

E, depois de abraar a jovem carinhosamente, disse-lhe
que a entrevista estava terminada e a carruagem que a trouxera
 iria lev-la de volta.

Ana Vlassievna, que a esperava morrendo de impacincia,
 crivou-a de perguntas, s quais Maria Ivnovna ia
respondendo com o cuidado de escamotear determinadas
coisas. Ana Vlassievna mostrou-se decepcionada com to
grande falta de memria, mas atribuiu as lacunas a um
acanhamento provinciano e generosamente perdoou a moa.
Maria Ivnovna, sem ter a menor curiosidade de conhecer
So Petersburgo, no mesmo dia voltou para a aldeia.



Assim terminam as notas deixadas por Piotr Andreitch
Griniov. Sabe-se, por tradio familiar, ter sido posto em
liberdade nos fins de 1774, por ordem assinada pela imperatriz,
 e que estava presente  execuo de Pugatchev, o qual,
reconhecendo-o no meio da multido, dirigiu a ele um
cumprimento com a cabea, que pouco depois era mostrada
ao povo medonhamente ensangentada. Dias mais tarde,
Piotr Andreitch se casava com Maria Ivnovna, e os seus
descendentes, at hoje, vivem prsperos e felizes na provncia
 de Simbirsk. Possuem vastas propriedades e, numa das
casas senhoriais, h, ricamente emoldurada, uma carta do
punho de Catarina II.  endereada ao pai de Piotr
Andreitch e nela consta o perdo do seu filho, assim como
altos elogios  sua inteligncia e  bondade da filha do Capito
 Mirnov.

Os manuscritos de Piotr Andreitch Griniov nos foram
entregues por um dos seus netos, que soube estarmos empenhados
 na elaborao de um estudo da poca descrita por
seu av. Tomamos apenas a liberdade de alterar alguns
nomes prprios.

O EDITOR.
19 de outubro de 1836.



ALEKSANDER S. PUSHKIN

Aleksander Sergeyevich Pushkin nasceu em
Moscou, em 1799, e morreu em
So Petersburgo, em 1837. Considerado o
fundador da literatura russa,
foi poeta, dramaturgo, romancista e tambm
pesquisador da histria de seu
pas. Oficial da Guarda Imperial, tomou
A parte numa conspirao que

 fracassou. Foi ento deportado para o

Cucaso e s retornou a So
Petersburgo quando o Czar Nicolau
concedeu-lhe o perdo. Nessa poca, j
tinha uma certa fama como escritor, tendo
escrito Ruslan e Ludmila, um
poema baseado numa lenda popular russa.
Pushkin foi o tradutor de
uma verso francesa da obra "Lira 71" da
Marlia de Dirceu, do escritor
brasileiro Toms Antnio Gonzaga. Alm
de A Filha do Capito, publicado
em 1836,  autor de vrias obras, como
Eugene Onegin, A Dama das
Espadas, Boris Godunov e O Prisioneiro
do Cucaso.
